O Cavaleiro das Trevas - Um Filme sem Heróis!




     
Em 2005, o realizador Christopher Nolan surpreendia o mundo do cinema com uma nova versão  de “Batman”, o super-herói criado por Bob Kane e Bill Fingers em 1939.
Com “Batman Begins – O Início”, Nolan apresentava uma versão muito pessoal, mais negra, porém, mais próxima da criação de Kane do que os filmes e as séries dos anos 60 do século passado, fizeram da personagem. Nem mesmo Tim Burton, nos filmes que realizou na década de 80 e 90, conseguiu fazer justiça suficiente ao vigilante da capa negra, apesar do sucesso de bilheteira obtido e de uma certa aceitação pelos fâns da banda desenhada  que os dois filmes que Burton realizou, obtiveram.
Perante o sucesso que “Batman – O Início” obteve junto do público e também da crítica, não só pela maneira como o realizador abordou a personagem, como também pelo final, que deixava aberto o caminho para uma eventual sequela. Era apenas uma questão de tempo até esta ser anunciada.
    
Batman, o justiceiro de capa negra, ajudado pelo tenente da polícia, Jim Gordon e o novo procurador de Gotham, Harvey Dent, estão dispostos a acabar com as organizações criminais que infestam a cidade. No início tudo parece correr bem, mas rapidamente se vêem confrontados com um outro tipo de ameaça, bem mais perigosa que os simples mafiosos, que se intitula a si próprio “The Joker” e esta espécie de génio do crime começa a semear o pânico e o caos entre a população da cidade.  
Pouco tempo antes da estreia de “Batman – O Início”, o argumentista David S. Goyer, escreveu dois esboços para duas possíveis sequelas nas quais seriam introduzidas as personagens de “The Joker” e de Harvey Dent. A sua ideia original era que, no terceiro filme, “Joker”, durante o seu julgamento, marcasse Dent, de modo a que este se transformasse no “Harvey Duas-Faces”. Christopher Nolan, inicialmente não sabia se regressaria ou não para realizar qualquer eventual sequela de “Batman”, queria reinterpretar “Joker” no écran e quando, a 31 de julho de 2006, a “Warner Bros”, anunciou oficialmente que iria haver uma sequela de “Batman Begins” e que se iria chamar “The Dark Knight”. Quando lhe foi dada luz verde para filmar a sequela, o realizador não hesitou.
   
Depois de muita pesquisa, apoiada na história que David S. Goyer delineara, inspirada na série escrita “Batman – The Long Halloween – O Longo Halloween”, uma série de contos escritos por Jeph Loeb e desenhados por Tim Sale e publicados pela DC Comics entre 1996 e 1997 e que recontavam a história de “Harvey Duas-Faces”, Christopher Nolan e o seu irmão, Jonathan, por sua vez inspiraram-se também no  primeiro número da  revista “Batman”, editada em 1940 onde o “Joker” aparece por duas vezes. Igualmente influente na escrita do argumento foi, segundo o realizador, o filme “Das Testament des Dr.Mabuse – O Testamento do Dr.Mabuse” que Fritz Lang realizou em 1933,“é absolutamente essencial para quem queira escrever sobre um super-vilão ver este filme” e foi o que Nolan fez com o seu irmão antes de começarem a escrever o argumento. A ideia, ainda segundo o realizador, não era mostrar as origens de “Joker”, mas sim a sua ascensão como mente criminosa, sem diminuir a força ameaçadora que representa. Era, pois, com alguma expectativa que se aguardava este "O Cavaleiro das Trevas".
   
A história gira, mais ou menos, á volta das tentativas de “Joker” para humilhar as forças policiais e expor a identidade secreta de Batman, apresentando-o como um enigmático exibicionista e uma fraude. Ele inclui também Jim Gordon e Harvey Dent como alvos preferenciais e, para isso, planeia truques cruéis para jogar com o facto de que Bruce Wayne, que já foi namorado da bela Procuradora-Adjunta, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, num dos seus melhores papéis) e por quem Harvey Dent está agora apaixonado e esses truques são tão ou mais cruéis uma vez que o Joker não conhece a identidade de Batman. O conflicto que se estabelece entre os dois é entre adultos, pessoas que sofreram na infância ( a de Bruce é mostrada através de “flashbacks” no primeiro filme), agora é a vez de “Joker” e, se neste filme , não há qualquer referencia á de Bruce Wayne, já a de “Joker” é contada unicamente através de diálogo, uma tenta compensar-se a fazer o bem, a outra tenta fazê-lo através do mal e, talvez  instintivamente, ambos percebem isso.
   
Christopher Nolan, que antes já nos dera o labiríntico “Memento” (2000), a história de um homem em busca da sua identidade (não confundir com “The Bourne Identity – Identidade desconhecida) e o excelente “The Prestige – O Terceiro Passo” (2006), que conta a história da rivalidade entre dois ilusionistas de palco na tentiva de criar o último grande número de ilusionismo de palco, realizou um filme tecnicamente muito bem feito, quase perfeito, que consegue ir mais além daquilo que seria expectável numa sequela, ou seja quando parece que se atingiu o objectivo, ele força mais e mais até ser quase completamente impossível sair das situações, tudo feito com uma precisão milimétrica sem nunca perder a orientação traçada desde o início, na sequência do banco, que é dos mais perfeitos e imprevisíveis assaltos a bancos que alguma vez se viu no cinema ( Nolan admitiu ter-se inspirado em “Heat – Cidade sob Pressão, o excelente filme policial que Michael Mann realizou em 1995,  para filmar a cena). É uma das melhores sequelas da história do cinema, digna de figurar ao lado de “The Godfather, Part II – O Padrinho-Parte II” (Francis “Ford” Coppola, 1974).
    
“O Cavaleiro das Trevas” não é um  simples filme sobre o Bem e o Mal. O Batman é Bom, sim, o “Joker” é o mal, sim. Mas Batman apresenta-se como sendo um puzzle muito mais complexo que o habitual (e isso já se vira no filme anterior), aqui torna-se muito pior: os habitantes de Gotham estão em tumulto por causa da morte dos seus concidadãos e polícias, culpam-no dessas mortes e acusam-no de ser um “Vigilante” (alguém que faz justiça pelas suas próprias mãos). O “Joker”, por seu lado, é muito mais que um vilão: ele é maquiavélico, genial, violento, um verdadeiro Mefistófeles do crime, cujas acções são  meticulosamente planeadas e orientadas para criar verdadeiros dilemas morais nos seus inimigos e isso vê-se na cena, perto do final, em que o “Joker” “convida” dois “ferry-boats”, carregados de passageiros, a fazerem explodir-se um ao outro antes deles mesmos serem destruídos. É uma cena carregada de tensão onde o simples descontrole de alguém dentro de qualquer um dos barcos, pode fazer com que ele vença sem fazer um grande esforço.
   
De acordo com Nolan, um tema importante nesta sequela é a escalada, ou seja, as coisas têm que ficar piores antes de melhorarem. O melhor exemplo disso é a rivalidade amigável entre Bruce Wayne e Harvey Dent que funciona como uma espécie de espinha dorsal da história de modo a dar ao filme um arco emocional que o “Joker” não conseguia oferecer dadas as suas características malignas. Se o final de "Batman - O Inicio" nos remetia para este "Cavaleiro das Trevas", já este não nos remete para coisa nenhuma. O final, sem glória para ninguém, é um dos achados do filme: Batman assume a culpa por tudo aquilo que se passou na cidade e será perseguido para sempre, condena-se a ser um Cavaleiro para sempre nas Trevas; o procurador Harvey Dent, depois de ser o herói de Gotham, uma espécie de Cavaleiro Branco, por via dos acontecimentos, cai em desgraça, transfigura-se num ser amargurado e torna-se naquilo que inicialmente combatia; O Comissário Gordon transformado num herói que não quer, nem nunca quis ser; o que é que resta então? um vazio. Fica-se com a sensação de que toda a fundação moral de lenda de Batman está ameaçada.
   
Das interpretações do elenco, todo ele feito de excelentes escolhas, salientam-se as personagens secundárias a cargo dos grandes actores que são Morgan Freeman e Michael Caine. Freeman é Lucius Fox, o génio científico, encarregado do quartel-general subterrâneo de Bruce Wayne, cuja oposição ao método de escutas a toda a população de Gotham criado por Wayne, acaba por, se bem que sub-repticiamente, ter uma leitura política. Caine, por seu lado, é Alfred, o mordomo dedicado que conhece Wayne melhor que ninguém o que lhe permite fazer reparos á sua conduta. A meio do filme a sua decisão sobre uma carta para Bruce Wayne, será decisiva. Christian Bale, Gary Oldman, retoman os seus papéis respectivamente de Bruce Wayne/Batman e de Comissário Gordon, a quem se junta Aaron Eckart, no papel do Procurador Harvey Dent. Mas na verdade, o filme pertence na sua totalidade a Heath Ledger no papel de “Joker”: o arqui-inimigo de Batman. A sua maquilhagem desleixada, as suas gargalhadas perversas  que denunciam uma mente perturbada, as cicatrizes que resultam de ferimentos auto infligidos (ou não?), ele quer vingança pelos maus tratos que lhe foram infligidos quando era criança. Os seus diálogos são um verdadeiro achado, tornando-o psicologicamente mais complexo, delineando os dilemas que ele próprio construiu e explicando as razões que o movem.

   Heath Ledger criou um Joker que, não ensombrando o Joker de Jack Nicholson em "Batman" de Tim Burton, fica-nos na memória. Ledger aconselhou-se com Nicholson sobre qual a melhor maneira de se transformar em “Joker” e, aparentemente, tal aconselhamento terá resultado porque o actor agarrou o papel com tal vitalidade que quando está em cena, consegue centrar todas as atenções como se não houvesse mais ninguém presente e isso consegue-se ver na cena em que ele se encontra detido pela polícia, frente a frente com Batman que quer saber do paradeiro de Harvey Dent e o Joker olha-o por detrás da sua maquilhagem descuidada e diz-lhe, no maior dos gozos, “para eles, tu és uma aberração, tal como eu!” (“To them, you’re a freak, just like me!”). É o “Joker definitivo no cinema, uma enorme interpretação de Heath Ledger, o seu melhor papel e, infelizmente, também o seu último.
   
Heath Ledger (1979-2008), o "Joker" Definitivo
A 22 de janeiro de 2008, Heath Ledger morria, aos 28 anos de idade, vitima duma overdose de medicamentos, a poucos meses da estreia do filme Não saboreou o triunfo absoluto que conseguiu com a sua interpretação que ganhou practicamente todos os prémios para que foi nomeada, incluindo o Oscar para Melhor Actor Secundário, entregue postumamente, tornando-se no primeiro actor a receber o prémio nesta categoria, mas o segundo a ganhá-lo na categoria de interpretação (o primeiro fora Peter Finch, como Melhor Actor, em 1976, com “Network – Escândalo na TV”, realizado por Sidney Lumet), recebido por Christopher Nolan e entregue aos seus familiares.
   
A 16 de julho de 2008, “O cavaleiro das Trevas” estreava em mais de 9000 salas nos estados unidos e no canadá, tornando-se no maior sucesso de bilheteira do ano, batendo o recorde de “Os Piratas das Caraíbas – Nos Confins do Mundo” (Gore Verbinski, 2007), fazendo mais de 158.000.000 de dólares só no fim de semana de estreia. Na totalidade o filme arrecadaria cerca de 533.000.000 de dólares só nos estados unidos e cerca de 1 bilião de dólares no mundo inteiro, tornamdo-se no quarto filme mais rentável da história do cinema.
Entre os inúmeros prémios para que foi indicado, estão as oito nomeações para os Oscares da Academia,  das quais venceria apenas duas, além da já citada para Melhor Actor Secundário, venceu igualmente na categoria de Melhor Som.




Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




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