“Toute une Vie” – Toda uma Vida – A nossa Alma Gémea


    Quantas vezes é que já nos interrogámos sobre o facto de termos ou não, algures, uma alma gémea, alguém que partilha os nossos gostos, a nossa maneira de ser, de pensar, de estar? Provavelmente fazemo-lo vezes sem conta, sem sequer nos apercebermos disso.  E se um dia, por acaso,  encontrássemos essa alma gémea? Como é que iriamos reagir?, o que é que faríamos? Qual seria a sua (dela, alma gémea) reacção?  Foi o que, em 1974,  Claude Lelouch, realizador francês de renome tentou responder com o seu filme “Toute une Vie – Toda uma Vida”.
    Em “Toda uma Vida”, assistimos à  história  de várias gerações de duas familias, cujos descendentes estão destinados a encontrar-se, nunca o fazem, apesar de se cruzarem algumas vezes em diversas ocasiões, mas só o farão no final.
    Claude Lelouch é um observador do mundo,  gosta de contar a história desse mundo através de melodramas. O realizador costuma dizer “que só existem duas ou três histórias que vale a pena contar”, e resumem-se todas a uma ideia só: Homem encontra Mulher, as variações que esta ideia permite é que são quase infinitas.. O melhor exemplo desta ideia é contado no filme “Une Homme et Une Femme – Um Homem e Uma Mulher”, de 1966, o mais famoso e mais premiado filme do realizador. Nele, um homem e uma mulher encontram-se, apaixonam-se e acabam por se separar. Com esta pequena e simples ideia, o realizador contou uma das  mais belas histórias de amor de que há memoria na história do cinema. Ganhou  diversos prémios incluindo a Palma de Ouro no festival de Cannes e dois Óscares da Academia e foi um sucesso enorme nas bilheteiras de todo o mundo.                  
   
Tudo o que Lelouch filmou depois deste filme, mais não foram do que as tais variações sobre a mesma ideia, das quais saliento “Une Homme et Une Feme: Vingt ans Dejá – Um Homem e Uma Mulher: 20 anos depois” (1986), uma espécie de continuação de “Um Homem e Uma Mulher”, onde  Anne e Jean-Louis (as personagens desse filme), se reencontram passados vinte anos; o fabuloso“Les Uns et Les Autres – Uns e…Os Outros” (1981) onde Lelouch conta a história de quatro familias de franceses, alemães, russos e Americanos, seus amores e frustações através da música, uma paixão comum que os une; neste “Toute Une Vie – Toda uma Vida”, o realizador vai ao extremo de contar a história de um encontro que demora um século para acontecer! A ideia, desenvolvida pelo realizador e pelo argumentista Pierre Uytterhoeven, é simples e absolutamente genial pelo facto de a vermos desenrolar-se  num contexto que envolve o século XX praticamente todo.
   Os primeiros 20 minutos de filme são a preto-e-branco, mudos, acompanhados por uma partitura musical tocada em piano e com os diálogos reproduzidos em cartões entre as cenas (homenagem aos irmãos Lumière e aos primordios do cinema) e perante os olhos do espectador surge a história dos avós  e dos pais de Sarah e Simon, as duas personagens cujas vidas serão  moldadas e vividas ao sabor dos grandes acontecimentos do século XX: Da Primeira  Grande Guerra   á Segunda Guerra Mundial, do Holocausto ao nascimento do Estado de Israel, da Crise dos Mísseis de Cuba á geração Beat dos anos 60.
   
O passado, como cedo se percebe, afecta o presente. Por conseguinte, a visita inicial ás gerações passadas, acrescenta  alguma substância ás suas personalidades: Sarah, a  filha de sobreviventes dum campo de concentração, é tão perturbada quanto o seu sofrido e amoroso pai, que nunca consegue ultrapassar totalmente a perda da mulher, apesar de ser um homem de negócios bem sucedido. Quando, em adolescente, ela se apaixona pelo cantor pop Gilbert Bécaud (o próprio a interpretar-se a si mesmo), o seu oposto, Simon, é preso por roubar alguns discos de Bécaud; mas talvez o melhor resumo destas vidas paralelas seja a cena em que Simon foge da prisão, rouba um automóvel, tem um acidente e é transportado para o hospital, no qual está também Sarah internada depois duma tentativa de suícidio porque Gilbert Bécaud já  não quer saber dela

     Da mesma maneira, as suas carreiras vão surgindo enquanto fazem a caminhada para a maturidade: ela evolui de menina mimada e aborrecida que experimenta de tudo até se tornar numa meticulosa consciência social; ele, por seu lado, vai de condenado a fotógrafo de comerciais e realizador de filmes porno a realizador respeitado (aqui, excluindo a parte dos filme porno, a história adquire algum carácter autobiográfico já que Lelouch começou a filmar publicidade antes de fazer longas-metragens), que procura a sua alma gémea, seguindo as indicações de um antigo companheiro de prisão que, a dado momento, lhe diz que se ele encontrar outra pessoa que, como ele, goste de três cubos de açúcar no café, terá encontrado uma alma gémea.
   
   
“Toda uma Vida” está constantemente em transição entre o sonho e a realidade. As histórias que vemos, não se limitam a interligar-se, elas transformam-se umas nas outras, tal como acontece muitas vezes nos sonhos. Começamos com a história de  um cameraman, a brincar no parque com a sua nova camera (e através dela vê o mundo) , vê uma jovem que admira o seu brinquedo novo, apaixona-se por ela (simbolizando a eterna ligação romântica entre filmes e a vida. Um ciclo inteiro de vida é registado através da camera, incluindo o nascimento da filha do casal). Chamado para ir combater na I Guerra Mundial, ele morre na frente de batalha. O general que entrega a medalha á viúva, vê as atenções centradas em si quando casa com uma dançarina, é pai, e depois descobre que a sua mulher tem um caso. Depois, ele entra num quarto em que tudo se transforma para dar lugar ao assassinato da família Romanov  durante a Revolução Russa (parece que estamos num  filme de David Lynch e não de Claude Lelouch!), mas regressamos rapidamente ao mundo do realizador francês no momento em que acontece o tradicional encontro “rapaz conhece rapariga” numa estação de comboio durante a ocupação da França na II Guerra Mundial . É nesta altura que o filme deixa as imagens  a preto-e-branco e surge a cor. O sonho passa á realidade.
   
   
   
O filme  não se pode considerar do tipo experimental porque tudo aquilo que vemos no écran, saiu directamente da cabeça dos argumentistas (principalmente de Lelouch). Até a  curiosa intercepção das épocas e dos acontecimentos parece natural e até lógica. Não houve nenhuma invenção para o filme é apenas e só um objecto-maravilha, um caleidoscópio de estilo, histórias e notícias relatadas através de material filmado. Tudo isto, dificilmente, seria tão bem trabalhado se não fosse a  genial direcção de actores, aliada a fabulosos planos-sequência e “travellings”  mágicos da autoria de Claude Lelouch que brilha na sequência de perseguição a pé da polícia  a Simon nas ruas próximas dos "Champs Elysées", toda ela filmada de camera na mão ao estilo reportagem televisiva; ou na sequência em que Simon foge da prisão num carro a alta velocidade e bate noutro carro na estrada, o realizador repete a batida várias vezes mostrando ângulos ligeiramente alterados. Até no próprio genérico inicial, passado na viragem do século XIX para o século XX, filmado a preto-e-branco, Lelouch permite-se uma brincadeira: agradece a toda a gente que participa no filme e depois vão surgindo os nomes, por ordem alfabética, mas não diz quem faz o quê, subvertendo a ordem do genérico.

 Com “Toute une Vie – Toda uma Vida”, Claude Lelouch  demonstrou, tal como faria anos mais tarde com “Les Uns et Les Autres – Uns e os Outros”, que as ideias mais simples são as mais geniais.

Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retirados da Internet


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