Os Condenados de Shawshank


    Em 1963 “The Great Escape – A Grande Evasão”, realizado por John Sturges, baseado num livro escrito por Paul Brickhill,  inspirado em acontecimentos verídicos ocorridos durante a IIªGuerra Mundial onde prisioneiros de guerra aliados  planeiam fuga de um grande número dos seus pares dum campo de concentração nazi. O filme apresentava uma constelação de vedetas que incluíam Steve McQueen, Richard Attenborough, James Garner, Charles Bronson, James Coburn, Donald Pleasence, entre outros e mostrava  todo o planeamento e logística que envolviam a fuga. Tornou-se um clássico rapidamente, várias vezes imitado mas nunca superado e deu origem, ao longo das décadas seguintes, a uma série de filmes cuja temática girava em torno de prisões ou de fugas das mesmas, com maior ou menor qualidade.
   
O Argumentista e Realizador Frank Darabond
Realizado em 1994 por Frank Darabont, "Os Condenados de Shawshank" foi logo considerado um clássico contemporâneo pela sua abordagem original, fugindo ao convencional filme de prisão. A História, da amizade e esperança entre dois condenados numa prisão estadual, cativou a crítica e o público. Baseado num conto de Stephen King, é um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos.
Frank Darabond, argumentista de cinema e televisão, garantiu os direitos de adaptação desta história em 1983 depois de ter impressionado o escritor Stephen King com a adaptação de “The Woman in the Room”, um pequeno conto do escritor que transformou numa curta-metragem. Os dois tornaram-se amigos e Darabond, depois de ter obtido sucesso com o argumento partilhado  em “A Nightmare on Elm Street III: The Dream Warriors – O Pesadelo em Elm Street III” (Chuck Russell, 1987), comprou os direitos de adaptação do conto “Rita Hayworth and Shawshank Redemption” e optou por ser ele mesmo o realizador do filme. King, apesar dos problemas que costuma ter com a  adaptação das suas obras para o cinema, deu um voto de confiança ao aspirante a realizador.
Rob Reiner, que já tinha adaptado anteriormente o conto do escritor “The Body” e transformara no fabuloso “Stand By Me – Conta Comigo” (1986), tentou comprar os direitos a Darabond, que escreveria o argumento. O então realizador  planeava ter como protagonistas Tom Cruise no papel de Andy e Harrison Ford no papel de Red. Darabond considerou a proposta, entusiasmado com a visão de Reiner, mas declinou a oferta pois achou que era a altura certa para “fazer algo mesmo grande” ao estrear-se na realização.
   
“Os Condenados de Shawshank” cria uma espécie de calma nos sentimentos dos espectadores. Parece algo estranho para se dizer acerca dum filme que se passa dentro duma prisão. Enquanto na maior parte das produções do género, o espectador é confrontado logo com sentimentos e experiências indirectas e emoções violentas e superficiais, em “Os Condenados de Shawshank”, tudo isso abranda, fazendo com que o espectador faça parte daquela família. Utiliza a voz calma, porém observadora, do narrador para nos incluir na história de homens que formam uma comunidade atrás das grades: a esperança, a amizade e a sua continuidade pela vida fora, é mais profunda do que na maioria dos filmes e, neste caso, a sua maior diferença.
     
O que é interessante no filme e que também marca a diferença em relação a outros do género, é o facto de, apesar da personagem principal ser o condenado e ex-banqueiro, Andrew Dufresne, a acção nunca se vê do seu ponto de vista, mas sim do ponto dos companheiros de prisão. Tal ideia está perfeitamente espelhada na cena inicial quando Andy é condenado a duas sentenças perpétuas pelo assassinato da mulher e do amante dela, depois a cena muda (permanentemente) para o ponto de vista da população prisional, muito particularmente, de Ellis “Red” Redding (Morgan Freeman, extraordinário), é a sua voz que nos apresenta Andy (Tim Robbins numa das suas melhores interpretações) a lembrar-se de quando ele chegou a Shawshank e que prevê, erradamente, que Andy nunca sobreviveria na prisão.
   
Desde a chegada de Andy á prisão (naquele magnifico plano-sequência vertical) até ao final do filme, vemo-lo apenas como os outros o vêem: Red, que se torna o seu melhor amigo, Brooks, o velho bibliotecário, Norton, o director da prisão, os guardas e até mesmo os outros prisioneiros. Red acaba por ser aquele com quem nos identificamos e a redenção, de que fala o título original do filme, acaba por ser a dele; Red é o nosso infiltrado e Andy é o exemplo de que se deve manter a integridade total, ocupar e dividir o tempo, nunca perder a esperança e aguardar a nossa chance , todas estas ideias estão resumidas numa frase que, a dado momento, Andy diz a Red, “tudo se resume a uma simples escolha: ou te ocupas para te manter vivo ou arranjas maneira de morrer”. 
   
Outro aspecto que faz com que “os Condenados de Shawshank” seja diferente do resto dos filmes do género é a construção  da estrutura narrativa do argumento que nos empurra para a personagem de Andy e para o seu estranho comportamento dentro da prisão. Sem querer, interrogamo-nos: Quem é aquela personagem tão calada que se passeia no pátio da prisão como se fosse um homem livre enquanto os outros conspiram e se lamentam acerca da sua sorte? será que ele matou a mulher e o amante?  Se Darabond tivesse decidido que a personagem de Andy seria o centro heroico do filme, este teria sido certamente muito mais convencional e banal e muito menos misterioso.
     
   
Tim Robbins e Morgan Freeman
Antes de Tim Robbins e Morgan Freeman serem escolhidos para interpretar os papéis de Andy Dufresne e Ellis Boyd “Red” Redding, foram considerados para os respectivos papéis: Kevin Costner, Tom Hanks e Brad Pitt, que recusaram devido a conflitos de horários com outras produções em que se achavam envolvidos (respectivamente “Waterworld”, “Forrest Gump” e “Entrevista com o Vampiro”); para o papel de Red, apontaram-se os nomes de Clint Eastwood, Harrison Ford, Paul Newman e Robert Redford. A escolha acabou por recair em Morgan Freeman, porque Frank Darabond achou que a sua presença e comportamento eram suficientemente autoritários para ser ele o escolhido. Segundo Darabond, decisivo terá sido o curto diálogo, durante a leitura do argumento, entre Andy e Red quando aquele pergunta a este qual a origem da sua alcunha (“Red”) e Red responde “talvez por eu ser irlandês!”.
 
   
Bob Gunton como o Director Norton
Todo o elenco é magnifico nos seus papéis, mas  as escolhas de Clancy Brown como o Capitão Byron Hadley, chefe dos guardas que acha que o melhor para manter os prisioneiros nos seus lugares é moê-los com pancada e de Bob Gunton, como o director Samuel Norton, versado na Bíblia, apresentando-se como um homem pio, cristão devoto e aberto a inovações, revela-se na realidade como sendo corrupto,  impiedoso e sem escrúpulos, foram magníficas no que toca ao elenco secundário porque o espectador, mesmo tendo alguma compaixão por elas sensivelmente a meio do filme,  nunca deixa de as odiar completamente.
   
Todo o filme é suportado pela personagem de Red, ele é uma espécie de curvatura espiritual. Vemo-lo em três audições para obter a liberdade condicional: a primeira, e a mais bem conseguida de todas, graças a um truque de argumento, acontece logo após sabermos a sentença de Andy e quando vemos a auditoria, pensamos que já se passaram vários anos e que Andy vai tentar obter a liberdade condicional. Mas, não, afinal é quando vemos Red pela primeira vez a tentar convencer os auditores que está reabilitado; a segunda, ela já conhece os procedimentos e sabe o que o espera; na terceira, ele rejeita toda e qualquer possibilidade de ser reabilitado, já está muito para além dela e di-lo aos seus auditores, sentindo-se livre de qualquer constrangimento. Os auditores concedem-lhe a liberdade. Sobresiste um problema: na prisão: na prisão, Red é o rei, é  aquele que consegue arranjar tudo sem nunca se comprometer. Cá fora, ele não tem identidade ou qualquer “status” e, tendo visto, o que aconteceu a Brooks, só e abandonado em liberdade, o espectador é levado a recear pela sua vida. Mas, no último terço do filme, Andy ajuda Red a aceitar a sua liberdade, através de cartas e postais, e é visto através da mente de Red.
    Quando estreou, “Shawshank Redemption”, obteve boas críticas entre a imprensa especializada, mas fez  tão pouca bilheteira, que não conseguiu pagar-se: de 25.000.000 de dólares de orçamento, o filme apenas conseguiu 18.000.000 de dólares de receitas. Desde o facto de ter um título horrível, a ser demasiado longo e quase sem acção, mesmo tendo actores respeitados mas que não eram grandes vedetas, tudo foi usado para justificar o fracasso nas bilheteiras. Claramente se percebeu que este filme era daqueles que precisava de andar de boca em boca para encontrar o seu público. Rapidamente foi retirado das salas e só quando obteve as sete nomeações para os Oscares da Academia, incluindo uma para Melhor Filme do Ano, voltou ás salas e o público voltou as suas atenções para o filme, rendendo-lhe mais cerca de 10.000.000 de dólares.
   
Apesar de não ter ganho nenhum Oscar, o filme, ganhou outros prémios, desde então, ganhou uma nova vida e passou a fazer parte do “Top Five” das listas de críticos, imprensa especializada e é o filme  mais bem classificado (para quem segue estas classificações, 9.3/10) no IMDB, a base de dados cinematográfica da internet,  ultrapassado “O Padrinho”(1972), que foi, durante muitos anos o filme que tinha a mais alta classificação (9.2/10).
Frank Darabond construiu o filme para observar a história e não para a elevar ou encenar. A encenação não existe na obra, o filme avança ordeiramente e reflecte a passagem lenta das décadas. “Quando te colocam naquela cela”, diz Red a dado momento “Quando as barras se fecham, é quando sabes que é verdade” . Alguém disse que a vida é uma prisão, nós somos o Red, Andy é o nosso redentor.
Em 2004, no seu 10º aniversário “The Shawshank Redemption” foi incluído na lista do AFI (American Film Institute) como o 23º melhor filme de todos os tempos.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet







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