quinta-feira, 21 de abril de 2011

Dune de Frank Herbert

   "Dune" (Duna ou simplesmente Dune em português) foi escrito por Frank Herbert em 1965. É considerado por muitos o maior romance de ficção científica de todos os tempos e também o mais vendido de todos os tempos. Em 1966 ganhou o prémio Hugo e recebeu também o Nebula para Melhor Romance logo no ano da sua estreia.
   A acção passa-se no futuro numa espécie de universo feudal governado por Casas Nobres planetárias que devem obediência à Casa Imperial Corrino. "Dune" conta a história da rivalidade secular entre as Casas Atreides e Harkonnen numa altura em que os primeiros são nomeados pelo Imperador para ir controlar o planeta Arrakis, seco e desértico, é onde se encontra a única fonte da Especiaria Melange que é a mais importante e valiosa de todo o universo e da qual todas as Casas são dependentes. Em Arrakis, também conhecido por Dune, a familia Atreides vai ser confrontada com a complexidade da politíca, religião, ecologia, tecnologia e emoções humanas, há medida que as forças do Império se defrontam pelo controle do planeta e da sua Especiaria.
   O interesse de Herbert pelo deserto começou em 1957, na altura ainda não era para ser cenário de livro, quando ele foi visitar em  Florence  no Oregon, as Dunas de Oregon. O Departamento de Agricultura do Governo dos Estados Unidos tinha-o convidado para escrever um artigo sobre "as experiências que estavam a ser levadas a cabo com colheitas pobres para estabilizar dunas de areia que poderiam danificar e engolir cidades inteiras, lagos, rios e até mesmo autoestradas". O artigo do escritor intitulado "They Stopped the Moving Sands", nunca foi completado, mas a sua pesquisa despertou-lhe o interesse pela ecologia.
O Autor Frank Herbert
   Herbert passou então os cinco anos seguintes a pesquisar, a escrever e a rever o texto que viria a ser o livro "Dune", que inicialmente aparecia na "Analog magazine" como dois pequenos trabalhos, "Dune World" (1963) e "The Prophet of Dune" (1965), mas que seriam aumentados, reescritos e rejeitado por inúmeros editores, até que, em 1965, o livro vê a luz do dia...e o resto é história!
   "Dune" tem sido considerado "o primeiro romance de ecologia planetária em grande escala". Mas a preocupação com as mudanças ecológicas e suas consequências só aconteceu a partir da publicação do romance "The Silent Spring" escrito por Rachel Carson em 1962. Em 1965 "Dune" respondeu a essa preocupação com as descrições complexas da vida em Arrakis, desde os gigantes Vermes da Areia que habitam o deserto profundo (para quem a água é mortal), até pequenas formas de vida tipo rato adaptadas para viver com água limitada. Os habitantes do planeta, "Os Fremen" têm um compromisso com aquele ecossistema, sacrificando alguma da sua vontade de verem o planeta carregado de água, para preservar os Vermes da Areia que são tão importantes para a sua cultura. Desde essa altura o romance, na sua criação de ecologias únicas e complexas, foi seguido por outros livros de outros autores. Ambientalistas, inclusive, disseram que muita da  popularidade do romance, ao descrever o planeta como uma coisa viva, por vezes complexa e surgir na mesma altura em que foram divulgadas as primeiras imagens da Terra vista do espaço, terá influenciado muitos movimentos ambientalistas  e terá sido decisiva na criação do Dia Internacional  da Terra.
   Grandemente influenciado pela cultura Árabe e Muçulmana, "Dune" utiliza termos dessas culturas na designação de muitas das suas situações, principalmente quando Paul Atreides, o estrangeiro que adopta os maneirismos do deserto e das suas gentes para tentar libertá-los, se torna no "Muad'Dhib", ou seja numa espécie de Messias (influência do Alcorão) que conduzirá os seus "Fremen" a uma "Jihad" (Guerra Santa) através do universo, vêmo-lo como uma espécie de T.E.Lawrence (mais conhecido como Lawrence da Arábia). A ascensão de Paul segue uma linha comum a todos os romances deste e de outros géneros onde  se decreve o nascimento de um herói. As circunstâncias são as de uma desgraça que cai sobre a personagem mas que, após um período de indecisão e exilio, ele enfrenta e vence o mal. Como tal, "Dune", é mais um representante dessa tendência que começara na ficção científica da década de 60, em que a personagem alcança um estatuto de semideus através de meios cientificos e eventualmente ganha uma espécie de omnisciência que lhe vai permitir assumir o controle do planeta e da galáxia e levar a que os fremen o adorem como a um deus. A diferenciação das personagens de "Dune" de outros superheróis como Superman acontece na forma como adquirem os seus poderes súbita e acidentalmente, Paul ganha os seus através de um lento e doloroso progresso pessoal e ainda ao contrário de outros heróis,  que eram excepções entre gente vulgar nos seus respectivos mundos, as personagens de Herbert cultivam os seus poderes através da aplicação de filosofias místicas e técnica. Foi aqui que "Dune" marcou a diferença que contribuiu definitivamente para o sucesso que ainda hoje tem.
A série original escrita por Frank Herbert
   Em 1969, devido ao grande sucesso obtido, Frank Herbert  publicava "Dune Messiah" dando continuidade ao romance anterior. 1976 vê sair o terceiro volume da série "Children of Dune", a que se seguiriam "God Emperor of Dune" (1981), "Herectics of Dune" (1984) e "Chapterhouse:Dune" (1985). Frank Herbert morreu em 1986.
Kevin J. Anderson & Brian Herbert
   Mais de uma década depois da morte do escritor, o seu filho Brian Herbert, usando notas deixadas pelo pai e em colaboração com Kevin J. Anderson, conceituado autor de alguns romances do universo "Star Wars", deram inicio a uma trilogia intitulada "Dune Prequel", "Dune: House Atreides" (1999)"; "Dune: House Harkonnen" (2000) e "Dune: House Corrino" (2001). A série passa-se anos antes dos acontecimentos de "Dune". O resultado foi acima do esperado, pelo que Herbert e Anderson resolvem  avançar com uma segunda trilogia intitulada "Legends of Dune" composta por "Dune: The Butlerian Jihad" (2002); "Dune: The Machine Crusade" (2003), e "Dune: The Battle of Corrin" (2004). Esta série, segundo Frank Herbert, teria ocorrido cerca de 10.000 anos antes dos acontecimentos de "Dune". O que para Herbert fora uma cruzada da humanidade contra computadores, máquinas pensantes e robots conscientes, é expandido por Brian Herbert e Kevin J.Anderson e transformado numa guerra de gerações entre humanos e máquinas.
   Em 2005 Brian Herbert encontrou 30 páginas dum esboço que seria a continuação de "Chapterhouse: Dune", que seu pai tinha fechado num cofre e intitulara simplesmente de "Dune 7". Novamente em colaboração com Anderson é editado "Hunters of Dune" (2006), seguido de "Sandworms of Dune"(2007), que completam a progressão cronológica da série original e resolvem situações que haviam começado com "Herectics of Dune". É o fechar de um ciclo iniciado em 1984.
   No prefácio de "Hunters of Dune", os autores afirmam pretender continuar a escrever livros sobre o universo de "Dune" num futuro próximo. Uma nova série intitulada "Heroes of Dune" já conta com dois títulos: "Paul of Dune" (2008) e "Winds of Dune" (2009) cuja acção decorre entre os períodos dos romances originais de Frank Herbert.
Esboço do cartaz de Dune realizado por Alejandro Jodorowski
   Claro que o cinema não poderia ficar à margem do sucesso de "Dune" e haveria de  querer adaptá-lo.  Durante a década de 70 várias foram as tentativas de transpor o romance para o grande écran, uma delas, a mais falada, seria pelo realizador Chileno Alejandro Jodorowski,  todas infrutíferas por esta ou aquela razão. 




    No inicio da década de 80, Dino De Laurentiis, o super-produtor internacional e responsável por vários sucessos ao longo das décadas de 60 e 70, a pedido da filha Rafaella, adquire os direitos de livro de Herbert e entrega a realização a David Lynch, realizador que dera nas vistas com o filme "O Homem Elefante" (1980) e que recusara realizar um dos episódios da saga espacial "Star Wars".  Ao fim de cerca de dois anos de filmagens, com cenários idealizados por Salvador Dali e com Frank Herbert a bater a primeira claquette, "Dune"estreia em 1984 nos Estados Unidos e é exibido em ante-estreia em portugal no inesquecível ciclo de ficção científica organizado pela Cinemateca Portuguesa e a Fundação Calouste Gulbenkian (1984-85). A superprodução de ficção científica  idealizada por Lynch, tinha mais de quatro horas de duração e que, segundo o produtor, não podia ter mais de duas e vinte, é um enorme fracasso nas bilheteiras, fruto talvez de uma enorme expectativa gerada à volta do filme que saiu gorada e da qual Dino De Laurentiis nunca recuperou totalmente. Em 1988 o filme foi remontado numa versão para televisão, com cerca de três horas de duração, mas que Lynch nunca aceitou e mandou retirar o seu nome dos créditos.
   Em 2000 o Sci-Fi Channel estreia uma mini-série intitulada "Frank Herbert's Dune" baseada no livro "Dune" mas que em portugal nunca foi nem estreada, nem editada comercialmente. Em 2003 surge a sequela "Frank Herbert's Children of Dune", que adapta "Dune Messiah" e "Chidren of Dune" e que, ao contrário da sua antecessora, foi editada comercialmente, embora com os títulos despropositados de "Dune:   Império Atreides", "Dune: Império Corrino" e "Dune: Império Harkonnen". É claro que os três filmes vistos assim, não fazem sentido absolutamente nenhum, falta-lhes um principio...coisas à portuguesa, já estamos habituados a elas...
   Seja como for, o universo de Dune ainda não disse tudo o que tem a dizer e é sempre com alguma expectativa que se aguardam novas adições àquele mundo imaginado por Frank Herbert.


                Nota: todas as imagens e vídeos deste texto foram retirados da Internet


                        

sábado, 16 de abril de 2011

Os Pilares da Terra de Ken Follet

                                                                             
                                              
                                                                     
                                                                                                                                                                    

   Desde "O Nome da Rosa" de Umberto Eco, publicado em 1980, que um livro não gerava um consenso tão grande à sua volta. Aclamado pelos critícos literários de todo o mundo e considerado desde logo um clássico  da literatura universal, nomeadamente na sua vertente de romance histórico, o livro de Eco foi um dos grandes sucessos literários do final do século XX.
   Publicado em 1989, "The Pillars of the Earth" (Os Pilares da Terra), romance histórico escrito por Ken Follet viria a redefinir o género de formas nunca antes vistas e trazer o seu autor, mais conhecido por escrever livros de guerra como "Chave para Rebecca", "Vôo Final" ou "Noite sobre as Águas"; thrillers como "O Homem de SamPetersburgo", "O Vale dos Cinco Leões", "Contagem Decrescente", "O Terceiro Gémeo" ou "A Ameaça", para a ribalta.
   A acção de "Os Pilares da Terra" passa-se em meados do século XII,  gira á volta da construção de uma Catedral na cidade de Kingsbridge, Inglaterra, num período que ficou conhecido como Anarquia e que vai desde o afundamento do "White Ship", no Canal da Mancha, ocorrido em 25 de Novembro de 1120 por causas desconhecidas e onde morreram William Adelin, filho legítimo do rei Henry I de Inglaterra e sua corte, até à tentativa de assassinato de Thomas Beckett, Arcebispo da Cantuária.
   Se por um lado seguimos o desenvolvimento da arquitectura gótica para fora da antiga arquitectura românica pela mão de Tom Builder, o Pedreiro que se propõe levar a cabo a tarefa quase impossível de erguer a Catedral, por outro gravitam a ambição religiosa, a intriga social e a luta pelo poder, tendo tudo como pano de fundo acontecimentos históricos verdadeiros.

   Ambientado durante o reinado do Rei Stephen, "Os Pilares da Terra" traça uma rica tapeçaria de intrigas e conspirações e onde explora temas tão diversos como arquitectura medieval, guerra civil, conflitos religiosos e a inevitável ambição política e envolve-nos de tal maneira, transportando-nos para os cenários da acção, que é muito dificil largá-lo. A fabulosa galeria de personagens, principais e secundárias, que vão desde o já citado Tom Builder até ao astucioso e ambicioso bispo Waleran Bigod que não olhará a meios para atingir os seus fins, passando por Ellen, considerado uma bruxa, vive na floresta com o seu filho e guarda um segredo terrível, Aliena e seu irmão Richard filhos do Conde de Shiring, William Hamleigh um sádico e obcecado por Aliena, o Prior Philip, homem bondoso e dedicado á missão de deus, só quer ver Knightsbridge desenvolver-se, é tão bem desenvolvida, as suas accções estão tão bem delineadas, a própria história está tão bem elaborada que, apesar das suas mais de 800 páginas, o livro nunca perde interesse nem se torna monótono.




                                                                                                             


"Os Pilares da Terra" tornou-se o livro mais vendido de Ken Follet, conheceu sucessivas edições. Em portugal foi editado em 1991 numa única edição que rapidamente desapareceu de circulação e onde esteve esgotado até 2007. Graças à mini-série realizada em 2010 para televisão, o livro voltou aos tops e alcançou um novo  público. Em 2003, através dum inquérito, foi considerado na Inglaterra "O Livro mais apreciado pelos leitores".

Sequela literária de "os Pilares da Terra"
   Em Outubro de 2007, Ken Follet escreveu  uma sequela intitulada "A World without End" (Um Mundo sem Fim), cuja acção se passa cerca de 200 anos depois do livro original em Knightsbridge e que foi um sucesso de vendas (através da internet) ainda antes de ser lançado.



Nota: Todas as imagens e vídeos deste texto foram retirados da Internet

domingo, 10 de abril de 2011

Uma Viagem Pelo Cinema Português II

                                                  II - O Cinema Português depois de 1974

   A Revolução do dia 25 de Abril de 1974 seria decisiva para o futuro do cinema português, nomeadamente pelas liberdades que introduziu nas prácticas sociais e culturais do país. No IPC (Instituto Português de Cinema) são criadas Unidades de Produção que, utilizando meios técnicos de produção e post-produção disponibilizados pelo Instituto e a funcionar com um espírito colectivista, têm como objectivo garantir a actividade dos profissionais de cinema, ilustrar as transformações sociais e politicas com que o pais se confronta, fazê-las chegar a locais onde nunca tinham chegado, educar e agitar as consciências. O filme colectivo "As Armas e o Povo" feito pelos Trabalhadores do Sindicato do Cinema e Televisão é o melhor exemplo dessa nova tendência de renovação e inicia um novo ciclo apostado no cinema militante. Nesta nova práctica vão envolver-se António de Macedo, Luis Galvão Telles, Fernando Matos Silva, Alberto Seixas Santos, Rui Simões, um realizador independente que com o seu filme "Deus, Pátria, Autoridade" (1975) faz um dos marcos cinematográficos do cinema político, que repetirá anos mais tarde com o documentário "Bom Povo Português"(1980).
   Retrato duma época, os filmes de intervenção alinhavam todos num mesmo sentido: intervir, viabilizando o cumprimento de um desejo que deixara de ser uma utopia. Qual arma automática, a câmara de filmar era perfeita para ajudar na reviravolta. O documentário é o género preferido de certos cineastas que arriscam uma visão pessoal das coisas, mas a ficção não se deixa abater e é nela que surge algo contraditório: confrontando-se com a realidade da vida "tal qual ela é", a ficção militante cultiva narrativas irreais, exprime-se em alegorias e esboça caricaturas. É o que acontece em "Os Demónios de Alcácer-Quibir" de José Fonseca e Costa (1976), "A Santa Aliança" de Eduardo Geada (1978) ou "A Confederação" de Luís Galvão Telles (1978) que, apesar de terem estado presentes no Festival de Cannes, acabarão por ser considerados como estando fora do tempo.
   A década de oitenta seria, no panorama do cinema nacional, uma década reveladora. Pode-se mesmo considerar uma segunda época de ouro, pelo volume das produções, pela novidade e diversidade nas formas e nos conteúdos. A ficção, logo em 1980, revela novos autores e novas tendências, "Passagem ou A Meio Caminho" de Jorge Silva Melo, "Cerromaior" de Luis Filipe Rocha expressam inovação e algum regresso ao neo-realismo da década de 60, são consensualmente aceites como filmes-chave das novas tendências. Alguma influência do passado está patente em "Manhã Submersa" de Lauro António (1979), onde se explora o rigor formal e alguma memória de repressão; "A Culpa" de António Victorino de Almeida que espelha de forma sarcástica algum sentimento nacional pela guerra colonial que ainda estava bem patente na memória colectiva. A crítica mostra o seu desagrado enquanto o público gosta e quer mais.
   O filme"Verde por Fora, Vermelho por Dentro" de Ricardo Costa (1981) vem de encontro à vontade do público, é, no entanto, um filme insólito, não só pela produção (sem qualquer subsidio do estado), como pela caricatura surrealista nacional (símbolos nacionais  e personalidades delirantes em intrigas políticas - a lembrar Frederico Fellini no seu melhor), o filme seria crucificado pela crítica nacional mas seria bem recebido em festivais internacionais. Com "Oxalá" de António-Pedro Vasconcelos (1980) explora o  um retrato social questionanado a consciência de uma minoria: a do jovem intelectual refugiado em França para escapar  à guerra colonial e que regressa à sua terra. Primeiro filme produzido por Paulo Branco, seria um grande êxito de bilheteira.
Manoel de Oliveira, o mais velho cineasta do mundo ainda em actividade
   A aposta feita por Paulo Branco viria a revelar-se decisiva não só para a continuação da tendência de intervenção de cineastas jovens, como também permitiu que Manoel de Oliveira, após um longo interregno, se tornasse oficialmente um cineasta com  a sua adaptação de "Amor de Perdição" (1978) e filmando até hoje ao ritmo de cerca de um filme por ano (aos 102 anos de idade, completados em 2010, o mais velho cineasta do mundo continua em actividade e sem dar mostras de querer parar!).  Aos novos cineastas como João Botelho que, com "Conversa Acabada" (1981) ganha alguns prémios nacionais e internacionais ou João Mário Grilo que com "A Estrangeira" (1982) está presente em Veneza, João César Monteiro com "Silvestre" (1981) está seleccionado para Veneza, juntam-se também António de Macedo, Fernando Lopes, José Fonseca e Costa, entre outros terão presença relevante ao longo da década.
   A década trará também sucessos de bilheteira. Desde "Kilas, o Mau da Fita" de José Fonseca e Costa (1980) até "A Mulher do Próximo" do mesmo Fonseca e Costa (1988), serão vários, o maior deles será "O Lugar do Morto" de António-Pedro Vasconcelos (1984), este magnifico filme rompe com todas as formas narrativas utilizadas em Portugal, homenageando de uma vez só o policial, o drama e o thriller num exercício de cinema que nunca se vira numa produção nacional. As interpretações sólidas de  Pedro Oliveira (jornalista de profissão) e de Ana Zanatti (locutora de continuidade e actriz ocasional) contribuíram para o sucesso do filme, como contribuiu também a sua estrutura narrativa (o final em aberto terá ocasionado inúmeras discussões entre o público). Continua ser um filme incontornável na cinematografia nacional e um dos melhores filmes portugueses de sempre. Mantendo um pouco a tendência de "O Lugar do Morto", Joaquim Leitão estreia-se  auspiciosamente na realização em 1986 com "Duma vez por Todas" um filme semi labirintíco filmado numa lisboa estranha e desconhecida, com o músico Pedro Ayres Magalhães, tendo o filme obtido um relativo sucesso entre o público mais jovem.
   A década de noventa vê surgir uma nova geração de cineastas, muitos deles vindos do Conservatório Nacional, favorecidos por critérios de apoio oficiais a primeiras obras, impondo uma nova renovação no panorama cinematográfico: Pedro Costa, Teresa Vilaverde, João Canijo, Joaquim Sapinho, entre outros, iniciam as suas carreiras. Alguns dos realizadores mais antigos como João César Monteiro ou Manoel de Oliveira continuam a filmar com regularidade. A partir de 1995 começa uma alternãncia entre realizadores mais novos e mais antigos. "Adão e Eva" de Joaquim Leitão (1995) obtém um enorme sucesso; "A Comédia de Deus" de João César Monteiro (1995) ou "O Convento" de Manoel de Oliveira (1995) obterão sucesso além fronteiras; dos novos, Joaquim Sapinho com o seu "Corte de Cabelo" (1997) foca-se no público mais jovem e ganha a aposta. Em 1997 os realizadores, encorajados pelos sucessos obtidos, aventuram-se em terrenos perigosos: "Tentação" de Joaquim Leitão e "A Sombra dos Abutres" de Leonel Vieira são os primeiros a aperceber-se que existe pouca gente a deixar-se levar por esses caminhos. 
   Nos últimos anos do século XX, ainda temos tempo para regressar à guerra colonial e ás suas memórias com "Inferno" de Joaquim Leitão (1998); visitar bairros marginais de Lisboa com "A Zona J" de Leonel Vieira (1998); conhecer a exploração do trabalho  infantil em "Jaime" de António-Pedro Vasconcelos (1999) ou analisar as duras realidades da vida no Alentejo em "Sapatos Pretos" de João Canijo (1998). Com frequentes toques melodramáticos, como nos velhos tempos, na ficção domina a tendência realista.
   No século XXI, a primeira década é dominada por filmes de autor, apesar de esporádicos regressos aos fantasmas da já longínqua guerra colonial com os "Imortais" de António-Pedro Vasconcelos (2003) ou "20,13"de Joaquim Leitão (2006), a tendência é para um experimentalismo e uma aposta em temas ousados como "O Fantasma" de João Pedro Rodrigues (2000), que aborda uma certa obsessão e o fetiche da homossexualidade masculina de uma forma provocatória; ou "O Crime do Padre Amaro" de Carlos Coelho da Silva (2004), baseado na obra de Eça de Queirós actualizada para a nossa época; e polémicos como "Camarate" de Luis Filipe Rocha (2001) ao abordar o tema incómodo do acidente de Camarate que vitimou o Primeiro Ministro de Portugal em 1980; incómoda é também a história duma filha perdida algures na cidade de Lisboa em "Alice" de Marco Martins (2005). Alguns destes filmes foram mesmo enormes sucessos de bilheteira apesar dos temas que abordam.
   Mas nem tudo é tão intenso neste novo século, "O Filme da Treta" de José Sacramento (2006), baseado num formato de televisão, pôs Portugal inteiro a rir à gargalhada com as conversas de Tony e Zézé, assim como José Fonseca e Costa com o seu filme de época "Viúva Rica Solteira não Fica" (2006) e Fernando Lopes com "98 Octanas" (2006), assumem-se como autores em busca de melhores audiências com temas apelativos e actores conhecidos, mas o público está com a atenção voltada para outros campos que estão ao alcance do teclado e do rato de um computador tornando tudo muito mais fácil e sem incómodos de qualquer espécie.
   Com este novo fenómemo audiovisual sofrem os cineastas que ficaram conhecidos por terem sido eles que outrora encheram salas de cinema em décadas do século passado, cuja imaginação não consegue acompanhar os novos tempos, outros há que perfilham as novas tendências audiovisuais e filmam com esse objectivo. O público nacional, é certo e sabido que consome o que de mais comercial aparece nas salas de cinema, é quem mais ganha com este estado de coisas, o cinema nacional é quem mais perde com isto porque poucos são os filmes nacionais que recebem um aval de exploração comercial nacional e mesmo esses poucos não conseguem triunfar nem dentro nem fora de portas.

Nota: Todas as imagens foram retiradas da Internet

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Uma Viagem pelo Cinema Português I

                                            I - Das Origens a 1974



Curta-Metragem de Aurélio Paz dos Reis
     O cinema em Portugal teve o seu início em 1896, na cidade do Porto com a exibição das primeiras curtas-metragens de Aurélio Paz dos Reis "A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança". Este não é nem mais nem menos do que  uma réplica do filme dos Irmãos Lumière "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" (1894-1895) que é considerado o primeiro filme da história do cinema e, ao mesmo tempo, o primeiro documentário. Paz dos Reis quer explorar o seu cinematógrafo e para isso organiza alguns espectáculos que não obtêm os resultados esperados. Desiludido, viaja para o Brasil para tentar a sua sorte mas regressa pouco tempo depois, junta-se a Manuel Maria da Costa Veiga, para fabricar imagens animadas e tornar-se exibidor de filmes em Lisboa.
   O cinema em Portugal, como indústria , terá o seu inicío em 1918 e durante a década subsequente dedica-se quase exclusivamente à transposição de clássicos da literatura portuguesa para o grande écran, entregando a realização a realizadores estrangeiros. "O Primo Basilío" baseado no romance de Eça de Queirós de George Pallu em 1922; "A Sereia de Pedra" de Roger Lion em 1922 ou ainda as aventuras de "José do Telhado" de Rino Lupo em 1929 são alguns exemplos da produção nacional. Alguns destes nomes serão determinantes na abordagem que os realizadores irão fazer ao cinema, principalmente George Pallu na forma como utiliza a paisagem para enquadrar a vida como ela é, quer seja no campo ou na cidade. Leitão de Barros será grandemente influencido pelo realizador francês, ao recorrer a temas já explorados mas inovando na forma para tentar gerar outro sentido. Com novas fantasias, a ficção explora a realidade.


   O mesmo Leitão de Barros realiza "A Severa" em 1931, o primeiro filme sonoro em Portugal. No ano seguinte constroem-se os Estúdios da Tobis Portuguesa de onde saírão muitas obras do cinema português.Com o desaparecimento do cinema mudo, surge uma nova geração de cineastas que influenciarão  muito o cinema nacional.
   Em 1935 é criado o Secretariado Nacional de Informação e percebe-se o interesse que o cinema tem para o regime. António Lopes Ribeiro torna-se a voz cinéfila de Salazar. A propaganda ideológica e política do regime tem que ser bem gerida como mostra  António Lopes Ribeiro em "A Revolução de Maio" (1937). Nos filmes que o público corre para ir ver, seduzido pelas imagens animadas, reinam actores de revista: Beatriz Costa, António Silva, Vasco Santana, Maria Matos, etc. É a época auréa da comédia. Temas prometedores como a vida boémia e raparigas bonitas em "A Canção de Lisboa" de Cottinelli Telmo de 1933; as touradas eternas em "Gado Bravo" de António Lopes Ribeiro de 1934; a pastora infeliz que vem servir para Lisboa em "Maria Papoila" de Leitão de Barros em 1937; a pureza da vida rural com  "A Aldeia da Roupa Branca" de Chianca de Garcia em 1939 ilustram  bem a cinematografia nacional.


Cena do filme "Camões" (1946)
     Aproveitando o sucesso da Exposição do Mundo Português de 1940, o regime promove o nacionalismo e obras, de grande fôlego épico recebem luz verde, como "Inês de Castro" (1944) ou "Camões" (1946) ambos de Leitão de Barros. Este último Salazar considera ser de interesse nacional, apresentado em Cannes em 1946 e seria o filme mais caro alguma vez feito em Portugal. Mas a década já começara com "Pai Tirano" de António Lopes Ribeiro (1941) e "O Pátio das Cantigas"  de Ribeirinho (irmão de A.Lopes Ribeiro) em 1942 e são ambos comédias bem ao gosto nacional. Também Manoel de Oliveira começa oficialmente a sua carreira de realizador com "Aniki-Bóbó"em 1942 e o filme, ao abordar de forma directa a vida e os amores de uma certa juventude na cidade do Porto, vai contra as regras do jogo.
   Para o grande público, Artur Duarte realiza "O Costa do Castelo" (1943) e "A Menina da Rádio" (1944); Armando de Miranda refaz "José do Telhado" (1945) e obtém um grande sucesso de bilheteira que repetirá com "Capas Negras" em 1947; "Fado, História de uma Cantadeira" de Perdigão Queiroga (1947), Com Amália Rodrigues e Virgilio Teixeira, explora a vertente populista daquele género de música e, ainda no mesmo ano e para o mesmo público, "Leão da Estrela" de Artur Duarte satiriza os adeptos do desporto-rei com enorme sucesso.
   As décadas subsequentes trariam períodos de estagnação e mudança, anunciando certas rupturas  no panorama do cinema nacional. Enquanto António Lopes Ribeiro tenta moralizar o público com "Frei Luís de Sousa" (1950) e Perdigão Queiroga fala ao imaginário da burguesia com "Sonhar é Fácil" (1951), Manuel Guimarães dá o primeiro sinal de mudança ao mostrar, com um toque de neo-realismo, o lado mais cru das coisas. "Saltimbancos" (1951) e "Nazaré" (1952) acentuam esse neo realismo que nunca acontecerá como o realizador pretendia. "Chaimite" de Jorge Brum do Canto de 1953 apela ainda a um certo nacionalismo mas os ventos são mesmo de mudança.
   Na década de sessenta a mudança opera-se numa ruptura dupla: de género e estilo, no que toca ao modo de filmar e o modo de produção, e é política. "Dom Roberto" de José Ernesto de Sousa (1962) e "Verdes Anos" de Paulo Rocha (1963) vêm imbuídos deste espiríto de mudança e de denúncia e marcam o início do chamado Cinema Novo. Fernando Lopes, António de Macedo ou António da Cunha Telles são nomes importantes nesta nova tendência da sétima arte portuguesa que tenta criar condições de auto-suficiência na produção de filmes e conciliar cinema de arte com cinema de grande público, o que nem sempre foi conseguido. No entanto filmes como "Belarmino" (1964), "Domingo à Tarde" (1965), "Sete Balas para Selma" (1967) ou "O Cerco" (1969), este último foi a Cannes, obteve êxito comercial e ainda ganhou alguns prémios oficiais,  são bons exemplos desta tendência.
   Alguns destes cineastas ainda seguem, já na década de setenta, o movimento do Novo Cinema. São eles: António de Macedo com "Nojo aos Cães", de 1969, mas estreado em 1970 e proibido pela censura;  Fernando Lopes com "Uma Abelha na Chuva" (1971) e ainda "O Cerco", três filmes produzidos com recurso a capitais pessoais,  material emprestado, e ajuda de amigos. Já com outros meios de produção, ainda alinham neste movimento realizadores como José Fonseca e Costa com "O Recado" (1971); António Pedro Vasconcelos com "Perdido por Cem" (1972), Fernando Matos Silva com "O Mal-Amado"(1973), Eduardo Geada com "Sofia e a Educação Sexual" (1973) ou Alberto Seixas Santos com "Brandos Costumes" (1974). António de Macedo exibe o resultado deste movimento em Cannes em 1973 com "A Promessa", seleccionado para a competição, é apenas o terceiro filme nacional a merecer tal distinção.
   A década vai ver nascer, ainda sob a égide do Estado Novo, o Instituto Português de Cinema em 1973, que era destinado a gerir financiamentos públicos para a produção de filmes nacionais. Surge também o recurso a uma inovação técnica originária dos anos sessenta: o uso de máquinas de filmar de 16 mm que vieram revolucionar não só as técnicas de filmar, como a própria linguagem cinematográfica, permitindo grande agilidade na filmagem e uma considerável redução nos custos de produção. A abordagem de certos temas torna-se mais fácil que levará alguns cineastas portugueses a optarem por praticar cinema directo, explorando assuntos que até então tinham escapado ao olhar da objectiva sob a forma de documentário. O filme político, o cinema militante, a docuficção e a etnoficção são géneros que marcam a cinematografia que se fez em Portugal na primeira metade da década de setenta e que nela se reinventam.
                                                                                                                          (continua)

                             
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sábado, 26 de março de 2011

O Rei Artur: Mito ou Realidade?

   O Rei Artur é uma figura lendária Britânica que, de acordo com histórias medievais e romances, teria comandado a defesa contra os invasores Saxões chegados à Grã-Bretanha (ou Bretanha como era conhecida na época) no início do século VI.  Os detalhes da sua história são compostos principalmente por folclore e literatura, a sua existência histórica, devido à escassez de antecedentes históricos ou por estes serem retratados em várias fontes, é debatida e contestada por historiadores modernos.
   A lenda do rei Artur ganha interesse através da popularidade do livro de Geoffrey Monmouth "Historia Regum Britanniae" (História dos Reis Britânicos) embora, o seu nome, tenha surgido em poemas e contos de Gales e da Bretanha, publicados antes deste livro. Neles, Artur surge com um grande guerreiro que defende a Bretanha dos homens e inimigos sobrenaturais e, portanto, associado com o Outro Mundo. No livro de Monmouth, mais baseado nos antigos do que inventado por ele, não existindo uma versão comprovada de veracidade do texto, os acontecimentos nele narrados são frequentemente usados como ponto de partida para as histórias posteriores. Geoffrey descreve o rei Artur como sendo um rei da Bretanha  que venceu os Saxões e estabeleceu um Império composto pela Bretanha, Irlanda, Islândia e Noruega.
   Na realidade muitos elementos e acontecimentos que fazem parte da história de Artur aparecem no livro de Geoffrey, incluindo Uther Pendragon, pai de Artur, o mágico Merlin, a espada Excalibur, o nascimento de Artur no castelo de Tintagel, Camelot, a sua batalha final em Camlann contra Mordred, e a ilha de Avalon. 
   A origem do rei Artur tem sido grandemente debatida pelos historiadores e estudiosos. Alguns acreditam que ele é baseado nalguma personagem histórica, provavelmente um chefe guerreiro da Bretanha que tenha vivido entre a Antiguidade Tardia e o inicio da Idade Média, donde terão sido criadas as lendas que hoje conhecemos. Outros acreditam que Artur é pura invenção mitológica, sem nenhuma relação com qualquer personagem real.
   O Artur histórico baseia-se em obras antigas como "Historia Brittonum" (História dos Bretões), escrito em Latim  por volta do ano 830 ou "Annales Cambriae" (Anais da Câmbria), escritos algures no século X, que relatam acontecimentos históricos ocorridos na Bretanha. Artur é apresentado como figura real, um líder romano-bretão (existiu um comandante romano que comandava os Sármatas na Bretanha no século II) que luta contra a invasão da Bretanha pelos Anglo-Saxões, situando a sua existência entre o final do século V e início do século VI. No entanto, ambas as obras tem sido postas em dúvida por estudos recentes que questionam a sua utilidade e  independência como fontes históricas. 
   Já o Artur mitológico terá vivido na Bretagne uma região da actual França, mais exactamente na região de Carnac e a sua história terá tido inicio no século V, quando Honório, imperador Romano mandou retirar as legiões e respectiva população romana da província da Bretagne, apenas as legiões situadas junto da Muralha de Adriano continuaram a cumprir o seu dever defendendo-a dos Pictos do norte e dos irlandeses que a atacavam constantemente. Inconformado com esta situação, Voltigern, um rei Picto pede ajuda aos Saxões do continente para tentar resolver esta situação. 
   Em finas do século V, Ambrosius Aurelianus, um romano da Bretanha, consegue derrotar os Saxões na famosa batalha de Mons Badicus e a situação acalma durante algumas décadas. Mas rápidamente a situação inverte-se e após uma série de batalhas, os reinos celtas da Bretanha ficam reduzidos à Cornualha e a Gales. No século VIII, Nennius, um Bretão, fala dos feitos de um comandante militar de nome Artur, que teria vencido 12 batalhas contra os Saxões. Mas, segundo os historiadores, Nennius tinha uma tendência de preencher lacunas com factos por ele inventados. Ele poderia muito bem ter embelezado a narrativa conforme as necessidades. Não foi ele, no entanto, o primeiro a referir o nome de Artur, já que baladas galesas do século VII, falavam num rei aventureiro do norte da Bretanha, que enfrentava seres fantásticos e corrigia injustiças.
   Nos finais do século XII, Chrétien de Troyes, escritor francês, escreve contos sobre as aventuras do Rei Artur, Sir Lancelot, Guinevere, o Santo Graal, Percival, Gawain, etc. Ao apoiar-se nos mitos populares, deu-lhes o seu cunho pessoal  e iniciou o género de romance arturiano que se tornou numa importante vertente da literatura medieval. Artur e as suas personagens eram muito populares na época e as histórias a partir da Bretanha, tinham-se espalhado por outros países. Salientam-se aqui algumas obras pela importância que tiveram para o nascimento do mito: O ciclo da "Vulgata" francesa (também conhecida como Matéria da Bretanha), "Parzival" de Wolfram von Eschenbach, "La Mort d'Arthur" (A Morte de Artur) de Thomas Mallory; Alguns escrevem sobre todo o ciclo desde a morte de Jesus Cristo até à morte de Artur, criando uma narrativa de séculos; outros descrevem apenas episódios que acontecem a cavaleiros (Tristão e Isolda é um exemplo) ou integram episódios sem ligação inicial ( O Mito do Santo Graal, a Távola Redonda, Tintagel, etc.), incorporam novas personagens ( Galahad).
   O século XVII viu o interesse neste género de narrativa perder algum interesse, embora na ópera se continue a utilizar o tema. Já o romantismo do século XIX fez renascer o interesse pelo tema (inclusive autores americanos como  Mark Twain com o seu "Um Americano na Corte do Rei Artur" homenageiam o género). No século XX, autores como Stephen Lawhead ( O ciclo Pendragon), Bernard Cornwell (O ciclo de "As Crónicas do Senhor da Guerra") e principalmente Marion Zimmer Bradley, conceituada escritora da ficção científica, revolucionou o tema com "The Mists of Avalon" (As Brumas de Avalon) ou a "Saga de Avalon", completaram o trabalho mantendo vivo o interesse e, com a ajuda do cinema e da banda desenhada, permitiram que cada vez mais público tenha acesso ao tema.
   Sem fim à vista, toda a polémica sobre a existência ou não do Rei Artur, continua bem viva: os historiadores, depois duma crítica ao mito, limitam-se a manter uma reserva sobre o assunto; os arqueólogos ( e estudiosos) preferem falar de um período sub-romano, definindo assim aquilo que poderia ser o período arturiano: os séculos V e VI. 
   Para nós, leitores e demais interessados, o que é que sobra, além das belas histórias? não sabemos se Artur existiu ou não, e não o podemos afirmar porque não existem relatos contemporâneos.
  

Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet.

   
   

sábado, 19 de março de 2011

O Western: Origem e Mito

   O Western é, talvez, o género  mais conhecido do mundo. É aquele género que facilmente encontramos em filmes, televisão, literatura e em outras formas de arte como a pintura por exemplo. Os westerns contam-nos histórias do velho oeste americano passadas, maioritáriamente, na segunda metade do século XIX, embora houvesse westerns, cuja acção decorria entre a Batalha do Álamo (1836) e o fim da Guerra Civil Americana (1865), outros há, cuja acção decorre nos dias de hoje, em que as personagens são inspiradas nas chamadas "personagem-tipo"do western.
   A palavra "western"significa ocidental e refere-se à fronteira do Oeste Norte-Americano aquando da colonização do continente. Também conhecida como "Far West", é daqui que provém a expressão "faroeste" que se tornou popular em muitos países antes de ficar conhecido simplesmente como western.
   Os westerns, geralmente, retratavam modos de vida primitivos  confrontados com tecnologia moderna ou mudanças sociais. Os confrontos entre os nativos (índios) e os colonos que vinham ocupar as terras, entre criadores de gado e os agricultores ou ainda os rancheiros sentirem-se ameaçados com o advento da Revolução Industrial, são apenas alguns exemplos retratados nesse género.
   Os westerns produzidos nas décadas de 40 e 50 do século passado, davam enfâse aos valores de honra e sacrifício enquanto nas décadas de 60 e 70 esses valores foram substítuidos por uma visão mais pessimista, glorificando o anti-héroi rebelde, evidenciando o cinismo, a brutalidade e a falta de qualidade do Oeste Americano. Apesar de estarem fortemente ligados a períodos específicos da História Americana, estas temáticas permitiram que os westerns fossem produzidos e apreciados em todo o mundo.
   O género, muitas vezes, mostrava a conquista de zonas selvagens ou confiscação de direitos territoriais aos seus donos originais e a subordinação da natureza na fronteira em nome da civilização. O western move-se dentro duma sociedade organizada à volta de códigos de honra  e justiça pessoal, privada ou directa. A percepção popular do western  é a de uma história que se centra na vida de um vagabundo semi nómada, habitualmente um cowboy ou um pistoleiro. Tais protagonistas foram, muitas vezes considerados os descendentes literários dos cavaleiros nómadas que percorriam a Europa em tempos mais antigos e tal como estes salvavam donzelas em perigo, os cowboys  também o faziam. Similarmente, os protagonistas destas vidas nómadas partilhavam muitas características com a imagem do "Ronin" na cultura Japonesa.
   Pode-se considerar  "The Virginian" escrito por Owen Wister em 1902, o primeiro romance Americano deste género, mas já em 1826, James Fenimore Cooper com o seu "Last of the Mohicans" (O Último dos Moicanos) um romance histórico, dera o seu  contributo para a compreensão das lutas entre tribos indias e a colonização da Fronteira Americana. Até na Europa, particularmente na Inglaterra onde Arthur Conan Doyle, no primeiro romance de Sherlock Holmes "A Study in Scarlet" (Um Estudo em Escarlate) de 1887, na segunda parte deste, ele descreve a vida dos Mórmons no continente Norte-Americano usando todos os elementos de um conto do Oeste em finais do séc.XIX. O westerna já existia, portanto, antes do advento do cinema consagrado num género distinto de todos (como viriam a ser os seus filmes) onde autores como Zane Grey, Elmore Leonard ou Louis L'Amour, entre outros, deram o seu contributo definitivo.
Justus D.Barnes em "the Great Train Robbery" de 1903
   No cinema, o western deu os seus primeiros passos em 1903 com o filme "The Great Train Robbery" realizado por Edwin S.Porter. Tratava-se de um filme mudo mas que granjeou muita popularidade entre o público. Em 1914 "The Squaw Man" de Cecil B.DeMille tornava-se na primeira longa-metragem rodada em Hollywood. Nesse mesmo ano, DeMille transpunha para o écran a obra pioneira do género, "The Virginian" onde colaborou com o autor Owen Wister na elaboração do argumento. O género foi sofrendo uma evolução constante perante a crescente popularidade da fórmula. Em 1923 James Cruze realiza o primeiro western épico, "The Covered Wagon", sobre uma longa viagem pelos territórios selvagens até á Califórnia. No ano seguinte, John Ford com "The Iron Horse", sobre a construção dos caminhos de ferro, obteria um enorme sucesso que o iria definir como um dos nomes maiores do género.
   Durante a década seguinte, os estúdios chegavam a produzir mais de uma centena de westerns por ano, ainda que a maior parte deles fosse de série B, o género manteve-se sempre em alta junto do público.  Passou a utilizar-se a película de 70 milímetros que permitia englobar toda a paisagem da fronteira ocidental; John Wayne foi revelado ao público, tornando-se num verdadeiro ícone do western, e cuja participação em dezenas de westerns, lhe valeriam a alcunha de "O Duke"; em 1931 "Cimarron" de Wesley Ruggles recebia o Óscar para Melhor Filme do Ano e seria, durante anos, o único filme deste género  a receber tal distinção.
John Ford no cenário de muitos dos seus westerns
   A idade de ouro do western, durante as décadas de 40 e 50 do século passado, teve como expoente máximo o trabalho de dois realizadores: o já citado John Ford que com "Stegecoach" (Cavalgada Heróica) de 1939, considerado como um dos melhores westerns de sempre e "My Darling Clementine" (A Paixão dos Fortes) de 1946, onde, de forma brilhante, conta a história de Wyatt Earp e Doc Holliday e do famoso tiroteio de Ok Curral - personagens e episódio verídicos e que se tornaram mitológicos na História Norte-Americana, mas foi com "The Searchers" (A Desaparecida) de 1956, onde passou em revista todos os temas do género que o seu nome se tornou incontornável na história do cinema; o outro é Howard Hawks, onde, só, os filmes "Red River" (Rio Vermelho) de 1948 ou o mítico "Rio Bravo" (Rio Bravo) de 1959, lhe garantem um lugar no Olimpo do género.
John Wayne um dos ícones do western
   A década de 60 trouxe a revisão da matéria dada e questionou muitos dos temas e caracteristícas próprias do género. Assim, os índios, afinal não eram tão maus como os retratavam (John Ford que, em "Stagecoach retratara os indios como maus, antecipa-se e, com o seu último western "Cheyenne Autum"em 1964 homenageia-os como as grandes vítimas que tinham sido ao longo do período áureo do género), o bom não era tão bom como aparentava ser e o mau não era tão mau. As audiências, fruto da década de mudanças que se atravessava, começaram a exigir  histórias mais complexas que não se limitassem ao duelo do bom contra o mau. Foi para responder a estas questões que surgiram "The Man who shot Liberty Valance" (o Homem que matou Liberty Valance") de John Ford ou "Little big man" (o Pequeno grande homem) de Arthur Penn. Mas percebia-se que o género estava em declínio, apesar desse grande clássico Americano que é "The Wild Bunch" (A Quadrilha Selvagem) de 1969 em que um grupo de foras-da-lei percebe que os seus dias estão contados e resolvem teminar a sua existência em  glória.
   Durante as décadas de 60 e 70, deu-se um certo revivalismo do género com os chamados "western-spaghetti", obras de baixo orçamento, produzidas por Italianos e filmadas em Espanha e Itália e que se caracterizavam por uma violência extrema, muita acção e algum melodrama tão ao gosto popular. Não há um herói no sentido clássico (leal e de inequívoca moral). O que temos é um "herói ao contrário" ou um anti-herói, o "Homem sem Nome", um mercenário, violento e de baixa moral. Além disso, o agente da lei é corrupto e os protagonistas não se envolvem em romances. O expoente máximo deste revivalismo foi o realizador Sergio Leone com a sua famosa "Trilogia dos Dólares" (Por um Punhado de Dólares em 1964, Por mais alguns Dólares em 1965 e O Bom, O Mau e o Vilão em 1966) que fez de Clint Eastwood uma vedeta e outro dos nomes indissociáveis do género, ou "Once Upon a Time in the West" (Aconteceu no Oeste) de 1968, que, além de homenagear todas as temáticas do género, ainda destacou o papel feminino dentro do western (Claudia Cardinale num dos seus mais importantes papéis no cinema). Além de Eastwood, outros actores como Lee Van Cleef,  James Coburn, Klaus Kinski, Franco Nero, Giuliano Gemma, Terence Hill, Bud Spencer ou até mesmo Henry Fonda foram presenças que garantiram o sucesso deste sub-género do western.
   As décadas finais do século XX, viram o género sub-desenvolver-se novamente no chamado "Western pos-apocaliptíco" no qual se retrata uma sociedade futura que tenta sobreviver depois de uma qualquer catástrofe social ou ecológica, num ambiente desolador que lembra muito a fronteira do Oeste Americano do século XIX. Filmes como "The Postman" (O Mensageiro) de 1997 ou os filmes "Mad Max" (As Motos da Morte) de 1979, ou "Mad Max II" (O Guerreiro da Estrada) de 1981 são bons exemplos disso.
   Caberia a  Clint Eastwood com o seu magnifico "Unforgiven" (Imperdoável) de 1992, fechar a porta do género. Utilizando novamente os elementos típicos do western, subverte as reacções e o comportamento das personagens que, em vez da dureza habitual, gritam, choram, lamentam-se e imploram misericórdia; em vez de aparecer um herói que vem salvar o dia, surge apenas a vingança, nua e crua, de alguém que não espera qualquer tipo de redenção; onde, em vez do "happy ending"habitual, vemos um pôr-do-sol e alguém recolhido em frente a uma campa em silêncio fechando-se assim  o mais querido género de cinema do mundo.
O Fim?
   Seja como for, o género ainda não morreu e continua  a ser revisitado quer pelo cinema, quer pela literatura e até mesmo pela televisão, sempre com boas referências e enquanto assim for, podemos sempre fazer como "Lucky Luke" faz na banda desenhada, álbum após álbum, cavalgar em direcção ao pôr-do-sol e esperar pelo próximo western.


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sexta-feira, 11 de março de 2011

O Rock Progressivo na história da Música

   Rock Progressivo (também conhecido por  prog rock ou simplesmente prog), é um género de rock surgido no final da década de 60 do século passado, em Inglaterra. Muito popular durante a década de 70, ainda hoje, em pleno século XXI, tem muitos adeptos.
   Influenciado pela música clássica e jazz de fusão, o género foi  ganhando espaço na cena musical, dando origem a diversos sub-géneros como o rock sinfónico, space rock, krautrock ou mais recentemente o metal progressivo.
   As suas caracteristícas mais marcantes são:
   - Composições longas, com melodias complexas, aproximando-se muitas vezes da música erudita. Temas com 20 ou mais minutos, por vezes até utilizando o tempo de um álbum inteiro, são temas chamados épicos;
   - "Suites" musicais, ou seja divisão de um tema, ao estilo de música erudita, em duas ou mais partes como por exemplo "Close to the Edge" ou "And you and I" dos Yes que são divididas em quatro partes;
   - Composições feitas de várias peças, tipo "manta de retalhos", um bom exemplo é "Supper's Ready" de Genesis;
   - Composições feitas de variações ou progressões ao estilo do "Bolero" de Ravel, um bom exemplo é precisamente "Abbadon's Bolero" de Emerson Lake & Palmer;
   - Letras que abordam temas como ficção científica, fantástico, religião, guerra, amor, loucura ou até a própria história, embora muitos álbuns, principalmente durante a década de 70, fossem apenas instrumentais;
   - Álbuns conceptuais ( ou concept album) onde o tema ou a história é abordado ao longo de todo o álbum, tornando-se numa ópera-rock se se seguir uma história, neste último caso incluem-e os álbuns "The Lamb Lies down on Broadway " de Genesis em 1974 ou "Tales from Topographic Oceans" de Yes em 1973, entre muitos outros;
   - Capas com grafismos muito atractivos ao olhar e muito completas, cujo melhor exemplo são as capas feitas por Roger Dean, um mestre no que toca a ilustração, para quase todos os álbuns de "Yes" e mais recentemente para "Asia";
   - Utilização de instrumentos electrónicos, particularmente sintetizadores adicionados aos instrumentos habituais de rock (guitarra, baixo e bateria). A constante procura de nova sonoridades conseguidas através de sintetizadores e depois misturadas em estúdio é quase uma obsessão dos músicos e também admiradores, sempre em busca da perfeição sonora;
   - Inclusão de peças clássicas nos seus concertos. Casos de Yes, Emerson Lake & Palmer, Marillion entre outros.
   O rock progressivo nasceu, como já disse, nos finais da década de 60, influenciado por vários géneros musicais. Já os Beatles, na sua fase psicadélica, começaram a misturar o rock tradicional com instrumentos de música clássica. Também os primeiros trabalhos de Pink Floyd ou Frank Zappa já mostravam alguns elementos do género. O psicadelismo desse final de década continuou num constante experimentalismo e introduziram-se as peças longas sem, no entanto, tanto tratamento quanto á estrutura da obra.


Uma das obras-primas do Rock Progressivo
   O género ganhou adeptos quando, no final da década de 60, os adeptos do "Flower Power" sentindo-se desiludidos com os caminhos que o movimento traçara, se deixam encantar por temas mais complexos e obscuros que os convidam a outro tipo de reflexão. Rápidamente, se espalha pela Europa fora chegando ao Japão onde, por exemplo, Stomu Yamashta, conceituado músico no seu país, veio ao ocidente gravar entre 1976 e 1977 o projecto "Go", uma série de álbuns com músicos europeus. Na Alemanha Tangerine Dream e Kraftwerk davam origem ao "Krautrock", dinamizando a utilização de sintetizadores e introduzindo efeitos sonoros em temas e álbuns geralmente instrumentais, enquanto na Grécia os "Aphrodite's Child" de Vangelis e Demis Roussos davam os primeiros passos no Rock Progressivo. Até em Portugal o género acolheu adeptos em grupos como "Tantra" ou em artistas como José Cid, cujo álbum "10.000 depois entre Vénus e Marte" de 1978 é considerado uma obra-prima e está no top 100 dos melhores álbuns do género.
   Atingido o auge durante a década de 70,  grupos como Pink Floyd, Yes, Genesis, Emerson Lake & Palmer, Jethro Tull, etc. estavam constantemente nos tops de Inglaterra e dos Estados Unidos, viria a seguir-se o inevitável declinio.
   No final da década de 70 dá-se o advento do Punk, que opera uma mudança quase radical na cena musical Europeia, o gosto do público e da crítica volta-se agora para o estilo mais simples e agressivo deste género, levando a que os grupos progressivos fossem considerados pretensiosos e exagerados e alguns se extinguissem mesmo.
   Na década de 80 nova investida do género, desta vez sob a forma do sub-género neoprogressivo, em que os "Marillion"  e  "Asia" foram os percursores. Amplamente inspirados pelo rock progressivo, mas contendo igualmente elementos da "New Wave" é caracterizado ainda por um enorme dinamismo musical onde se incluem solos de guitarra e também de teclados. Alguns grupos fieis ao rock progressivo, mudam a sua orientação sonora, simplificando as composições (as longas suites são reduzidas para temas mais acessiveis), de modo a poderem incluir novas texturas electrónicas como a percussão.
   Durante a segunda metade da década de 80, surge a chamada terceira vaga de rock progressivo que se chama "Metal Progressivo" e que se mantém até hoje. O melhor exemplo desta nova vaga são os "Dream Theater".
   Comercialmente bem sucedido, este género une vários estilos desde rock progressivo até  heavy metal, trazendo para o género uma maior técnica, resultado duma grande aprendizagem e a capacidade renovada de explorar temas longos e fazer álbuns conceptuais tendo à disposição uma tecnologia moderna e em constante evolução. Mas o saber, esse vem dos primórdios da música  e é grande a sua influência nos grupos de hoje.


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sábado, 5 de março de 2011

As Viagens no Tempo na Ficção

   Viagem no Tempo é o conceito de nos movermos entre diferentes pontos no tempo, mas de uma maneira análoga àquela em que nos movemos entre diferentes pontos no espaço, quer ao enviarmos algum objecto para trás no tempo, ou para a frente do presente para o futuro sem a necessidade de estar presente no período intermédio.
   Apesar de ter sido apenas no século XIX que as viagens no tempo ganharam alguma notariedade com a publicação, em 1895, do livro "The Time Machine" (A Máquina do Tempo) escrito por H.G.Wells, sabe-se que outros trabalhos escritos em épocas anteriores já incluiam elementos  que sugeriam a possibilidade de se viajar no tempo. Folclore e mitos da antiguidade, por vezes, incluiam algo que tinha a ver com o viajar para o futuro; por exemplo, na Mitologia Hindú, "O Mahabharata" (circa 700 a.C.), fala no Rei Revaita, que viaja até ao céu para conhecer o seu criador Brahma e fica chocado quando se apercebe que muitos anos se passaram quando regressa à Terra; outra das histórias antigas que involve viagens ao futuro é o conto Japonês  de Urashima Tarõ, descrita no "Nihongi"(720 d.C.), em que um jovem pescador chamado Urashima Taro visita um palácio subaquático onde fica três dias. Quando regressa á sua vila, descobre que se passaram cerca de 3000 anos, a sua casa está  em ruínas, a sua familia morreu hà muitos anos e ninguém se lembra dele; mais recentemente, em 1819, Washington Irving escreveu a história de Rip Van Winkle em que mexe nos mesmos conceitos do conto japonês. Rip Van Winkle quando acorda duma soneca, descobre que está 20 anos á frente da sua época, foi esquecido pelos seus pares, a mulher faleceu e a sua filha já é mulher adulta.
   Mais moderna parece ser a ideia da viagem de regresso ao passado, mas a sua origem também é um pouco ambígua. Aqui, uma das primeiras histórias a abordar o tema é "Memoirs of the Twentieth Century" escrita por volta de 1733 onde, através  de cartas escritas entre 1997 e 1998, vários embaixadores de vários países descrevem ao Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico as condições de vida naquela era.
   Charles Dickens, em 1843, publicou aquela que é uma das primeiras obras contemporâneas a abordar as viagens no tempo. Em "A Christmas Carol" (Um Conto de Natal), a personagem principal, Ebenezer Scrooge é transportada aos natais do seu passado, presente e no futuro. Estas são consideradas meras visões fugazes e não viagens no tempo, porque a personagem não chega a interagir com eles; em 1889, Mark Twain e o seu "A Connecticut Yankee in King Arthur's Court" (Um Americano na Corte do Rei Arthur) ajudou a cimentar a ideia de viagem ao passado, já que o seu protagonista, depois de uma luta, vê-se transportado para o tempo de Rei Arthur e onde, pela primeira vez, a história é alterada devido ás acções do viajante do tempo (este termo tornar-se-á popular através da obra de H.G.Wells).
   As viagens no tempo podem ser o tema central de um livro, ou podem simplesmente ser um instrumento do enredo para alcançar a imaginação do público. Ambas as ideias estão bem patentes em  "A Máquina do Tempo", a obra que ainda hoje, mais de um século depois da sua publicação, ainda encanta o público das mais diversas idades.
   Os mais variados temas de viagens no tempo têm sido recorrentes nas histórias de ficção cientifica, com muita imaginação de modo a torná-las mais interessantes. Eis alguns exemplos:
- Aquelas em que o viajante do tempo (insisto no termo por ser o que melhor se aplica a este efeito) altera o curso da história, quer seja para o bem ou para o mal, por vezes acidentalmente, recorrendo a ajuda tecnológica do seu tempo. Em "Lest Darkness Fall"( A Luz e as Trevas)  de L.Sprague de Camp é o que acontece.
- Aquelas histórias em que o viajante do tempo vem dum futuro obscuro até ao presente para tentar resolver o problema de modo a que este influencie totalmente o futuro. Estas histórias podem aplicar-se a um ou a vários personagens até a uma sociedade em geral. Os filmes e os livros da série "Terminator" (Exterminador Implacável) são disso o melhor exemplo.
 - Finalmente as histórias em que o viajante do tempo altera os acontecimentos acidentalmente porque  apenas quer observar o passado, ou é para lá enviado contra sua vontade e tenta regressar ao seu tempo, mas pode acontecer que as suas acções alterem a história do que se vai passar. A série cinematográfica "Back to the Future" (Regresso ao Futuro) brinca com este último conceito.
   As viagens no tempo têm também uma função ideológica porque literalmente providenciam o necessário afastamento que a ficção cientifica precisa para poder aludir aos temas e assuntos que dizem respeito ás pessoas no presente.
   A Ficção Centifíca é, na sua essência, um tipo de Viagem no Tempo. Os acontecimentos dão-se num passado alterado, num tempo presente transformado ou num futuro próximo, transportando o leitor ou o espectador para outro tempo, outro local, dimensão ou mundo. Quando a ficção cientifica viaja, sabemos que estamos no seu dominio porque somos confrontados com uma narrativa dinâmica necessária para o género.


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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Os Oscares

   Anualmente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), reconhece a excelência dos seus profissionais através da entrega de um prémio vulgarmente conhecido como Oscar.
   A cerimónia em que os prémios são entregues é das mais proeminentes nos media e é também das mais antigas em todo o mundo. As  suas equivalentes para a televisão  (Emmys), para o teatro (Tony) e para a música (Grammy) são baseadas na da Academia. A própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi criada por Louis B. Mayer,  patrão dos Estúdios Metro-Goldwyn-Mayer.
   Apesar de haver diversos tipos de prémios anualmente entregues pela Academia, dos quais se destacam o Irving G. Thalberg, o prémio humanitário Jean Hersholt, o prémio  Gordon E.Sawyer, entre outros, o Oscar é o mais conhecido de todos. Feito numa liga de metal com um banho de ouro e assente numa base metálica preta, mede 34 centímetros,  pesa 3,85 kgs e representa  um cavaleiro, a segurar uma espada de cruzado, em cima duma bobina de filme com cinco raios, representando os cinco principais ramos da Academia: Actores, Argumentistas, Realizadores, Produtores e Técnicos.
   A origem do nome dado ao prémio é ainda incerta. Um biógrafo de Bette Davis afirma que foi ela, em homenagem ao então seu primeiro marido, Harmon Oscar Nelson, quando o recebeu em 1936. Existem também registos anteriores, nomeadamente de Walt Disney quando, em 1932, foi receptor de um Oscar. A mais consensual história do nome do prémio vem de 1931 quando Margaret Herrick, Secretária Executiva de Louis B. Mayer, viu a estatueta e comentou que era parecida com "o seu tio Oscar". Seja qual for a origem, a verdade é que o nome pegou, como referiu na altura um colunista que estava presente quando Herrick pronunciou aquelas palavras, o nome foi oficialmente adoptado para Oscar, pela Academia, em 1939.
   Mais de 60 anos depois da Cerimónia ter lugar em meados de Março, a partir de 2004,  passou a ter lugar em finais de Fevereiro, sendo que as nomeações são apresentadas em finais de Janeiro e nelas só podem estar filmes que tenham estreado no Condado de Los Angeles, Califórnia, entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro do ano anteriror. os filmes são então submetidos ao processo de candidatura, no qual t~em de obedecer a certos trâmites legais (como ter um minimo de 40 minutos de duração, terem sido filmados em écran de 35 e/ou 70 mm, apresentarem uma velocidade de 24 e/ou 48 fotogramas/segundo, entre outras coisas relevantes) sob pena de, caso não estejam de acordo, serem desconsiderados e impedidos de ser nomeados em qualquer ano.
   Os candidatos são então votados pelos mais de 6000 membros da Academia nas respectivas categorias (Actores votam nos actores, argumentistas votam nos argumentistas, realizadores nos realizadores, etc.) determinando assim os nomeados em cada categoria. Para Melhor Filme, todos os membros podem apresentar candidatos. Os vencedores são então determinados numa segunda votação, na qual todos os membros podem votar a maior parte das categorias, incluindo a de Melhor Filme do Ano. No total são entregues anualmente quase 50 Oscares.
   A cerimónia, calcula-se, é vista por mais de 40 milhões de americanos e transmitada em directo para mais de 200 países no mundo inteiro onde outros tantos milhões de espectadores assistem.


Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet
  
  
  

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