sábado, 7 de maio de 2011

Blade Runner - A História de um Filme-Culto

   Desde que o cinema existe como entretenimento de massas, existiram sempre filmes marcantes e decisivos nesta ou naquela década, neste ou naquele género. Nas últimas décadas do século passado, filmes como "2001: Odisseia no Espaço" (Stanley Kubrick, 1968), as trilogias "Star Wars" (George Lucas, 1977-2005), "Matrix" (Andy & Larry Wachowski, 1999-2003), "Senhor dos Anéis" (Peter Jackson, 2001-2003), foram filmes marcantes nas diversas gerações de espectadores e na evolução do cinema. Mas talvez nenhum filme tenha ganho tanto carisma e sido tão rapidamente elevado ao estatuto de filme-culto como "Blade Runner".
   A acção situa-se em 2019 numa Los Angeles futurista. Após um motim a bordo de uma nave espacial levado a cabo por um grupo de "Replicants"  da série "Nexus-6", os mais avançados do mundo, idênticos aos humanos, mas muito mais fortes, regressam á Terra em busca do seu Criador para que este lhes aumente o tempo de vida limitado a 4 anos. Para os encontrar e "retirar" (matar) é chamado o ex-"Blade Runner",  Rick Deckard,  considerado o melhor no seu trabalho e que relutantemente aceita. O que parecia, à partida, mais uma missão para Deckard, transforma-se, a partir do momento em que conhece Rachel, numa outra busca.
   Publicado em 1968, o livro "Do Androids Dream of Electric Sheep?" escrito por Philip K. Dick,  chamou desde logo as atenções pela maneira como tendo como pano de fundo uma história policial, o autor levantava questões morais sobre "o que é ser humano? o que é verdadeiro? o  que é falso?"  `as quais Rick Deckard tenta responder enquanto, um a um, vai "retirando" os "replicants". 
   No livro, a população vive em cidades decadentes, a humanidade foi quase destruída por uma guerra e ao posterior envenenamento radioctivo que destrói os genes humanos, os animais estão quase extintos , são raros e os seres humanos  são convidados a ter animais em sua posse para os poderem proteger e preservar, embora muita gente prefira ter um animal sintético por ser mais barato. No principio da história, Deckard teve uma ovelha real mas depois desta morrer, ele substitui-a por uma eléctrica.
   O autor, na altura, foi abordado por Martin Scorsese  que estava interessado em adaptar o livro para o grande écran, mas que nunca optou por o fazer. Durante a década de 70, vários produtores compraram os direitos do livro com intenção de o filmar apareceram mesmo diversos argumentos baseados na obra, mas Philip K. Dick nunca se mostrava suficientemente impressionado com o resultado. Finalmente em 1977, o argumento escrito por Hampton Francher  recebeu luz verde, mas o projecto não tinha pernas para andar.
   No inicio da década de 80, o produtor Michael Deeley interessou-se pelo argumento de Francher e convenceu o realizador Ridley Scott a utilizá-lo para fazer o seu primeiro filme americano. Scott que, anos antes, recusara o projecto, tinha acabado de abandonar a pré-produção de "Dune", queria fazer algo diferente do seu "Alien - O 8ºPassageiro" (1979), juntou-se ao projecto. Quando leu o argumento de Hampton Francher, que se focava mais nas questões ambientais do que nas questões humanas e da fé, que têm grande peso no livro, Scott  quis fazer mudanças. Francher abandona o projecto em divergência com o outro argumentista, David Peoples, que Michael Deeley tinha contratado para reescrever o seu argumento, embora tenha voltado mais tarde para contribuir com novas ideias.
   Philip K. Dick, ao tomar conhecimento deste novo desenvolvimento do projecto, ficou preocupado pois ninguém lhe tinha dito  nada acerca dum eventual filme, uma vez que ele fora muito crítico em relação ao primeiro argumento de Hampton Francher. Quando leu a revisão de David Peoples, Dick mostrou-se muito entusiasmado com o trabalho e com o resultado final para o grande écran que lhe foi mostrado pelo estúdio num visionamento particular. Agradeceu a Ridley Scott por este ter criado um mundo para o filme exactamente como ele tinha o tinha imaginado. Pouco tempo antes da estreia, Philip K. Dick morreu sem poder ver o sucesso que iria obter. O filme foi-lhe dedicado pelo realizador e pelos produtores.
Cartaz Original de 1982
   Apesar de ser primeiramente um filme de ficção científica, "Blade Runner" vai mais longe que isso, opera em múltiplos níveis quer dramáticos quer narrativos e é percorrido pelas convenções do "film noir"  dos anos 40 e 50: a mulher fatal, o protagonista-narrador ( a voz-off numa das primeiras versões para o cinema), a fotografia escura e cheia de sombras, o visual, de questionável moral, do herói (propositadamente, neste caso, usado para incluir reflexões sobre a sua humanidade). É um filme de ficção cientifíca literária cuja temática joga directamente com manipulação genética envolvida com questões filosóficas, religiosas e morais. Estes elementos temáticos providenciam uma atmosfera de incerteza ao longo do tema central de todo o filme: examinar a humanidade. Para isso é usado um teste de empatia, com perguntas acerca do tratamento a animais  designado para provocar uma resposta emocional que define quem é humano e quem não é. Enquanto os replicants mostram alguma compaixão e preocupação uns com os outros, o ser humano é mostrado como sendo  frios e sem personalidade ( as multidões que enchem as ruas de Los Angeles ao longo do filme são disso exemplo). O filme vai tão longe nesta questão que a própria humanidade de  Deckard é posta em dúvida e, através dela, somos levados a reavaliar o que é ser humano. Nem autor, nem realizador, nem argumentistas respondem a esta questão e ela tem sido tema para muitas discussões, contribuindo assim para o crescente interesse em volta do filme.
   A recepção crítica ao filme foi diversa; enquanto alguns ficaram espantados pela grandeza da visão futurista e complexidade temática do filme, outros, mais conservadores, consideram o filme uma traição ao livro ao inverter as personagens de Rick Deckard, que no livro é um homem sem moral, no filme, a sua própria moral é posta em dúvida ao questionar se o que faz é moralmente aceitável ou não e de Roy Batty, o líder dos "Replicants" que no livro não é tão vilão como parece que no filme não olha a meios para ir ao encontro do seu Criador  e atingir a  humanidade. 
Na Europa, a recepção ao filme foi calorosa e foi um dos grandes sucessos de 1982 ( em Portugal foi o 2º filme mais visto, logo a seguir a "E.T. - O Extraterrestre") e hoje  "Blade Runner" é considerado um dos melhores filmes de sempre e um dos mais influentes nas décadas de 80 e 90.
   Desde 1982 que existem ao todo sete versões de "Blade Runner" que resultaram de mudanças feitas pelos executivos dos estúdios que queriam que o filme fosse um sucesso depois do enorme investimento inicial 2, 5 milhões de dólares na pré-produção e de 21,5 milhões de dólares durante a rodagem, que era uma fortuna no início da década de 80. As diferentes versões do filme são:
- A "Workprint version" (1982, 113 minutos), exibida para testar o impacto junto do público. Em 1990      foi exibida como sendo uma "Director's Cut" sem a aprovação de Ridley Scott.
- A "Sneak Preview version", semelhante  à "Workprint version" com três cenas adicionais.
- A "Versão Original" (1982, 116 minutos),  é a mais conhecida de todas as versões. Contém as diversas alterações impostas pelos produtores, incluindo a "voz off" e o final feliz.
- A "Versão Internacional" (1982, 117 minutos), apenas estreada e exibida na Europa e na Ásia, contém mais acção e violência que a versão original. Proibida durante anos nos Estados Unidos, seria editada em "Laser Disc" por ocasião do 10º aniversário do filme em 1992.
- A "Versão para Televisão" (1986, 114 minutos) é a versão original montada para televisão sem as cenas de violência.
- A "Versão do Realizador" (1991, 116 minutos), finalmente o filme idealizado por Ridley Scott e recusado pelos produtores, via a luz do dia e estreava em todo o mundo com grande sucesso. Inclui mudanças significativas na versão original: a "voz off" é removida, acrescenta-se a sequência-sonho do unicórnio e o final feliz, imposto e causa de todas as polémicas entre realizador e produtores, é retirado. Era o renascer de um filme de culto. 
- A "Versão Final" (2007, 116 minutos), no 25º aniversário de "Blade Runner", realizador e produtores estão de acordo e dão liberdade criativa a Ridley Scott para ultimar a versão definitiva do filme. Melhorias a nível de imagem e de som, inclusão de alguns planos deixados de fora em versões anteriores, são o prato forte desta versão final que nada mais é que uma versão remasterizada da versão do realizador.
A Edição definitiva de "Blade Runner"
   Algumas destas versões estão disponíveis, além dum sem número de documentários, entrevistas e outra documentação na excepcional edição de cinco dvd's ou  cinco blu-rays intitulada "The Ultimate Blade Runner Collection", editada em finais de 2007. 
   Sendo baseado num livro de sucesso  teria de acontecer, inevitavelmente tal como no cinema, surgirem sequelas à obra de Philip K. Dick. O encarregado disso foi K.W. Jeter, amigo e seguidor de Dick, escreveu até agora três livros que continuam a história de Rick Deckard e tentam resolver as  muitas diferenças assumidas entre o filme e o livro: "Blade Runner 2 - A Fronteira do Humano" (1995); "Blade Runner - A Noite dos Andróides" (1996) e "Blade Runner - Eye and Talon" (2000).
   Culturalmente influente desde a sua estreia, muito devido ao seu estilo negro e design futurista, "Blade Runner" influenciou grandemente o estilo dos filmes de ficção cientifica subsequentes, animação, vídeojogos e até em séries de televisão, mais recentemente na re-invenção de "Battlestar Galactica" (2003), cujos produtores Ronald D. Moore e David Eick, dizem ter sido influenciados pelo filme de Ridley Scott.

Nota: Todas as imagens deste texto foram retiradas da Internet



quinta-feira, 28 de abril de 2011

Concept Albums

   Em termos musicais, um "Álbum Conceptual" ou "Concept Album" como é vulgarmente conhecido, é um album cujo conceito base gira em torno de um tema que pode ser instrumental, uma composição popular, narrativo ou lírico. habitualmente, "Concept Albums" incluem ideias musicais ou líricas preconcebidas em vez de serem compostos ou improvisados em estúdio, com a totalidade das canções a contribuirem para um único tema ou para a unidade duma história, contrastando com a prática comum de um artista ou grupo editar um album consistindo unicamente numa série de temas sem qualquer ligação.
   Embora muito conotado com os grupos de Rock Progressivo ou Sinfónico do meio da década de 60 para frente, este género de albuns começou mais cedo, por volta de 1961 com um album dos "Ventures" intitulado "Colorful Ventures" em que cada tema correspondia a uma cor. Durante a década de 60, este grupo ficou conhecido por lançar discos cujas faixas giravam à volta de temas centrais como Música Country, Ficção Científica, Televisão e Música Psicadélica...o sucesso não foi grande porque o público ainda não estava preparado para este tipo de albums.
   Em 1966 as coisas começaram a mudar, na medida em que alguns grupos de renome lançaram albuns alegadamente temáticos, a começar pelos Beach Boys com "Pet  Sounds" que nada mais era do que um retrato musical do estado em que Brian Wilson se encontrava na altura, apesar do grupo dizer que não se tratava duma narrativa, havia um tema a unificar todo o disco e obteve um grande sucesso. No mesmo ano, "Freak Out" de Frank Zappa & The Mothers of Invention falava sardonicamente da música rock e da América como um todo e "Face to Face" dos The Kinks apresentava uma primeira série de estudos de Ray Davies sobre as pessoas vulgares.
   1967 viu nascer o primeiro Concept Album e o termo ganhou alguma projecção entre a crítica e o público, "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", dos Beatles conta a história de um ex-líder duma banda do exército e o seu envelhecimento. Embora Lennon e McCartney se distanciem do termo concept album aplicado a este trabalho, este pegou e inspirou outros artistas a trabalhar nesse sentido. No mesmo ano "Days of Future Passed" dos Moody Blues, conta a história de um dia na vida de um homem normal e utiliza uma orquestra conjugada com o grupo. "The Who Sell Out" dos The Who relata a história de uma emissão numa rádio-pirata. Contidos no disco estão  piadas comerciais gravadas pelo grupo  e jingles utilizados por verdadeiras rádios-piratas, misturados com canções que vão desde o pop ao hard rock e rock psicadélico que por esta altura, graças aos Pink Floyd, estava a ganhar algum espaço na cena musical.
Tommy, um concept album ousado para a época
   Em 1969 é editado "Tommy" pelos The Who, esta ópera rock, composta por Pete Townshend era apresentada em dois discos (algo pouco habitual nesta época)e conta a história dum jovem cego, surdo e mudo que se torna numa espécie de  líder messiânico dum movimento rock, foi também o primeiro concept album a apresentar uma história contínua e a obter enorme sucesso quer critíco, quer junto do público. em 1973 os mesmos The Who apresentariam uma outra ópera rock, "Quadrophenia", baseada nos confrontos ocorridos em Inglaterra nos anos 60 entre jovens "Mods" e "Rockers" e nas divergências existentes entre eles.  Obteriam ainda mais sucesso. Ainda no final da década de 60, os Kinks editam  "Arthur, Or the Decline and Fall of the British Empire" de 1969, e uma série de outros trabalhos considerados concept albuns que culminam em 1976 com "Schoolboys in Disgrace".
   Na década de 70, concept albuns estão na ordem do dia graças ao Rock Progressivo que se expandira práticamente pelo mundo inteiro. Logo em 1970 os Aphrodite Child's de Demis Roussos e Vangelis editam o duplo álbum "666" (The Apocalypse of John), baseado no Livro Bíblico do Apocalipse e obtêm um enorme sucesso. Os Pink Floyd, na sua melhor fase, depois dum inicio de carreira psicadélico lançam, em 1973, "Dark Side of the Moon", a sua obra-prima (ainda hoje considerado o terceiro melhor álbum das história do rock) e uma série de outras que só termina nesse objecto de culto musical chamado "The Wall" (1979); os Yes, entre vários concept álbuns que editam durante a década, está "Tales from Topographic Oceans" (1973), um álbum ambicioso, com quatro temas onde, por ordem de faixa, revelam conceitos sobre Verdade, Conhecimento, Cultura e Liberdade. Ainda antes de ser lançado, o álbum já era disco de ouro só pela quantidade de encomendas.
     Os Genesis, referência obrigatória dos anos 70, lançam em 1974 "The Lamb Lies down on Broadway", onde contam a história de Rael, um Punk de rua. Passado numa Nova York surreal, quase um álbum experimental e cujas apresentações ao vivo eram do mais teatral que alguma vez se vira na cena musical (tão ao gosto de Peter Gabriel, vocalista do grupo),  foi o maior sucesso da carreira do grupo e a sua obra-prima. Também David Bowie, camaleão do rock, se deixou encantar por este tipo de trabalhos e durante a década, edita três concept albuns que são os seus maiores sucessos "Aladdin Sane", "Diamond Dogs" "The Rise and Fall of Ziggy Stardustand the Spiders from Mars",  sendo este acerca duma personagem ficticia, Ziggy Stardust e a sua banda.
   Na segunda metade da década, Rick Wakeman, teclista dos Yes lança dois concept albuns que indiciam uma nova orientação na música, "Journey to the Center of the Earth" (1974), baseado no famoso livro de Julio Verne e "The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table"(1975), que, como o título indica , fala do Rei Arthur e é baseado na obra de Thomas Mallory "La Morte d'Arthur".    
O Primeiro Concept Album de Alan Parsons Project
   Também Alan Parsons, um engenheiro de som britãnico, que com o seu Alan Parsons Project e desde o seu primeiro álbum "Tales of Mystery and Imagination - Edgar Alan Poe" de 1976, inspirado pelos contos mais famosos do escritor americano, se especializou inteiramente em concept albums.
   Na década de 80, o rock progressivo  perde importância e os concept albums consequentemente também, embora ainda subsistam alguns grupos apostados em lançar trabalhos desses. Salientam-se os americanos  Styx que em 1981 ganham uma série de discos de platina com o álbum "Paradise Theater" onde contam a história de um teatro decadente em Chicago e que muitos viram como uma metáfora da infãncia e da cultura americana, assim como com "Kilroy was Here" de 1983 onde ensaiam uma espécie de ópera rock futurista onde uma sociedade moralista prende os rockers.
   As bandas de heavy metal começam a ganhar terreno nesta década e algumas chegam mesmo a editar concept albuns como Iron Maiden que, ao longo da década vão conhecer o sucesso mundial com diversos trabalhos, mas somente com "Seventh Son of the Seventh Son" (1988) é que editam o seu concept album, baseado nos mitos e folclore do Sétimo filho de um Sétimo filho com poderes Místicos. Já em 1985 "Phenomena", um supergrupo de músicos oriundos de diversas áreas,  anuncia o regresso dos concept álbuns com um toque de rock pesado. Os três álbuns editados lidam com o sobrenatural e com o inexplicável.
   Na década de 90 e inicio do século XXI, apesar do advento da música alternativa, alguns artistas ainda fazem concept albuns. O Anticristo do rock, Marilyn Manson edita três trabalhos em forma de rock ópera "Antichrist Superstar" (1996), "Mechanical Animals" (1998) e "Holy Wood" (2000) que, no entender do artista, formam uma trilogia em forma de concept album  e fazem parte duma história mais abrangente.
   Em 1999 os Dream Theater  com o álbum "Metropolis Pt.2: Scenes from a Memory", tentam reavivar "o concept Story album". Este álbum é a continuação de um tema que o grupo lançou no primeiro álbum  em 1992  intitulado "Images and Words", o tema, "Metropolis Pt.1: The Miracle and the Sleeper", introduzia a história e, apesar de outras partes desta história surgiram no mesmo  trabalho, o grupo só resolveu contar a história  toda num álbum só, quando obtiveram o controle absoluto no seu trabalho. "Metropolis Pt.2: Scenes from a Memory", é construído em torno dos conceitos musicais  apresentados na parte 1 e está considerado como uma das obras-primas do grupo.
   Em 2004 o grupo punk pop Green Day edita o multi-premiado "American Idiot"  um concept album e que é  seguido em 2009 por outro concept  "21st Century Breakdown". 
A Primeira Ópera Rock Punk na Broadway
   Em 2010 "American Idiot" torna-se na primeira ópera rock punk a chegar à Broadway. Recebe dois Tony's (Óscares do Teatro).
   Enquanto houver  interessados no formato e nas potencialidades que esta variante musical oferece, haverá sempre um concept album presente na discografia de cada artista, assim como público para o ouvir e julgar.


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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Dune de Frank Herbert

   "Dune" (Duna ou simplesmente Dune em português) foi escrito por Frank Herbert em 1965. É considerado por muitos o maior romance de ficção científica de todos os tempos e também o mais vendido de todos os tempos. Em 1966 ganhou o prémio Hugo e recebeu também o Nebula para Melhor Romance logo no ano da sua estreia.
   A acção passa-se no futuro numa espécie de universo feudal governado por Casas Nobres planetárias que devem obediência à Casa Imperial Corrino. "Dune" conta a história da rivalidade secular entre as Casas Atreides e Harkonnen numa altura em que os primeiros são nomeados pelo Imperador para ir controlar o planeta Arrakis, seco e desértico, é onde se encontra a única fonte da Especiaria Melange que é a mais importante e valiosa de todo o universo e da qual todas as Casas são dependentes. Em Arrakis, também conhecido por Dune, a familia Atreides vai ser confrontada com a complexidade da politíca, religião, ecologia, tecnologia e emoções humanas, há medida que as forças do Império se defrontam pelo controle do planeta e da sua Especiaria.
   O interesse de Herbert pelo deserto começou em 1957, na altura ainda não era para ser cenário de livro, quando ele foi visitar em  Florence  no Oregon, as Dunas de Oregon. O Departamento de Agricultura do Governo dos Estados Unidos tinha-o convidado para escrever um artigo sobre "as experiências que estavam a ser levadas a cabo com colheitas pobres para estabilizar dunas de areia que poderiam danificar e engolir cidades inteiras, lagos, rios e até mesmo autoestradas". O artigo do escritor intitulado "They Stopped the Moving Sands", nunca foi completado, mas a sua pesquisa despertou-lhe o interesse pela ecologia.
O Autor Frank Herbert
   Herbert passou então os cinco anos seguintes a pesquisar, a escrever e a rever o texto que viria a ser o livro "Dune", que inicialmente aparecia na "Analog magazine" como dois pequenos trabalhos, "Dune World" (1963) e "The Prophet of Dune" (1965), mas que seriam aumentados, reescritos e rejeitado por inúmeros editores, até que, em 1965, o livro vê a luz do dia...e o resto é história!
   "Dune" tem sido considerado "o primeiro romance de ecologia planetária em grande escala". Mas a preocupação com as mudanças ecológicas e suas consequências só aconteceu a partir da publicação do romance "The Silent Spring" escrito por Rachel Carson em 1962. Em 1965 "Dune" respondeu a essa preocupação com as descrições complexas da vida em Arrakis, desde os gigantes Vermes da Areia que habitam o deserto profundo (para quem a água é mortal), até pequenas formas de vida tipo rato adaptadas para viver com água limitada. Os habitantes do planeta, "Os Fremen" têm um compromisso com aquele ecossistema, sacrificando alguma da sua vontade de verem o planeta carregado de água, para preservar os Vermes da Areia que são tão importantes para a sua cultura. Desde essa altura o romance, na sua criação de ecologias únicas e complexas, foi seguido por outros livros de outros autores. Ambientalistas, inclusive, disseram que muita da  popularidade do romance, ao descrever o planeta como uma coisa viva, por vezes complexa e surgir na mesma altura em que foram divulgadas as primeiras imagens da Terra vista do espaço, terá influenciado muitos movimentos ambientalistas  e terá sido decisiva na criação do Dia Internacional  da Terra.
   Grandemente influenciado pela cultura Árabe e Muçulmana, "Dune" utiliza termos dessas culturas na designação de muitas das suas situações, principalmente quando Paul Atreides, o estrangeiro que adopta os maneirismos do deserto e das suas gentes para tentar libertá-los, se torna no "Muad'Dhib", ou seja numa espécie de Messias (influência do Alcorão) que conduzirá os seus "Fremen" a uma "Jihad" (Guerra Santa) através do universo, vêmo-lo como uma espécie de T.E.Lawrence (mais conhecido como Lawrence da Arábia). A ascensão de Paul segue uma linha comum a todos os romances deste e de outros géneros onde  se decreve o nascimento de um herói. As circunstâncias são as de uma desgraça que cai sobre a personagem mas que, após um período de indecisão e exilio, ele enfrenta e vence o mal. Como tal, "Dune", é mais um representante dessa tendência que começara na ficção científica da década de 60, em que a personagem alcança um estatuto de semideus através de meios cientificos e eventualmente ganha uma espécie de omnisciência que lhe vai permitir assumir o controle do planeta e da galáxia e levar a que os fremen o adorem como a um deus. A diferenciação das personagens de "Dune" de outros superheróis como Superman acontece na forma como adquirem os seus poderes súbita e acidentalmente, Paul ganha os seus através de um lento e doloroso progresso pessoal e ainda ao contrário de outros heróis,  que eram excepções entre gente vulgar nos seus respectivos mundos, as personagens de Herbert cultivam os seus poderes através da aplicação de filosofias místicas e técnica. Foi aqui que "Dune" marcou a diferença que contribuiu definitivamente para o sucesso que ainda hoje tem.
A série original escrita por Frank Herbert
   Em 1969, devido ao grande sucesso obtido, Frank Herbert  publicava "Dune Messiah" dando continuidade ao romance anterior. 1976 vê sair o terceiro volume da série "Children of Dune", a que se seguiriam "God Emperor of Dune" (1981), "Herectics of Dune" (1984) e "Chapterhouse:Dune" (1985). Frank Herbert morreu em 1986.
Kevin J. Anderson & Brian Herbert
   Mais de uma década depois da morte do escritor, o seu filho Brian Herbert, usando notas deixadas pelo pai e em colaboração com Kevin J. Anderson, conceituado autor de alguns romances do universo "Star Wars", deram inicio a uma trilogia intitulada "Dune Prequel", "Dune: House Atreides" (1999)"; "Dune: House Harkonnen" (2000) e "Dune: House Corrino" (2001). A série passa-se anos antes dos acontecimentos de "Dune". O resultado foi acima do esperado, pelo que Herbert e Anderson resolvem  avançar com uma segunda trilogia intitulada "Legends of Dune" composta por "Dune: The Butlerian Jihad" (2002); "Dune: The Machine Crusade" (2003), e "Dune: The Battle of Corrin" (2004). Esta série, segundo Frank Herbert, teria ocorrido cerca de 10.000 anos antes dos acontecimentos de "Dune". O que para Herbert fora uma cruzada da humanidade contra computadores, máquinas pensantes e robots conscientes, é expandido por Brian Herbert e Kevin J.Anderson e transformado numa guerra de gerações entre humanos e máquinas.
   Em 2005 Brian Herbert encontrou 30 páginas dum esboço que seria a continuação de "Chapterhouse: Dune", que seu pai tinha fechado num cofre e intitulara simplesmente de "Dune 7". Novamente em colaboração com Anderson é editado "Hunters of Dune" (2006), seguido de "Sandworms of Dune"(2007), que completam a progressão cronológica da série original e resolvem situações que haviam começado com "Herectics of Dune". É o fechar de um ciclo iniciado em 1984.
   No prefácio de "Hunters of Dune", os autores afirmam pretender continuar a escrever livros sobre o universo de "Dune" num futuro próximo. Uma nova série intitulada "Heroes of Dune" já conta com dois títulos: "Paul of Dune" (2008) e "Winds of Dune" (2009) cuja acção decorre entre os períodos dos romances originais de Frank Herbert.
Esboço do cartaz de Dune realizado por Alejandro Jodorowski
   Claro que o cinema não poderia ficar à margem do sucesso de "Dune" e haveria de  querer adaptá-lo.  Durante a década de 70 várias foram as tentativas de transpor o romance para o grande écran, uma delas, a mais falada, seria pelo realizador Chileno Alejandro Jodorowski,  todas infrutíferas por esta ou aquela razão. 




    No inicio da década de 80, Dino De Laurentiis, o super-produtor internacional e responsável por vários sucessos ao longo das décadas de 60 e 70, a pedido da filha Rafaella, adquire os direitos de livro de Herbert e entrega a realização a David Lynch, realizador que dera nas vistas com o filme "O Homem Elefante" (1980) e que recusara realizar um dos episódios da saga espacial "Star Wars".  Ao fim de cerca de dois anos de filmagens, com cenários idealizados por Salvador Dali e com Frank Herbert a bater a primeira claquette, "Dune"estreia em 1984 nos Estados Unidos e é exibido em ante-estreia em portugal no inesquecível ciclo de ficção científica organizado pela Cinemateca Portuguesa e a Fundação Calouste Gulbenkian (1984-85). A superprodução de ficção científica  idealizada por Lynch, tinha mais de quatro horas de duração e que, segundo o produtor, não podia ter mais de duas e vinte, é um enorme fracasso nas bilheteiras, fruto talvez de uma enorme expectativa gerada à volta do filme que saiu gorada e da qual Dino De Laurentiis nunca recuperou totalmente. Em 1988 o filme foi remontado numa versão para televisão, com cerca de três horas de duração, mas que Lynch nunca aceitou e mandou retirar o seu nome dos créditos.
   Em 2000 o Sci-Fi Channel estreia uma mini-série intitulada "Frank Herbert's Dune" baseada no livro "Dune" mas que em portugal nunca foi nem estreada, nem editada comercialmente. Em 2003 surge a sequela "Frank Herbert's Children of Dune", que adapta "Dune Messiah" e "Chidren of Dune" e que, ao contrário da sua antecessora, foi editada comercialmente, embora com os títulos despropositados de "Dune:   Império Atreides", "Dune: Império Corrino" e "Dune: Império Harkonnen". É claro que os três filmes vistos assim, não fazem sentido absolutamente nenhum, falta-lhes um principio...coisas à portuguesa, já estamos habituados a elas...
   Seja como for, o universo de Dune ainda não disse tudo o que tem a dizer e é sempre com alguma expectativa que se aguardam novas adições àquele mundo imaginado por Frank Herbert.


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sábado, 16 de abril de 2011

Os Pilares da Terra de Ken Follet

                                                                             
                                              
                                                                     
                                                                                                                                                                    

   Desde "O Nome da Rosa" de Umberto Eco, publicado em 1980, que um livro não gerava um consenso tão grande à sua volta. Aclamado pelos critícos literários de todo o mundo e considerado desde logo um clássico  da literatura universal, nomeadamente na sua vertente de romance histórico, o livro de Eco foi um dos grandes sucessos literários do final do século XX.
   Publicado em 1989, "The Pillars of the Earth" (Os Pilares da Terra), romance histórico escrito por Ken Follet viria a redefinir o género de formas nunca antes vistas e trazer o seu autor, mais conhecido por escrever livros de guerra como "Chave para Rebecca", "Vôo Final" ou "Noite sobre as Águas"; thrillers como "O Homem de SamPetersburgo", "O Vale dos Cinco Leões", "Contagem Decrescente", "O Terceiro Gémeo" ou "A Ameaça", para a ribalta.
   A acção de "Os Pilares da Terra" passa-se em meados do século XII,  gira á volta da construção de uma Catedral na cidade de Kingsbridge, Inglaterra, num período que ficou conhecido como Anarquia e que vai desde o afundamento do "White Ship", no Canal da Mancha, ocorrido em 25 de Novembro de 1120 por causas desconhecidas e onde morreram William Adelin, filho legítimo do rei Henry I de Inglaterra e sua corte, até à tentativa de assassinato de Thomas Beckett, Arcebispo da Cantuária.
   Se por um lado seguimos o desenvolvimento da arquitectura gótica para fora da antiga arquitectura românica pela mão de Tom Builder, o Pedreiro que se propõe levar a cabo a tarefa quase impossível de erguer a Catedral, por outro gravitam a ambição religiosa, a intriga social e a luta pelo poder, tendo tudo como pano de fundo acontecimentos históricos verdadeiros.

   Ambientado durante o reinado do Rei Stephen, "Os Pilares da Terra" traça uma rica tapeçaria de intrigas e conspirações e onde explora temas tão diversos como arquitectura medieval, guerra civil, conflitos religiosos e a inevitável ambição política e envolve-nos de tal maneira, transportando-nos para os cenários da acção, que é muito dificil largá-lo. A fabulosa galeria de personagens, principais e secundárias, que vão desde o já citado Tom Builder até ao astucioso e ambicioso bispo Waleran Bigod que não olhará a meios para atingir os seus fins, passando por Ellen, considerado uma bruxa, vive na floresta com o seu filho e guarda um segredo terrível, Aliena e seu irmão Richard filhos do Conde de Shiring, William Hamleigh um sádico e obcecado por Aliena, o Prior Philip, homem bondoso e dedicado á missão de deus, só quer ver Knightsbridge desenvolver-se, é tão bem desenvolvida, as suas accções estão tão bem delineadas, a própria história está tão bem elaborada que, apesar das suas mais de 800 páginas, o livro nunca perde interesse nem se torna monótono.




                                                                                                             


"Os Pilares da Terra" tornou-se o livro mais vendido de Ken Follet, conheceu sucessivas edições. Em portugal foi editado em 1991 numa única edição que rapidamente desapareceu de circulação e onde esteve esgotado até 2007. Graças à mini-série realizada em 2010 para televisão, o livro voltou aos tops e alcançou um novo  público. Em 2003, através dum inquérito, foi considerado na Inglaterra "O Livro mais apreciado pelos leitores".

Sequela literária de "os Pilares da Terra"
   Em Outubro de 2007, Ken Follet escreveu  uma sequela intitulada "A World without End" (Um Mundo sem Fim), cuja acção se passa cerca de 200 anos depois do livro original em Knightsbridge e que foi um sucesso de vendas (através da internet) ainda antes de ser lançado.



Nota: Todas as imagens e vídeos deste texto foram retirados da Internet

domingo, 10 de abril de 2011

Uma Viagem Pelo Cinema Português II

                                                  II - O Cinema Português depois de 1974

   A Revolução do dia 25 de Abril de 1974 seria decisiva para o futuro do cinema português, nomeadamente pelas liberdades que introduziu nas prácticas sociais e culturais do país. No IPC (Instituto Português de Cinema) são criadas Unidades de Produção que, utilizando meios técnicos de produção e post-produção disponibilizados pelo Instituto e a funcionar com um espírito colectivista, têm como objectivo garantir a actividade dos profissionais de cinema, ilustrar as transformações sociais e politicas com que o pais se confronta, fazê-las chegar a locais onde nunca tinham chegado, educar e agitar as consciências. O filme colectivo "As Armas e o Povo" feito pelos Trabalhadores do Sindicato do Cinema e Televisão é o melhor exemplo dessa nova tendência de renovação e inicia um novo ciclo apostado no cinema militante. Nesta nova práctica vão envolver-se António de Macedo, Luis Galvão Telles, Fernando Matos Silva, Alberto Seixas Santos, Rui Simões, um realizador independente que com o seu filme "Deus, Pátria, Autoridade" (1975) faz um dos marcos cinematográficos do cinema político, que repetirá anos mais tarde com o documentário "Bom Povo Português"(1980).
   Retrato duma época, os filmes de intervenção alinhavam todos num mesmo sentido: intervir, viabilizando o cumprimento de um desejo que deixara de ser uma utopia. Qual arma automática, a câmara de filmar era perfeita para ajudar na reviravolta. O documentário é o género preferido de certos cineastas que arriscam uma visão pessoal das coisas, mas a ficção não se deixa abater e é nela que surge algo contraditório: confrontando-se com a realidade da vida "tal qual ela é", a ficção militante cultiva narrativas irreais, exprime-se em alegorias e esboça caricaturas. É o que acontece em "Os Demónios de Alcácer-Quibir" de José Fonseca e Costa (1976), "A Santa Aliança" de Eduardo Geada (1978) ou "A Confederação" de Luís Galvão Telles (1978) que, apesar de terem estado presentes no Festival de Cannes, acabarão por ser considerados como estando fora do tempo.
   A década de oitenta seria, no panorama do cinema nacional, uma década reveladora. Pode-se mesmo considerar uma segunda época de ouro, pelo volume das produções, pela novidade e diversidade nas formas e nos conteúdos. A ficção, logo em 1980, revela novos autores e novas tendências, "Passagem ou A Meio Caminho" de Jorge Silva Melo, "Cerromaior" de Luis Filipe Rocha expressam inovação e algum regresso ao neo-realismo da década de 60, são consensualmente aceites como filmes-chave das novas tendências. Alguma influência do passado está patente em "Manhã Submersa" de Lauro António (1979), onde se explora o rigor formal e alguma memória de repressão; "A Culpa" de António Victorino de Almeida que espelha de forma sarcástica algum sentimento nacional pela guerra colonial que ainda estava bem patente na memória colectiva. A crítica mostra o seu desagrado enquanto o público gosta e quer mais.
   O filme"Verde por Fora, Vermelho por Dentro" de Ricardo Costa (1981) vem de encontro à vontade do público, é, no entanto, um filme insólito, não só pela produção (sem qualquer subsidio do estado), como pela caricatura surrealista nacional (símbolos nacionais  e personalidades delirantes em intrigas políticas - a lembrar Frederico Fellini no seu melhor), o filme seria crucificado pela crítica nacional mas seria bem recebido em festivais internacionais. Com "Oxalá" de António-Pedro Vasconcelos (1980) explora o  um retrato social questionanado a consciência de uma minoria: a do jovem intelectual refugiado em França para escapar  à guerra colonial e que regressa à sua terra. Primeiro filme produzido por Paulo Branco, seria um grande êxito de bilheteira.
Manoel de Oliveira, o mais velho cineasta do mundo ainda em actividade
   A aposta feita por Paulo Branco viria a revelar-se decisiva não só para a continuação da tendência de intervenção de cineastas jovens, como também permitiu que Manoel de Oliveira, após um longo interregno, se tornasse oficialmente um cineasta com  a sua adaptação de "Amor de Perdição" (1978) e filmando até hoje ao ritmo de cerca de um filme por ano (aos 102 anos de idade, completados em 2010, o mais velho cineasta do mundo continua em actividade e sem dar mostras de querer parar!).  Aos novos cineastas como João Botelho que, com "Conversa Acabada" (1981) ganha alguns prémios nacionais e internacionais ou João Mário Grilo que com "A Estrangeira" (1982) está presente em Veneza, João César Monteiro com "Silvestre" (1981) está seleccionado para Veneza, juntam-se também António de Macedo, Fernando Lopes, José Fonseca e Costa, entre outros terão presença relevante ao longo da década.
   A década trará também sucessos de bilheteira. Desde "Kilas, o Mau da Fita" de José Fonseca e Costa (1980) até "A Mulher do Próximo" do mesmo Fonseca e Costa (1988), serão vários, o maior deles será "O Lugar do Morto" de António-Pedro Vasconcelos (1984), este magnifico filme rompe com todas as formas narrativas utilizadas em Portugal, homenageando de uma vez só o policial, o drama e o thriller num exercício de cinema que nunca se vira numa produção nacional. As interpretações sólidas de  Pedro Oliveira (jornalista de profissão) e de Ana Zanatti (locutora de continuidade e actriz ocasional) contribuíram para o sucesso do filme, como contribuiu também a sua estrutura narrativa (o final em aberto terá ocasionado inúmeras discussões entre o público). Continua ser um filme incontornável na cinematografia nacional e um dos melhores filmes portugueses de sempre. Mantendo um pouco a tendência de "O Lugar do Morto", Joaquim Leitão estreia-se  auspiciosamente na realização em 1986 com "Duma vez por Todas" um filme semi labirintíco filmado numa lisboa estranha e desconhecida, com o músico Pedro Ayres Magalhães, tendo o filme obtido um relativo sucesso entre o público mais jovem.
   A década de noventa vê surgir uma nova geração de cineastas, muitos deles vindos do Conservatório Nacional, favorecidos por critérios de apoio oficiais a primeiras obras, impondo uma nova renovação no panorama cinematográfico: Pedro Costa, Teresa Vilaverde, João Canijo, Joaquim Sapinho, entre outros, iniciam as suas carreiras. Alguns dos realizadores mais antigos como João César Monteiro ou Manoel de Oliveira continuam a filmar com regularidade. A partir de 1995 começa uma alternãncia entre realizadores mais novos e mais antigos. "Adão e Eva" de Joaquim Leitão (1995) obtém um enorme sucesso; "A Comédia de Deus" de João César Monteiro (1995) ou "O Convento" de Manoel de Oliveira (1995) obterão sucesso além fronteiras; dos novos, Joaquim Sapinho com o seu "Corte de Cabelo" (1997) foca-se no público mais jovem e ganha a aposta. Em 1997 os realizadores, encorajados pelos sucessos obtidos, aventuram-se em terrenos perigosos: "Tentação" de Joaquim Leitão e "A Sombra dos Abutres" de Leonel Vieira são os primeiros a aperceber-se que existe pouca gente a deixar-se levar por esses caminhos. 
   Nos últimos anos do século XX, ainda temos tempo para regressar à guerra colonial e ás suas memórias com "Inferno" de Joaquim Leitão (1998); visitar bairros marginais de Lisboa com "A Zona J" de Leonel Vieira (1998); conhecer a exploração do trabalho  infantil em "Jaime" de António-Pedro Vasconcelos (1999) ou analisar as duras realidades da vida no Alentejo em "Sapatos Pretos" de João Canijo (1998). Com frequentes toques melodramáticos, como nos velhos tempos, na ficção domina a tendência realista.
   No século XXI, a primeira década é dominada por filmes de autor, apesar de esporádicos regressos aos fantasmas da já longínqua guerra colonial com os "Imortais" de António-Pedro Vasconcelos (2003) ou "20,13"de Joaquim Leitão (2006), a tendência é para um experimentalismo e uma aposta em temas ousados como "O Fantasma" de João Pedro Rodrigues (2000), que aborda uma certa obsessão e o fetiche da homossexualidade masculina de uma forma provocatória; ou "O Crime do Padre Amaro" de Carlos Coelho da Silva (2004), baseado na obra de Eça de Queirós actualizada para a nossa época; e polémicos como "Camarate" de Luis Filipe Rocha (2001) ao abordar o tema incómodo do acidente de Camarate que vitimou o Primeiro Ministro de Portugal em 1980; incómoda é também a história duma filha perdida algures na cidade de Lisboa em "Alice" de Marco Martins (2005). Alguns destes filmes foram mesmo enormes sucessos de bilheteira apesar dos temas que abordam.
   Mas nem tudo é tão intenso neste novo século, "O Filme da Treta" de José Sacramento (2006), baseado num formato de televisão, pôs Portugal inteiro a rir à gargalhada com as conversas de Tony e Zézé, assim como José Fonseca e Costa com o seu filme de época "Viúva Rica Solteira não Fica" (2006) e Fernando Lopes com "98 Octanas" (2006), assumem-se como autores em busca de melhores audiências com temas apelativos e actores conhecidos, mas o público está com a atenção voltada para outros campos que estão ao alcance do teclado e do rato de um computador tornando tudo muito mais fácil e sem incómodos de qualquer espécie.
   Com este novo fenómemo audiovisual sofrem os cineastas que ficaram conhecidos por terem sido eles que outrora encheram salas de cinema em décadas do século passado, cuja imaginação não consegue acompanhar os novos tempos, outros há que perfilham as novas tendências audiovisuais e filmam com esse objectivo. O público nacional, é certo e sabido que consome o que de mais comercial aparece nas salas de cinema, é quem mais ganha com este estado de coisas, o cinema nacional é quem mais perde com isto porque poucos são os filmes nacionais que recebem um aval de exploração comercial nacional e mesmo esses poucos não conseguem triunfar nem dentro nem fora de portas.

Nota: Todas as imagens foram retiradas da Internet

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Uma Viagem pelo Cinema Português I

                                            I - Das Origens a 1974



Curta-Metragem de Aurélio Paz dos Reis
     O cinema em Portugal teve o seu início em 1896, na cidade do Porto com a exibição das primeiras curtas-metragens de Aurélio Paz dos Reis "A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança". Este não é nem mais nem menos do que  uma réplica do filme dos Irmãos Lumière "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" (1894-1895) que é considerado o primeiro filme da história do cinema e, ao mesmo tempo, o primeiro documentário. Paz dos Reis quer explorar o seu cinematógrafo e para isso organiza alguns espectáculos que não obtêm os resultados esperados. Desiludido, viaja para o Brasil para tentar a sua sorte mas regressa pouco tempo depois, junta-se a Manuel Maria da Costa Veiga, para fabricar imagens animadas e tornar-se exibidor de filmes em Lisboa.
   O cinema em Portugal, como indústria , terá o seu inicío em 1918 e durante a década subsequente dedica-se quase exclusivamente à transposição de clássicos da literatura portuguesa para o grande écran, entregando a realização a realizadores estrangeiros. "O Primo Basilío" baseado no romance de Eça de Queirós de George Pallu em 1922; "A Sereia de Pedra" de Roger Lion em 1922 ou ainda as aventuras de "José do Telhado" de Rino Lupo em 1929 são alguns exemplos da produção nacional. Alguns destes nomes serão determinantes na abordagem que os realizadores irão fazer ao cinema, principalmente George Pallu na forma como utiliza a paisagem para enquadrar a vida como ela é, quer seja no campo ou na cidade. Leitão de Barros será grandemente influencido pelo realizador francês, ao recorrer a temas já explorados mas inovando na forma para tentar gerar outro sentido. Com novas fantasias, a ficção explora a realidade.


   O mesmo Leitão de Barros realiza "A Severa" em 1931, o primeiro filme sonoro em Portugal. No ano seguinte constroem-se os Estúdios da Tobis Portuguesa de onde saírão muitas obras do cinema português.Com o desaparecimento do cinema mudo, surge uma nova geração de cineastas que influenciarão  muito o cinema nacional.
   Em 1935 é criado o Secretariado Nacional de Informação e percebe-se o interesse que o cinema tem para o regime. António Lopes Ribeiro torna-se a voz cinéfila de Salazar. A propaganda ideológica e política do regime tem que ser bem gerida como mostra  António Lopes Ribeiro em "A Revolução de Maio" (1937). Nos filmes que o público corre para ir ver, seduzido pelas imagens animadas, reinam actores de revista: Beatriz Costa, António Silva, Vasco Santana, Maria Matos, etc. É a época auréa da comédia. Temas prometedores como a vida boémia e raparigas bonitas em "A Canção de Lisboa" de Cottinelli Telmo de 1933; as touradas eternas em "Gado Bravo" de António Lopes Ribeiro de 1934; a pastora infeliz que vem servir para Lisboa em "Maria Papoila" de Leitão de Barros em 1937; a pureza da vida rural com  "A Aldeia da Roupa Branca" de Chianca de Garcia em 1939 ilustram  bem a cinematografia nacional.


Cena do filme "Camões" (1946)
     Aproveitando o sucesso da Exposição do Mundo Português de 1940, o regime promove o nacionalismo e obras, de grande fôlego épico recebem luz verde, como "Inês de Castro" (1944) ou "Camões" (1946) ambos de Leitão de Barros. Este último Salazar considera ser de interesse nacional, apresentado em Cannes em 1946 e seria o filme mais caro alguma vez feito em Portugal. Mas a década já começara com "Pai Tirano" de António Lopes Ribeiro (1941) e "O Pátio das Cantigas"  de Ribeirinho (irmão de A.Lopes Ribeiro) em 1942 e são ambos comédias bem ao gosto nacional. Também Manoel de Oliveira começa oficialmente a sua carreira de realizador com "Aniki-Bóbó"em 1942 e o filme, ao abordar de forma directa a vida e os amores de uma certa juventude na cidade do Porto, vai contra as regras do jogo.
   Para o grande público, Artur Duarte realiza "O Costa do Castelo" (1943) e "A Menina da Rádio" (1944); Armando de Miranda refaz "José do Telhado" (1945) e obtém um grande sucesso de bilheteira que repetirá com "Capas Negras" em 1947; "Fado, História de uma Cantadeira" de Perdigão Queiroga (1947), Com Amália Rodrigues e Virgilio Teixeira, explora a vertente populista daquele género de música e, ainda no mesmo ano e para o mesmo público, "Leão da Estrela" de Artur Duarte satiriza os adeptos do desporto-rei com enorme sucesso.
   As décadas subsequentes trariam períodos de estagnação e mudança, anunciando certas rupturas  no panorama do cinema nacional. Enquanto António Lopes Ribeiro tenta moralizar o público com "Frei Luís de Sousa" (1950) e Perdigão Queiroga fala ao imaginário da burguesia com "Sonhar é Fácil" (1951), Manuel Guimarães dá o primeiro sinal de mudança ao mostrar, com um toque de neo-realismo, o lado mais cru das coisas. "Saltimbancos" (1951) e "Nazaré" (1952) acentuam esse neo realismo que nunca acontecerá como o realizador pretendia. "Chaimite" de Jorge Brum do Canto de 1953 apela ainda a um certo nacionalismo mas os ventos são mesmo de mudança.
   Na década de sessenta a mudança opera-se numa ruptura dupla: de género e estilo, no que toca ao modo de filmar e o modo de produção, e é política. "Dom Roberto" de José Ernesto de Sousa (1962) e "Verdes Anos" de Paulo Rocha (1963) vêm imbuídos deste espiríto de mudança e de denúncia e marcam o início do chamado Cinema Novo. Fernando Lopes, António de Macedo ou António da Cunha Telles são nomes importantes nesta nova tendência da sétima arte portuguesa que tenta criar condições de auto-suficiência na produção de filmes e conciliar cinema de arte com cinema de grande público, o que nem sempre foi conseguido. No entanto filmes como "Belarmino" (1964), "Domingo à Tarde" (1965), "Sete Balas para Selma" (1967) ou "O Cerco" (1969), este último foi a Cannes, obteve êxito comercial e ainda ganhou alguns prémios oficiais,  são bons exemplos desta tendência.
   Alguns destes cineastas ainda seguem, já na década de setenta, o movimento do Novo Cinema. São eles: António de Macedo com "Nojo aos Cães", de 1969, mas estreado em 1970 e proibido pela censura;  Fernando Lopes com "Uma Abelha na Chuva" (1971) e ainda "O Cerco", três filmes produzidos com recurso a capitais pessoais,  material emprestado, e ajuda de amigos. Já com outros meios de produção, ainda alinham neste movimento realizadores como José Fonseca e Costa com "O Recado" (1971); António Pedro Vasconcelos com "Perdido por Cem" (1972), Fernando Matos Silva com "O Mal-Amado"(1973), Eduardo Geada com "Sofia e a Educação Sexual" (1973) ou Alberto Seixas Santos com "Brandos Costumes" (1974). António de Macedo exibe o resultado deste movimento em Cannes em 1973 com "A Promessa", seleccionado para a competição, é apenas o terceiro filme nacional a merecer tal distinção.
   A década vai ver nascer, ainda sob a égide do Estado Novo, o Instituto Português de Cinema em 1973, que era destinado a gerir financiamentos públicos para a produção de filmes nacionais. Surge também o recurso a uma inovação técnica originária dos anos sessenta: o uso de máquinas de filmar de 16 mm que vieram revolucionar não só as técnicas de filmar, como a própria linguagem cinematográfica, permitindo grande agilidade na filmagem e uma considerável redução nos custos de produção. A abordagem de certos temas torna-se mais fácil que levará alguns cineastas portugueses a optarem por praticar cinema directo, explorando assuntos que até então tinham escapado ao olhar da objectiva sob a forma de documentário. O filme político, o cinema militante, a docuficção e a etnoficção são géneros que marcam a cinematografia que se fez em Portugal na primeira metade da década de setenta e que nela se reinventam.
                                                                                                                          (continua)

                             
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sábado, 26 de março de 2011

O Rei Artur: Mito ou Realidade?

   O Rei Artur é uma figura lendária Britânica que, de acordo com histórias medievais e romances, teria comandado a defesa contra os invasores Saxões chegados à Grã-Bretanha (ou Bretanha como era conhecida na época) no início do século VI.  Os detalhes da sua história são compostos principalmente por folclore e literatura, a sua existência histórica, devido à escassez de antecedentes históricos ou por estes serem retratados em várias fontes, é debatida e contestada por historiadores modernos.
   A lenda do rei Artur ganha interesse através da popularidade do livro de Geoffrey Monmouth "Historia Regum Britanniae" (História dos Reis Britânicos) embora, o seu nome, tenha surgido em poemas e contos de Gales e da Bretanha, publicados antes deste livro. Neles, Artur surge com um grande guerreiro que defende a Bretanha dos homens e inimigos sobrenaturais e, portanto, associado com o Outro Mundo. No livro de Monmouth, mais baseado nos antigos do que inventado por ele, não existindo uma versão comprovada de veracidade do texto, os acontecimentos nele narrados são frequentemente usados como ponto de partida para as histórias posteriores. Geoffrey descreve o rei Artur como sendo um rei da Bretanha  que venceu os Saxões e estabeleceu um Império composto pela Bretanha, Irlanda, Islândia e Noruega.
   Na realidade muitos elementos e acontecimentos que fazem parte da história de Artur aparecem no livro de Geoffrey, incluindo Uther Pendragon, pai de Artur, o mágico Merlin, a espada Excalibur, o nascimento de Artur no castelo de Tintagel, Camelot, a sua batalha final em Camlann contra Mordred, e a ilha de Avalon. 
   A origem do rei Artur tem sido grandemente debatida pelos historiadores e estudiosos. Alguns acreditam que ele é baseado nalguma personagem histórica, provavelmente um chefe guerreiro da Bretanha que tenha vivido entre a Antiguidade Tardia e o inicio da Idade Média, donde terão sido criadas as lendas que hoje conhecemos. Outros acreditam que Artur é pura invenção mitológica, sem nenhuma relação com qualquer personagem real.
   O Artur histórico baseia-se em obras antigas como "Historia Brittonum" (História dos Bretões), escrito em Latim  por volta do ano 830 ou "Annales Cambriae" (Anais da Câmbria), escritos algures no século X, que relatam acontecimentos históricos ocorridos na Bretanha. Artur é apresentado como figura real, um líder romano-bretão (existiu um comandante romano que comandava os Sármatas na Bretanha no século II) que luta contra a invasão da Bretanha pelos Anglo-Saxões, situando a sua existência entre o final do século V e início do século VI. No entanto, ambas as obras tem sido postas em dúvida por estudos recentes que questionam a sua utilidade e  independência como fontes históricas. 
   Já o Artur mitológico terá vivido na Bretagne uma região da actual França, mais exactamente na região de Carnac e a sua história terá tido inicio no século V, quando Honório, imperador Romano mandou retirar as legiões e respectiva população romana da província da Bretagne, apenas as legiões situadas junto da Muralha de Adriano continuaram a cumprir o seu dever defendendo-a dos Pictos do norte e dos irlandeses que a atacavam constantemente. Inconformado com esta situação, Voltigern, um rei Picto pede ajuda aos Saxões do continente para tentar resolver esta situação. 
   Em finas do século V, Ambrosius Aurelianus, um romano da Bretanha, consegue derrotar os Saxões na famosa batalha de Mons Badicus e a situação acalma durante algumas décadas. Mas rápidamente a situação inverte-se e após uma série de batalhas, os reinos celtas da Bretanha ficam reduzidos à Cornualha e a Gales. No século VIII, Nennius, um Bretão, fala dos feitos de um comandante militar de nome Artur, que teria vencido 12 batalhas contra os Saxões. Mas, segundo os historiadores, Nennius tinha uma tendência de preencher lacunas com factos por ele inventados. Ele poderia muito bem ter embelezado a narrativa conforme as necessidades. Não foi ele, no entanto, o primeiro a referir o nome de Artur, já que baladas galesas do século VII, falavam num rei aventureiro do norte da Bretanha, que enfrentava seres fantásticos e corrigia injustiças.
   Nos finais do século XII, Chrétien de Troyes, escritor francês, escreve contos sobre as aventuras do Rei Artur, Sir Lancelot, Guinevere, o Santo Graal, Percival, Gawain, etc. Ao apoiar-se nos mitos populares, deu-lhes o seu cunho pessoal  e iniciou o género de romance arturiano que se tornou numa importante vertente da literatura medieval. Artur e as suas personagens eram muito populares na época e as histórias a partir da Bretanha, tinham-se espalhado por outros países. Salientam-se aqui algumas obras pela importância que tiveram para o nascimento do mito: O ciclo da "Vulgata" francesa (também conhecida como Matéria da Bretanha), "Parzival" de Wolfram von Eschenbach, "La Mort d'Arthur" (A Morte de Artur) de Thomas Mallory; Alguns escrevem sobre todo o ciclo desde a morte de Jesus Cristo até à morte de Artur, criando uma narrativa de séculos; outros descrevem apenas episódios que acontecem a cavaleiros (Tristão e Isolda é um exemplo) ou integram episódios sem ligação inicial ( O Mito do Santo Graal, a Távola Redonda, Tintagel, etc.), incorporam novas personagens ( Galahad).
   O século XVII viu o interesse neste género de narrativa perder algum interesse, embora na ópera se continue a utilizar o tema. Já o romantismo do século XIX fez renascer o interesse pelo tema (inclusive autores americanos como  Mark Twain com o seu "Um Americano na Corte do Rei Artur" homenageiam o género). No século XX, autores como Stephen Lawhead ( O ciclo Pendragon), Bernard Cornwell (O ciclo de "As Crónicas do Senhor da Guerra") e principalmente Marion Zimmer Bradley, conceituada escritora da ficção científica, revolucionou o tema com "The Mists of Avalon" (As Brumas de Avalon) ou a "Saga de Avalon", completaram o trabalho mantendo vivo o interesse e, com a ajuda do cinema e da banda desenhada, permitiram que cada vez mais público tenha acesso ao tema.
   Sem fim à vista, toda a polémica sobre a existência ou não do Rei Artur, continua bem viva: os historiadores, depois duma crítica ao mito, limitam-se a manter uma reserva sobre o assunto; os arqueólogos ( e estudiosos) preferem falar de um período sub-romano, definindo assim aquilo que poderia ser o período arturiano: os séculos V e VI. 
   Para nós, leitores e demais interessados, o que é que sobra, além das belas histórias? não sabemos se Artur existiu ou não, e não o podemos afirmar porque não existem relatos contemporâneos.
  

Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet.

   
   

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