Os Três Mosqueteiros – Um Mistério de Dumas




                     “  ...O  polícia  alto encolheu os ombros.
 -  Eu  leio pouco – disse - , mas o tal Porthos  era um desses tais , não é verdade?... Athos , Porthos, Aramis e  D’Artagnan – ia contando com o polegar sobre os dedos da mão e, quando acabou, deteve-se, pensativo – tem piada. Sempre perguntei a mim mesmo porque lhes chamavam os três mosqueteiros se, na realidade, eram quatro”
             (in “O Clube Dumas” de Arturo Pérez-Reverte)

   “Os Três Mosqueteiros” é um romance histórico,  ou romance “de capa e espada” como eram e ainda são conhecidos estes romances, maioritariamente escritos no séc. XIX, escrito por Alexandre Dumas. Inicialmente publicado como série no jornal “Le Siècle” entre março e julho de 1844, foi, ainda no mesmo ano, publicado como livro constituindo na altura um grande sucesso que levou a que, em 1846, fosse reeditado, desta vez com ilustrações.
   A acção situa-se em França, durante o séc. XVII e conta as aventuras de um jovem Gascão, de nome d’Artagnan, que sai de casa para ir para Paris juntar-se á guarnição dos Mosqueteiros do Rei (d’Artagnan não é um dos mosqueteiros do título). Lá, conhece Athos, Porthos e Aramis ( estes sim, os mosqueteiros do título), amigos inseparáveis que vivem segundo o lema de “Um por Todos, Todos por Um”.  Os quatro juntos vivem aventuras numa França onde reina Luís XIII, mas quem governa o país na realidade é o Cardeal Richelieu que se tornará o arqui-inimigo de D’Artagnan e seus amigos.
   No prefácio da obra que Dumas editou,  pode ler-se o seguinte “Ora, esta é a primeira parte deste preciosos manuscrito que hoje oferecemos aos nossos leitores, com um título mais adequado e com o compromisso de publicarmos a segunda parte imediatamente caso esta primeira seja um sucesso. Entretanto, tal como um padrinho é uma espécie de segundo pai, convidamos os nossos leitores a responsabilizar-nos directamente,  e não ao Conde de La Fére, acerca do seu entusiasmo ou aborrecimento. Dito isto, passemos à nossa história”. 
   O livro a que Dumas se refere é “Mémoires de Monsieur d’Artagnan, capitaine lieutenant de la première compagnie des Mousquetaires du Roi”, escrito por Gatien de Courtilz de Sandras, publicado por volta de 1700 em Colónia. Inspirado por este prefácio,  Eugène d’Auriac, escreveu, em 1847,  uma biografia de d’Artagnan, intitulada “d’Artagnan, Capitaine-Lieutenant des Mousquetaires – Sa vie aventureuse, Ses amours et Ses duels ». 
 Dumas diz-nos que foi neste livro que d’Artagnan relata o seu primeiro encontro com Monsieur de Tréville, Capitão Mosqueteiros e na sua antecâmara conhece três jovens com os nomes de Athos, Porthos e Aramis. O escritor, entusiasmado com esta descoberta e já com a sua imaginação a fervilhar, continuou a investigar e deparou-se novamente com os nomes dos três Mosqueteiros noutro manuscrito intitulado “Mémoire de Monsieur Le Comte de la Fère…”, que o entusiasmou de tal maneira que pediu autorização para reimprimir a obra, o que foi autorizado.
   O sucesso da obra, dentro e fora de frança, é enorme.  Desde 1846 que a obra conheceu inúmeras traduções para diversas línguas. A primeira foi para o inglês. Pertenceu a William Barrow e, por ser a mais fiel ao original francês do século XIX, ainda hoje se encontra em circulação.  
   As fontes que Dumas dispunha eram mais que suficientes para que a história não ficasse por aqui.  Auguste Macquet, colaborador habitual do escritor, sugere-lhe que continue as aventuras do jovem Gascão e dos seus amigos mosqueteiros. “Vinte anos depois”, é a sequência do romance que Dumas escreve  e é publicada no “Le Siécle” entre janeiro e agosto de 1845. A acção decorre, vinte anos depois de d’Artagnan  se ter tornado Mosqueteiro do Rei  e dos quatro amigos se terem despedido, numa época difícil, de descontentamento popular, em França, nos meados do século XVII. 
“O Visconde de Bragelonne”  constitui a terceira e última parte da série que Alexandre Dumas dedicou aos Mosqueteiros e que ficou conhecida como “Os Romances de d’Artagnan”.  Escrita entre 1847 e 1850,  com a colaboração do sempre presente Auguste Maquet, aparecendo novamente no “Le Siécle” como série, mas que foi interrompida várias vezes devido a confrontos populares e também a uma tentativa que Dumas fez para entrar na vida política.
    Por se tratar de um romance muito extenso (algumas edições têm 10 volumes de 250 páginas cada!), o autor optou por narrar diversos enredos, entre os quais, o famoso episódio de “O Homem da Máscara de Ferro”, no qual se conta a história (verdadeira ou não) de Felipe, o irmão gémeo de Luis XIV, que foi aprisionado numa masmorra com uma máscara de ferro para que se lhe não visse o rosto.  O tom deste terceiro romance é um tanto ou quanto melancólico: sente-se o fim a chegar. Traições, desilusões e intrigas fazem parte duma sociedade em que o valor fundamental deixou de ser a honra e aquela é apenas uma sombra da que a precedeu. Talvez por ter um tom tão melancólico, “O Visconde de Bragelonne” seja a obra menos conhecida e, se exceptuarmos o episódio de "O Homem da Máscara de Ferro", menos falada de Alexandre Dumas.
"Um por Todos, Todos por Um"
   Com “Os Três Mosqueteiros”,  Dumas conseguiu popularizar o romance histórico ao fazer um romance “de capa e espada” apoiando-o sobre a História.  Criou um novo tipo de herói  sem dinheiro, porém nobre e heróico, exímio espadachim  e cavalheiro mas ainda humano com as suas fraquezas: a irrascividade de d’Artagnan, a vaidade de Porthos, um Aramis dividido entre Deus e as mulheres, a melancolia e o alcoolismo de Athos, impede-os de serem perfeitos, mas torna as suas fraquezas na verdadeira força literária por detrás dos romances.
   Mas porquê Três Mosqueteiros, se nos livros eles são Quatro? Não se sabe e Dumas também não esclareceu, contribuimdo para um mistério que nem os estudiosos da obra do escritor sabem responder. Inicialmente, o título previsto seria “Athos, Porthos et Aramis”, mas Desnoyers, o encarregado da secção de séries do “Le Siécle”, sugeriu que se alterasse o título para “Os Três Mosqueteiros”, já que o título, no seu entender, iria evocar aos leitores as Três Deusas da Mitologia Grega que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Dumas aceitou a sugestão, notando que o seu absurdo (já que os heróis eram quatro) iria contribuir para o sucesso da obra. E não se enganou!


Nota: As Imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet

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