Doutor Jivago – O amor nos tempos da Revolução Russa


   
Em 1963, o realizador David Lean sentia-se como Leonardo DiCaprio, 35 anos mais tarde, de pé, na amurada da proa do “Titanic”, a gritar “Sou o Rei do Mundo!”:  o seu  épico aventuroso, “Lawrence da Arábia”, triunfara nos Oscares, ao vencer em sete das dez categorias para que fora nomeado, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador.   Pouco tempo depois, o realizador anunciava o seu próximo projecto: uma adaptação do livro “Dr. Zhivago” de Boris Pasternak. Foram várias as razões que trouxeram Lean até este filme. Carlo Ponti, o poderoso produtor italiano, mal soubera do sucesso internacional do livro, adquiriu os direitos da sua adaptação para o grande écran e usá-lo como veículo para promover a sua mulher, Sophia Loren. Lean, por seu lado, depois de “Lawrence” e do seu enorme sucesso em todos os campos, queria fazer algo mais íntimo, mais romântico e o livro de Pasternak, parecia ser o melhor remédio.
   
Carlo Ponti não indicara nenhum realizador na altura em que adquiriu os direitos de adaptação da obra. Ele queria filmar na União Soviética para conferir algum realismo á monumental obra de Pasternak, mas, algum tempo depois, percebeu que se quisesse filmar lá, o Kremlin iria quase de certeza querer exercer algum controle, discreto, mas ainda assim, um controle. A ideia foi abandonada ao fim de algum tempo. O facto de David Lean ter ganho Oscares as duas últimas vezes em que obras suas estiveram a concorrer, foi decisivo para Ponti indicar o seu nome como realizador da adaptação de “Doctor  Zhivago” e o realizador aceitou de bom grado assim que leu o resumo de 30 páginas que lhe fizeram chegar.
   
G.Chaplin, J.Christie, T.Courtenay, A.Guiness, R.Richardson, O. Sharif, R.Steiger
Peter O’Toole, que brilhara em “Lawrence da Arábia”, ao interpretar a complexa personagem de T.E. Lawrence, foi uma das primeiras escolhas de Lean para o papel de Jivago. Mas o actor, que já estava comprometido com Richard Brooks para o filme “Lord Jim” (1965), recusou. Antes de se decidir por Omar Sharif, que também participara em “Lawrence”, Lean convidou Paul Newman, Max Von Sydow , Michael Caine, entre outros que, por uma ou outra razão, declinaram o convite. Rod Steiger foi convidado depois de  Marlon Brando e James Mason recusarem. Audrey Hepburn foi escolha para o papel de Tonya, antes deste ser entregue a Geraldine Chaplin. Para interpretar Lara, Ponti queria a sua mulher, Sophia Loren, mas Lean conseguiu convencer o produtor de que ela era alta demais para as exigências do papel. Yvette Mimieux, Sarah Miles e Jane Fonda foram os nomes que se seguiram, antes de, baseado numa recomendação de John Ford , o realizador, deslumbrado  pela beleza da actriz britânica, Julie Christie, a escolher para o papel.
   O livro, publicado em 1957, (o tempo era o da guerra fria), só havia sido completado um ano antes e chegou ao mundo ocidental, onde foi publicado, entre um grande coro de celebração e de alguma controvérsia, que fez do seu autor um dos símbolos da Guerra Fria e da resistência ao comunismo soviético. Pasternak, um grande poeta lírico, seria agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1958 e o livro, ajudado pela campanha soviética contra ele, tornou-se um dos maiores sucessos literários no mundo não comunista e esteve 26 semanas no top dos “Best-Sellers” em Nova York. O livro só foi publicado pela primeira vez na União Soviética em janeiro de 1988, já no tempo da “Perestroika” e do “Glasnost” de Mikhail Gorbachev. Por esta altura, a versão de Lean, que, na altura da sua estreia, tinha sido largamente denunciada pelas autoridades soviéticas como politicamente incorrecta, acabou por ser visualizada no Kremlin, já que o realizador fora convidado para o Festival de Cinema de Moscovo em 1987 e que a organização teria muito gosto em exibir “todos” os seus filmes.
   
A acção do filme passa-se na Rússia, maioritariamente no período que antecede a Iª GuerraMundial, a revolução russa de 1917, a guerra civil que se lhe seguiu e estes períodos são antecedidos de uma espécie de prólogo situado algures na década de 40 ou 50 no qual o General Yevgraf Andreyevich Zhivago (Alec Guiness, irrepreensível como sempre!) interroga a jovem Tanya Komarova, que ele pensa ser a sua sobrinha, filha do seu meio-irmão,  Doutor Yuri Andreyevich Zhivago (Omar Sharif, no papel mais famoso da sua carreira) e de Larissa “Lara” Antipova ( a bonita actriz Julie Christie). Perante a incredulidade da jovem, Yevgraf conta-lhe então a história da vida do seu (suposto) pai.
   
O filme, apesar de ser fiel ao foco central do romance, difere do mesmo em  algumas personagens e acontecimentos. No entender de muita crítica especializada, o facto do filme se centrar muito no romance entre Jivago e Lara, tirando alguma importância á revolução russa e á guerra civil que se lhe seguiu, banalizando o a própria história e penalizando a película, que mais não era do que uma série de postais ilustrados da revolução, uma  história de amor  situada no topo do que foi a dolorosa reconstrução da Rússia destruída por uma guerra civil. Apesar do filme ser visto, na maior parte, pelo lado de Jivago, o poeta e não de Jivago, o médico, a sua poesia manifesta-se logo desde o início do filme, mas só o vemos a escrevê-la perto do final do filme e nunca ouvimos nenhum dos seus poemas ser dito (nem mesmo no prólogo quando o encarregado da barragem diz que antes os poemas não podiam ser lidos mas que agora já lhes era permitido lê-los) e este facto foi uma das razões que levaram a crítica a achar o filme mais um romance amanteigado e belicodoce do que a adaptação do livro de Pasternak.

   Lean conseguiu manter-se acima de todas estas coisas. Mas também, se calhar, a experiência foi-lhe dolorosa porque quando a mesma crítica que o louvou em “ A Ponte do Rio Kwai”
(1957), em “Lawrence da Arábia” (1962), que tentou deitá-lo abaixo com este “Dr.Jivago”, conseguiu-o com  “A Filha de Ryan” (1970), o  seu filme seguinte, afastando o realizador do cinema durante 14 anos, afastamento esse que muitos julgaram definitivo.
A ideia com que se fica depois da experiência que é ver um filme com esta grandiosidade técnica e duração (mais de três horas!) é que David Lean é um verdadeiro artesão da velha escola e isso fica patente em algumas cenas, que embora não sejam marcantes no todo da obra, são significativas do ponto de vista técnico do filme: a cena, logo no início, em que se vê uma estrela vermelha a brilhar por sobre a abertura do túnel onde os trabalhadores entram e saem;  o plano da cara do jovem Jivago a olhar assustado para uma janela congelada e os ramos duma árvore a baterem contra ela; ou, talvez o mais belo plano de todo o filme quando cristais de gelo se transformam em flores e uma delas se dissolve, transformando-se na cara de Lara.  Mas Lean, vai ainda mais longe, demonstrando todo o seu perfeccionismo (patente em toda a sua obra) ao aceitar um dos desafios mais difíceis da sua carreira como realizador: reconstruir Moscovo, os seus arredores e grande parte da estepe russa no tempo da revolução russa em locais como espanha e canadá ( toda a cena do comboio foi filmada lá) e aceitou filmar a maior parte das cenas-chave do filme durante o inverno, com todas as dificuldades que fotografar na neve ( artificial e verdadeira) acarreta. O momento que melhor ilustra esta dificuldade é, quando Jivago e Lara entram numa casa abandonada em Yuriatin, a neve e o gelo que os precedia transforma-se quase numa fantasia de inverno fazendo-nos pensar simultaneamente na beleza daquela cena e na cuidadosa direcção artística com que somos presenteados.
   
Mas há também toda uma vertente épica que percorre toda a obra, ou não fosse este um filme de David Lean e é nesse sentido que a obra ganha proporções de superprodução: a carga da cavalaria sobre os manifestantes bolcheviques na rua principal de Moscovo; as tropas a retirarem da frente de guerra quando tentam persuadir os reforços que com eles se cruzam a voltarem para trás antes de chacinarem os oficiais de exército; a carga dos “partisans” comunistas durante a guerra civil sobre um lago gelado; ou a cena do êxodo de comboio de  Moscovo. São cenas que demonstram o enorme perfeccionismo que Lean punha ao serviço das suas obras. Como curiosidade, as cenas inicial e  final, foram filmadas na barragem de Adeadávila, entre portugal e espanha e, apesar de não aparecer nos créditos finais, a maior parte destas cenas foram filmadas do lado de Portugal  com vista para a margem espanhola.
Para ilustrar o filme em toda a sua beleza, grandeza, bons,e maus momentos, épicos, românticos, dramáticos, tensos, Lean chamou aquele que, depois do triunfo em “Lawrence da Arábia”, passou a ser o seu compositor de confiança até ao final da sua carreira cinematográfica: Maurice Jarre, cuja banda sonora para este filme, premiada com um Oscar da Academia, deixou uma marca indelével na cultura popular, “Lara’s Theme”, foi um enorme sucesso quando apareceu em disco, permanece ainda hoje como um dos mais famosos e belos temas na história do cinema e ajudou de certa maneira o filme a ganhar o estatuto de clássico que hoje detém.
 
As primeiras duas horas do filme serão talvez as melhores e também as mais pessoais. As personagens definem-se  aí. Entre todas as personagens que desfilam perante os nossos olhos, é a personagem de Victor Komarovski, interpretada por Rod Steiger, que mais nos fica presente. Victor Komarovski é um oportunista da pior espécie, um homem que quer estar bem com deus e com o diabo. Um verdadeiro canalha, que usa e abusa da sua posição. Primeiro vitimiza Amélia, a mãe de Lara, ao ponto de quase a levar á morte e depois a própria Lara. Jivago conhece-a nesta altura quando vai a casa dela para ajudar na recuperação de Amélia após a sua tentativa de morrer e vê-a, primeiro na sombra e depois á luz quando Komarovski lhe comunica que a mãe está bem. Mais tarde apaixonar-se-á por ela quando a vê entrar numa festa de natal e disparar sobre o seu antigo amante. Essa imagem será marcante no desenvolvimento da paixão que se tornará numa obsessão do poeta-médico, que a levará para o casamento com a sua doce e leal Tonya (Geraldine Chaplin). A melhor definição do carácter de Komarovski está no diálogo que este tem com Jivago logo após ser ferido por Lara. Jivago pergunta-lhe “O que é que acontece a uma rapariga quando um homem como você, termina tudo com ela?” a resposta é fria como a noite de inverno em que acontece o atentado “Interessado?  Eu ofereço-lha, Yuri Andreyevich, como prenda de casamento!”. Com esta interpretação, e nesta cena particular, Steiger tem um dos melhores desempenhos da sua carreira e que serviria para moldar a personagem do xerife racista de “No Calor da Noite” (Norman Jewison, 1967)  que lhe viria a dar o Oscar da Academia.
   
O filme termina, aparentemente, com a mesma nota de mistério com que começa: afinal a jovem Tonya é ou não filha de Jivago? O filme, talvez propositadamente, não o esclarece, mas a cena final, quando Tonya desce do gabinete, de mão dada com o noivo, traz ás costas uma balalaika. Yevgraf pergunta-lhe se ela sabe tocar o instrumento. O noivo responde que ela é uma artista. O militar sorri e responde “Ah, então é um dom!”, ponha o espectador na pista certa. O que nos é dito nesta cena é que o mistério em volta de Tonya pode estar resolvido, já que a mãe de Jivago era uma verdadeira artista com o instrumento ( e isso é-nos dito também logo no início do filme) e ela pode ser a tão procurada sobrinha do general. Mas eu prefiro pensar que a frase de Yevgraf é, na verdade, a definição de toda a obra do realizador David Lean.
   
Quando terminou a rodagem, 10 meses depois de a ter começado, Lean tinha cerca de 31 horas de filme que teriam que ser reduzidas, por imposição de Carlo Ponti  para uma duração de cerca de três horas e vinte minutos e que teria de estar pronto, para estreia e posterior entrada na corrida aos Oscares, até ao final de 1965.  Por entre avanços e recuos na sala de montagem, o filme acabou por chegar ás salas em 22 de dezembro de 1965.
Apesar do enorme êxito de bilheteira que obteve (cerca de 111.700.000 dólares), o filme foi recebido com incredulidade pela crítica especializada que acharam difícil que aquele realizador fosse o mesmo que fizera “Lawrence da Arábia” que nesta altura já era um clássico e considerado um dos melhores filmes de aventuras que alguma vez o cinema produzira.
   Vencedor de vários prémios, incluindo cinco Globos de Ouro ( é um dos poucos filmes a ter ganho em todas as categorias em que fora nomeado) e dez nomeações para os Oscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, acabou por ganhar apenas cinco, incluindo Melhor Fotografia e o já citado para a Melhor Banda Sonora.
“Doutor Jivago” é, ainda hoje, o oitavo maior êxito de bilheteira da história do cinema.

Em 2002, o livro de Boris Pasternak foi adaptado para televisão numa mini-série britânica com Keira Knightley e Sam Neil no elenco.





Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto fora retirados da internet

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