The Shining – O Terror Kubrickiano





   
O género terror, desde cedo no cinema, sempre  teve grande aceitação entre o público. Lembremos por exemplo "Psycho" (Alfred Hitchcock, 1960), "Os Pássaros" (Alfred Hitchcock,1963) "O Exorcista"(William Friedkin,1973) ou "Saw" (James Wan,2004), só para citar alguns que foram grandes sucessos quer de bilheteira, quer em circuito DVD.  “ The Shining” de Stanley Kubrick foi um daqueles casos em que um filme estreia  e passa quase despercebido e que ao longo dos anos vai ganhando um estatuto próprio ao ponto de se tornar um filme de culto e uma referência no género.
   Jack Torrance, desempregado e com alguns problemas no passado, é convidado para ir tomar conta de um hotel durante o inverno. Mesmo conhecendo o historial de violência daquele hotel no passado, Jack aceita e leva consigo a mulher e o filho, este tem poderes paranormais e tem visões relacionadas com o hotel, com o passado e com o futuro.
   
Em 1975 Kubrick tinha feito “Barry Lyndon” , o seu belíssimo épico,  mas que,  apesar do seu avanço tecnológico para a época, tinha sido um fracasso nas bilheteiras americanas e obtido apenas um relativo sucesso na europa. O realizador, desapontado com este fracasso, apercebeu-se que necessitava de fazer um filme que fosse comercial e artisticamente viável. Foi-lhe oferecida a realização da sequela de “O Exorcista”, que tinha sido um grande sucesso de bilheteira e a Warmer queria que o seu maior artista se encarregasse daquele projecto. Mas foi  o terceiro livro escrito por Stephen King, que lhe veio parar ás mãos quando John Calley , director da Warner, lhe enviou as provas do livro, Kubrick  viu o seu interesse despertar pelo cenário da obra: um hotel remoto nas Montanhas Rochosas, com o seu labirinto de corredores . A intensidade da ideia: uma família, separada do mundo,  a enlouquecer aos poucos, foi definitiva “Stanley quis liberdade total para alterar a história e Stephen King  concordou”, disse Christiane Kubrick, esposa do realizador.
   
 “The Shining” teve uma prolongada e árdua produção, a  fotografia principal demorou cerca de um ano a completar, grande parte dele devido ao perfeccionismo natural de Kubrik. A actriz Shelley Duvall nunca se deu bem com o realizador que frequentemente  alterava a maior  parte das suas falas e criticava o seu método de interpretação tentando adequá-lo aquilo que pretendia, ao ponto de a deixar doente durante meses. O argumento foi outro aspecto moroso desta produção. Era alterado constantemente,  por vezes várias vezes ao dia e os actores só tomavam conhecimento dele minutos antes do início da rodagem do dia.
   
Jack Nicholson tem aqui um dos seus grandes papéis. Foi a primeira escolha do realizador para o papel; outros nomes houve que também foram considerados para o papel, tal como Robert De Niro, Robin Williams ou até Harrison Ford, mas foram todos reprovados por Stephen King. Aliás, é difícil ver outro actor que não ele, a interpretar esta personagem.  
Na continuação da sua interpretação em "Voando sobre um Ninho de Cucos" (Milos Forman, 1975), pela qual venceu o seu primeiro Oscar de Melhor Actor, e fazendo uma espécie de prólogo para o delírio interpretativo que seria Joker em "Batman" (Tim Burton, 1989), Nicholson provou ser a escolha certa para o papel. Oscilando entre a loucura e a demência total (a sua frase “Here’s Johnny!”, enquanto destrói uma porta á machadada, ainda hoje consegue arrepiar muita gente!) , a sua interpretação de Jack Torrance é magnifíca.

Apesar de ser terror tradicional , “ The Shining” é modernizado pelo magnetismo do seu protagonista e pelo trabalho  inevitavelmente perfeccionista do realizador: veja-se por exemplo a cena, repetida várias vezes ao longo do filme, em que Danny percorre de triciclo os corredores, aparentemente intermináveis, do hotel, sempre seguido por uma  “Steadycam” obsessiva ; ou a cena em que Jack olha a maquete,  nela, Kubrick utiliza um vertiginoso plano onde vemos as diminutas figuras de Wendy e Danny a passear no enorme jardim labiríntico; ou ainda toda a cena final de perseguição: são exemplos brilhantes do trabalho de camera muitas vezes feito pelo próprio realizador. O filme resulta numa experiência única de suspense e terror  e, tratando-se de  um filme de Stanley Kubrick, ambíguo como o são os seus filmes e o melhor exemplo dessa ambiguidade é a cena final em que a camera percorre  lentamente uma sala em direcção a uma parede e fixa-se num retrato nela pendurado, deixando o  espectador com uma grande interrogação na cabeça.  
   Stephen King, apesar de dizer que a adaptação de Kubrick é cheia de imagens memoráveis,  nunca ficou completamente satisfeito com a versão do realizador por entender que Kubrick retirou muito do impacto literário da obra ao suprimir capítulos e partes importantes que continham temas importantes como a desintegração familiar ou os perigos do alcoolismo.  Daí que o escritor  tenha adaptado o seu próprio livro para televisão anos mais tarde ("Stephen King's the Shining", Mick Garris, 1997),  fazendo uma versão muito mais fiel ao romance, com muito menos terror, suspense e impacto visual  que a versão de Kubrik. A verdade é que foi o filme de Stanley Kubrick que chamou a atenção para a força emergente em matéria filmíca que são os livros deste autor e continua a ser uma obra-prima do género.
   Uma semana após estrear, Kubrick retirou o filme de circulação para lhe  retirar uma cena no final do filme na qual Wendy, hospitalizada, fala com Mr.Ullman, o director do hotel, e este lhe diz que o corpo de Jack nunca foi encontrado. A remoção da cena foi feita por ordem da Warner Bros. , a distribuidora do filme, sem qualquer explicação e nunca  mais foi incorporada em nenhuma versão do filme que ficou então reduzido a 144 minuto,  dos  146 iniciais. Até mesmo a versão americana do filme , autorizada pela família do realizador após a morte deste, ocorrida  em 1999,  mantém os 144 minutos como duração  total.
   Para a sua distribuição europeia e no resto do mundo,  um filme de terror com quase três horas de duração era muito longo, a Warner impôs a  redução  de cerca de 25 minutos do filme. Kubrick remontou o filme, retirando-lhe as cenas que eram referentes ao  mundo fora do universo da ideia do realizador  (são pouquíssimass as cenas do filme que se passam fora do hotel) e as cenas referentes a Tony, o amigo imaginário de Danny.
   
“The Shining” acaba por ser um enorme puzzle visual que  nos deixa mais interrogações obscuras e poucas respostas claras. Tal como em obras anteriores, foi sempre assim a genialidade de Stanley Kubrick. 


Nota: As Imagens e vídeo que ilustram este texto foram retiradas da Internet





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