Imperdoável – O Ocaso do Western

  
   
Em 1992, depois do triunfo de “Dances with Wolves  - Danças com Lobos” (Kevin Costner, 1990) que reanimara o Western, o género mais querido, juntamente com o musical, do cinema, da melhor maneira possível, pareceu que este género popular estava de volta para trazer o público, que agora estava mais virado para a ficção científica, de volta. Mas a sensação que ficou foi que o género, apesar de ainda não estar morto e enterrado, parecia estar moribundo. Era tempo de fazer um elogio que, ao mesmo tempo o homenageasse condignamente. "Unforgiven -  Imperdoável”  é a mais bela página que se pode escrever sobre um género que, afinal, esteve na génese do cinema, "The Great Train Robbery"  de Edwin S.Porter  é o primeiro Western da história e foi realizado em 1903.
   Ao tomarem conhecimento duma recompensa lançada por um grupo de prostitutas a quem matar o homem que deformou uma delas, dois ex-foras-da-lei juntam-se a um jovem para tentar ganhar a recompensa e assim garantir o seu futuro e dos seus familiares. Ao chegaram á cidade de  Big Whiskey, no Wyoming,  são confrontados com uma oposição que não contavam.
   
O argumento foi escrito, em 1976, por David Webb Peoples que, entre outros  filmes, participou na escrita do argumento de “Blade Runner – Perigo Eminente”, a obra-prima futurista de Sir Ridley Scott de 1982. Inicialmente intitulava-se “The Cut-Whore Killings”, depois, com receio de alguma polémica, o título foi mudado  para “The William Munny Killings”. O argumento andou anos e anos de estúdio em estúdio  para ver quem lhe pegava. Clint Eastwood adquiriu os direitos da sua adaptação, mas atrasou o projecto, em parte, porque queria estar mais velho para  melhor se identificar com a personagem e poder moldá-la a seu bel-prazer, uma vez que decidira que iria ser a sua última personagem num Western.
   
“Imperdoável” começa por ser um filme que olha para o velho Oeste como se este fosse uma novidade. Os pistoleiros profissionais tornaram-se de tal maneira uma espécie em vias de extinção que os jornalistas os seguem em busca das suas histórias ( a personagem de English Bob, um caçador de prémios, fabulosamente interpretado por Richard Harris, cuja fama o precede, mas que na realidade não passa de um engano,  graças ao jornalista/biógrafo que com ele vem,  é disso exemplo); homens que dormiram noites ao relento, estão agora a construir as sua próprias casas; William Munny , outrora um ladrão e assassino, sobrevive graças á sua criação de porcos. Em 1880 (ano em que se passa o filme), o Oeste vive das memórias de homens que agora vivem numa espécie de classe média e é á volta destas memórias que esta obra-prima gravita sem hesitar.
   
O filme é sobre a passagem do tempo e isso vê-se no seu próprio visual, reflectida na fotografia quase genial de Jack N.Green. Logo no início vemos uma casa, uma árvore, um homem e uma campa e o sol está a pôr-se, não só no homem, como também sobre a era que ele representa, é de uma genialidade quase absoluta de tão simples que é. Mas, mais á frente, ainda no campo visual, encontramos cenas exteriores que mostram a vastidão da terra onde o Western reinou  durante décadas. Já os interiores diurnos são fotografados em forte contra-luz  de modo a tornar as figuras interiores escuras e, por vezes, difíceis de ver.
   
Em "Imperdoável" todos os símbolos do western estão invertidos: o xerife que sempre representou o bem e a moral, é, na realidade, o vilão (excelente interpretação de Gene Hackman)e o homem sem qualquer tipo de escrúpulos que impõe a lei na cidade com punho de ferro, não autoriza armas de fogo na sua jurisdição e faz cumprir essa proibição com espancamentos sádicos e públicos, a roçar a humilhação e depois regressa á beira-rio onde constrói a sua casa; os supostos vilões, apresentados como sendo maus como as cobras (interpretados sobriamente por Clint Eastwood e Morgan Freeman), que não passam  de velhos que já esqueceram uma parte do seu violento passado, mas que, de tempos a tempos, ainda os assombra, são os verdadeiros heróis do filme. Entre todas estas personagens, gravitam algumas outras que, apesar de secundárias,  têm a sua importância na acção: desde logo  ”Schofield Kid” (Jaimz Woolvett), um incompetente pretenso herói,  desafia Munny  a ir com ele em busca da recompensa,  míope que não consegue acertar em nada, mesmo tendo um revólver modelo Schofield (daí ter-se baptizado a si próprio com esse nome) da “Smith & Wesson;  Madame “Strawberry Alice” (Frances Fisher),  prostituta que teve a ideia de lançar a recompensa porque quer vingança sobre aqueles que mutilaram “Delilah” (Anne Thompson), uma das suas meninas; e ainda “Skinny Dubois” (Anthony James), dono do bar e bordel, tem outras preocupações acerca dos acontecimentos: como pagou muito dinheiro por Delilah, que após ser mutilada pelos cowboys, já não lhe vai compensar o investimento, portanto ele quer ser recompensado.
   
Eventualmente a história volta aos termos clássicos do Western quando o xerife corrupto se confronta com o fora-da-lei, transformado em homem justo. A história torna-se, menos sobre  a caça ao prémio e mais sobre a necessidade, mútua e pessoal , de resolver a questão entre ambos, já que se encontraram algures no passado e veremos, posteriormente,  o jovem William Munny emergir da concha da idade onde se escondeu e voltar a ser o homem temeroso que fora, como também acontece no longo acto final em que o mesmo Munny eficiente e omniscientemente se transforma numa espécie de vingador das humilhações a que o seu amigo Ned foi sujeito: um trabalho de montagem eficiente, em que os elementos  da cena são montados de modo estrategicamente deliberado para serem suficientemente credíveis e que nos trazem á memória as personagens que Eastwood interpretou nos seus westerns anteriores: o espírito á procura de justiça em “O Pistoleiro do Diabo”; o justiceiro Josey Wales de “O Rebelde do Kansas” e o Pregador sem nome de “O Justiceiro Solitário” e percebemos que o velho profissional ainda não se esqueceu de como se faz.
     
Clint Eastwood, o realizador, ao baralhar e dar de novo, dá uma dimensão diferente e original ao género e aproxima-se duma quase genialidade magnifica, que mantém no próprio título do filme. Será que Munny procura obter o perdão da sua falecida esposa e também de todos os outros que enganou, violentou ou matou? A sensação com que se fica é que ele ainda se sente assombrado pela culpa: está reformado, mas, ao aceitar ir em busca do dinheiro da recompensa, pois precisa dele para sustentar os seus filhos, apesar de achar que eles ficariam melhor servidos se o seu pai não andasse a correr risco de vida contra pistoleiros mais novos e certamente mais experientes, mostra que não se emendou. Eastwood não se alargou em explicações sobre o porquê daquele título, mas, existe no filme um momento em que talvez essa explicação seja aflorada: logo após ter sido baleado, Little Bill diz “eu não mereço isto…morrer assim, desta maneira…eu estava a construir uma casa.” Ao que Munny responde  “Merecer, não tem nada a ver com isto”. Mas, na realidade, até tem porque, apesar de Ned e  Delilah não receberem aquilo que lhes é devido, William Munny certifica-se  que os outros o recebem. É esta moral, por vezes implacável, em que o bem eventualmente silencia o mal, que está  no centro do Western, e Clint Eastwood, tal como John Ford já o fizera na sua obra-prima “The Searchers- A Desaparecida” (1956), não tem receio de o dizer.
   
Quando estreou, “Imperdoável”, foi um inesperado sucesso de bilheteira em todo o mundo. Com um orçamento estimado em cerca de 14.400.000 dólares, a receita em todo o mundo foi de cerca de 159.200.000 dólares, nada mau para um filme dum género já considerado extinto. Mas o triunfo maior do filme seria em prémios. A primeira surpresa viria dos Globos de Ouro onde arrecadaria dois dos quatro Globos para que estava nomeado, incluindo um para Clint Eastwood como Realizador. Conforme avançava a temporada dos prémios, continuava a caminhada de “Imperdoável” em direcção ao Olimpo do Cinema. Seria nos Oscares que o triunfo do filme iria ser determinante. Com nove nomeações para os Oscares, "Imperdoável" venceu quatro, incluindo Melhor Realizador e Melhor Filme do Ano para Clint Eastwood. Finalmente o cinema olhava com respeito e deferência  para um dos seus maiores icons.  Foi o consagrar  duma carreira imaculada de mais de  quarenta anos.
   Caberia a Clint Eastwood, actor, produtor e realizador, a missão de escrever o epílogo  do Western, na forma daquele belíssimo plano final (igual ao início, mas mais completo)  de um pôr-do-sol, uma campa e junto dela a imagem de William Munny que se dissolve na cena enquanto correm os créditos finais, em que o actor/realizador, agradece a Don (Siegel) e a Sergio (Leone), os seus mentores, subentenda-se, o que fizeram por ele, mas, principalmente, o que fizeram pelo western enquanto género cinematográfico.
   Em 2004, “Imperdoável” foi  introduzido no Museu Nacional do Cinema por ser cultural, histórica e esteticamente significativo para o género Western. Em 2008 o “American Film Institute” considerou-o o quarto melhor Western de sempre, atrás de “A Desaparecida”, “O Comboio Apitou Três Vezes” e “Shane” e incluiu-o na sua lista “100 Anos…100 Filmes”.

Nota: as imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da internet




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