A Cor do Dinheiro - Para fans de snooker!


   
Em 1961 Paul Newman (1925-2008) interpretava um dos papéis mais marcantes na sua longa carreira de actor. "Fast" Eddie Felson assim se chamava a personagem e era um ingénuo jogador de snooker que, irá sentir na pele os altos e baixos da vida até se reencontrar. O filme chamava-se "The Hustler - a Vida é um Jogo", realizado por Robert  Rossen. Vinte e cinco anos e sete nomeações para os óscares depois, ele retoma o papel e vence a concorrência.
    "A Cor do Dinheiro", assim se chama o filme e vamos encontrar "Fast" Eddie, mais de vinte anos depois dos acontecimentos do filme anterior,  reformado dos grandes torneios nas fumarentas salas de snooker à procura de alguém em quem possa investir o seu dinheiro e esse alguém encontra-o na pele de Vincent (Tom Cruise), um jovem vigarista que tem uma incrível técnica a jogar snooker e que lhe faz lembrar ele próprio quando era jovem. Eddie resolve então apostar em Vince, fazê-lo rodar por vários salões e levá-lo até ao topo onde cada vitória ronda os milhões de dólares. Mas sabe "Fast" Eddie que esta aposta irá levá-lo a algo mais que ele não está à espera.
    Quando se começou a falar numa possível continuação de “The Hustler”,  Walter Tevis, autor do romance com o mesmo título do filme, adaptou  directamente a sua obra, mas realizador e produtores, resolveram não seguir o livro e delinearam uma história completamente nova, conservando apenas o título do livro. Ausente desta continuação está a personagem de Minnesota Fats, o adversário de “Fast” Eddie em “ The Hustler”, interpretado por Jackie Gleason que, tal como Newman, também foi nomeado para os Oscares. Paul Newman queria que ele aparecesse e, até certa altura da pré-produção, a personagem fazia parte do primeiro esboço de argumento que chegou ás mãos de Scorsese. Mas, a dada altura, pareceu aos produtores que não havia nenhuma cena em que Minnesota coubesse, pelo que a sua presença foi abandonada.
 
Não se deve considerar “A Cor do Dinheiro” como uma sequela directa de “The Hustler”, até porque nunca foi essa a intenção do realizador. A sua ideia era apresentar o ex-jogador de snooker mais velho, mais maduro e com outra ocupação ( neste caso “Fast” Eddie é um vendedor de bebidas de sucesso), que ainda  se passeia pelas salas de jogo das  pequenas e grandes cidades, no seu Cadillac branco, do qual tem muito orgulho, juntamente com a sua namorada, Janelle ( a bonita actriz Helen Shaver), antiga empregada de bar. Eddie ainda joga Snooker mas não pelas grandes apostas e nem com os jogadores que correram com ele do jogo
    
As interpretações são magnifícas, a começar por Paul Newman que ganharia o Oscar de Melhor Actor, ao interpretar um "Fast" Eddie Felson muito mais maduro e experiente do que em "The Hustler". As sequências em que ele é énganado por um "Hustler" mais novo e aquela em que ele regressa às grandes competições, são de antologia e dignas de figurar no panteão das grandes interpretações. Tom Cruise, ao interpretar Vincent, o protegido de "Fast" Eddie e depois o seu oponente ( no final, Mestre e  Discípulo enfrentam-se no único campo de batalha que ambos conhecem e o resultado não se sabe qual será, já que “Fast” Eddie avisa Vincent de que se o não vencer ali, fa-lo-á noutra altura qualquer porque, como ele diz, “I’m Back”!), tem aqui uma interpretação honesta de quem ainda estava em princípio de carreira.
   
Realizado por Martin Scorsese, "A Cor do Dinheiro", mostra-nos o ambiente vivido nas salas de snooker, os jogos, as apostas e a constante mudança do dinheiro de mão em mão, tudo isto intercalado com algumas das melhores sequências de snooker alguma vez filmadas que têm o seu ponto alto no inicio do grande torneio de Atlantic City onde, num magnifíco grande plano, se vêm as mesas de snooker reluzentes como se fossem campos prontos para as batalhas que se vão seguir. O realizador encarou este filme como uma “obra de encomenda”, que fez, juntamente com “After Hours – Nova York fora de Horas” (1985), para se recuperar do fracasso comercial que fora “The King of Comedy – O Rei da Comédia” (1983)., apesar dos nomes grandes e dum tema banal, mas popular e Scorsese, sendo um realizador que gosta de criar histórias novas, completamente pessoais a partir da sua própria imaginação e não  terminar algo que outro começou antes, neste caso, 25 anos antes, não se sentirá plenamente realizado.
   Apesar de não ser um dos melhores filmes de Martin Scorsese, o seu estilo está bem patente em cada imagem que se vê, é uma realização em constante movimento, contribuindo para isso a montagem de Thelma Schoonmaker, colaboradora habitual do realizador, tal como as personagens do filme. 
   
Em diversas cenas, como quando Eddie vê Vince pela primeira vez a jogar e apercebe-se de que a namorada do rapaz, Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio, sensual), apesar de gostar do ambiente das salas, está obviamente a ficar aborrecida, resolve aproximar-se dela e fazer um acordo que lhes permita ganhar muito dinheiro; ou quando Eddie usa Carmen num jogo de sedução entre ambos para fazer ciúmes a Vince e assim perceber qual é o grau de auto-confiança do jovem, são cenas extremamente bem encenadas e muito próximas da sensibilidade que Scorsese põe em tua a sua obra no que toca nas relações entre personagens, principalmente femininas. Também a “voz off” no início do filme ( é o próprio Martin Scorsese que o faz numa apresentação não creditada), a explicar as regras do jogo é também um reflexo do tema do filme. A cena, filmada por entre o fumo dos cigarros e pedaços de giz para o taco, é  a melhor apresentação para mergulhar o espectador nos ambientes reais do filme.
   O filme estreou a 8 de outubro de 1986 nos estados unidos e a 17, do mesmo mês, na europa. A critica geral foi positiva, apesar de muitos o considerarem inferior ao seu antecessor. Mesmo assim rendeu cerca de 53.000.000 de dólares, só nos estados unidos. O filme elevou a popularidade do bilhar e do snooker um pouco por todo o mundo.
 Tal como "Fast" Eddie Felson, em dado momento do filme, vê o seu reflexo numa bola de snooker, este filme reflecte a carreira de um grande actor, finalmente recompensada com o Oscar da Academia, prémio máximo a que qualquer actor pode e deve aspirar, no seu penúltimo grande papel. O último grande momento seria em "Estrada para Perdição" (Sam Mendes, 2002).

Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet




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