Cotton Club - O Jazz, segundo Francis Ford Coppola


   O nome de Francis Ford Coppola está intimamente ligado á história da Sétima Arte pelos melhores e piores motivos. No primeiro caso, são de sua autoria alguns dos filmes mais importantes das últimas décadas do século XX, como “O Padrinho” (1972); “O Padrinho – Parte II” (1974), crónicas incontornáveis sobre a história da Mafia, ou “Apocalypse Now” (1979), o filme definitivo sobre o inferno do Vietname,  que se tornaram obras-primas do cinema e que dificilmente serão alguma vez ultrapassados na sua concepção. Já no segundo caso, a história é um pouco diferente já que Coppola, como grande visionário do cinema, foi directamente responsável pela falência da Zoetrope Studios quando, em 1981, levou a sua visão longe demais. “One From the Heart- Do Fundo do Coração”, uma extravagância bonita, mas banal no seu conteúdo, inteiramente rodado em estúdio e para o qual, nem o público, nem a própria indústria cinematográfica estavam preparados. 
   O realizador sofreu vários revezes para poder reabilitar o seu nome e do estúdio. Sem vacilar, Coppola aceitou fazer “filmes encomenda”, ou seja aceitar trabalhar segundo determinadas condições que lhe eram impostas. O resultado dessa nova condição apareceu sob a forma de “The Outsiders – Os Marginais” (1983) e “Rumble Fish – Juventude Inquieta” (1983), um díptico brilhante sobre a juventude nas décadas de 50 e 60 quando o conflito de gerações estava no auge. O realizador e os filmes foram também responsáveis pelo lançamento de vários jovens actores que viriam a marcar as décadas seguintes. Este duplo sucesso abriu novamente as portas dos grandes estúdios  ao realizador e permitiu-lhe relançar a sua carreira.
     Em 1984 Coppola  foi convidado para pelo produtor Robert Evans para re-escrever  o argumento de Mario Puzo para um filme que Evans também queria realizar, intitulado “Cotton Club, inspirado pelo livro de fotografias da história de Cotton Club, um famoso clube nocturno do Harlem, editado por James Haskins. Entre avanços e recuos, com Mario Puzo  substituído por Coppola na elaboração do argumento, este trouxe consigo William Kennedy, colaborador habitual da Zoetrope, a produção começou a atrasar. Entre 15 de Julho de 1983 ( data em que se deveria ter iniciado a rodagem) e  22 de Agosto, escreveram-se 12 argumentos para o filme, sem que nenhum tenha reunido o consenso do produtor-realizador.  William Kennedy disse, numa entrevista, após a estreia do filme, que terão sido escritos 30 a 40 argumentos até se encontrar um que reunisse o consenso geral e que acabou por ser escrito por Mario Puzo (que entretanto fora novamente chamado  quando Coppola já era o realizador), Francis Ford Coppola e William Kennedy.  
    Já com a produção a decorrer ( segundo o que Gregory Hines terá dito numa entrevista, a duração do filme ascendia a três horas),  Robert Evans decide que não quer realizar o filme. Coppola  foi o senhor que se seguiu,  porque precisava de dinheiro para endireitar a sua Zoetrope, já estava a bordo como argumentista, tinha agora a hipótese de se redimir e recuperar aquilo que perdera. Os Estúdios, porém, tinham sérias reservas quando ao novo realizador,   Evans, agora só como produtor,  convence os executivos  da PSO ( Production  Sales Organization) que, á semelhança do que acontecera anos antes com “O Padrinho”, de que ele fora produtor executivo não creditado, tinham  em mãos material suficiente para ter igual sucesso.  Se foi muito ou pouco convincente, não se sabe, mas  a produção continuou e agora com Francis Ford Coppola ao leme. A rodagem  total decorreu entre  22 de agosto de 1983  e  31 de março de 1984.
      O Cotton Club, é o mais famoso clube nocturno e também a melhor rampa de lançamento  para qualquer pessoa que queira ser alguém no mundo do espectáculo.  Conta-se então  a história das pessoas que o visitavam,  das pessoas que o geriam e do Jazz,  a música que tornou tão famoso. Mas  este  é também um tempo de lutas entre Judeus, irlandeses e negros  pelo controle das ruas do Harlem em 1928.
O "lettering" do genérico do filme
      Logo desde o início, ao mostrar o genérico inicial em estilo antigo, tipo anos 20, as letras prateadas e cortadas com um raio de luz, sob um fundo negro,  intercortado com um número musical, filmado com estilo, que decorre  no Cotton Club, Coppola diz-nos que estamos num filme de época e sugere que será  um filme enérgico.
     A abordagem que o realizador faz ao filme e ás suas personagens, é muito semelhante aquela que fizera em “ O Padrinho” e “O Padrinho – Parte II”: Dixie Dwyer, ao salvar a vida a  Dutch Schultz, um mafioso, vê-se envolvido e arrastado para o mundo da corrupção contra o  qual vai ter que lutar para se libertar. O seu dilema remete-nos para a mesma situação que Michael Corleone  (Al Pacino ) enfrenta em “O Padrinho”; da mesma maneira, a figura da mãe de Dixie é uma figura subtil, mas  presente na história. Na última cena de Cotton Club, é a última personagem a entrar em cena para dizer adeus ao filho. Em “O Padrinho” e “O Padrinho – Parte II”, a mãe é uma figura capital  no enredo; a relação entre Sandman e Clay Williams (Gregory e Maurice Hines) é um pouco o reflexo da relação entre Michael e Fredo em “O Padrinho”, em que um irmão traí o outro e essa traição traz consequências graves. Em “Cotton Club”, um irmão é visto a trair o outro, mas, o sentido de família acaba por vir ao de cima e, num momento tocante do filme (os dois irmãos, finalmente reunidos,  a sapatear um com o outro),  a traição é perdoada; a  Dutch Schultz,  falta-lhe a subtileza e a astúcia dos vilões, tanto de “O Padrinho” como de “O Padrinho – Parte II”, mas exibe o mesmo racismo que o senador Pat Geary em  “O Padrinho – Parte II”; O lar, nos filmes do realizador, funciona como um objecto vital, uma espécie  de refúgio do caos que se vive na rua. Tanto a casa de Dixie como a dos irmãos Williams são disso exemplo.
Dixie Dwyer
       Nos filmes de Coppola, o elenco é sempre importante e em “Cotton Club”, tal importância não foi descurada. Richard Gere  é  Dixie Dwyer,  simpático,  charmoso, brincalhão, mulherengo,  um dos poucos brancos autorizados a tocar no Bamville Club, um clube para negros. Vêmo-lo logo no início do filme a tocar a sua corneta (é mesmo o próprio Gere que faz os seus solos!). Gere, utilizando o estatuto de “sex simbol” dos anos 80, que “American Gigolo” (Paul Schrader, 1980) lhe atribuiu e o sucesso obtido com “Oficial e Cavalheiro” (Taylor Hackford, 1981), interpreta o papel com relativo á-vontade e revela-se bastante convincente no mesmo; Diane Lane, a bonita e sensual actriz, é Vera Cícero, amante de Dutch Schultz, sonha em ter o seu próprio clube nocturno,  apaixona-se por Dixie.
Vera e Dixie: a relação difícil
 A relação entre ambos é difícil, parecem duas crianças a tentar sobreviver num mundo corrupto tanto se ofendem como logo a seguir  estão num momento de ternura.  É com esta relação difícil, feita de altos e baixos, que o realizador homenageia, de forma brilhante, a Idade de Ouro de Hollywood. Lane foi a musa de Francis Ford Coppola, entrou em quatro filmes do realizador durante a década. Em “Cotton Club”, a sua beleza e juventude estão bem patentes  e Coppola, com o seu saber próprio, transforma-a na “Femme Fatale” do filme e também da sua obra.  Do elenco fazem ainda parte  Bob Hoskins,  James Remar,  Gregory Hines, Lonette McKee, Nicholas Cage, Laurence Fishburne, os relativamente desconhecidos Mario Van Peebles e Sofia Coppola, entre outros.
   Tecnicamente,  “Cotton Club”,  se exceptuarmos os “Opus Magnânimos” que são  “O Padrinho”, “O Padrinho – Parte II” e “Apocalypse Now”, não fica atrás de nenhuma obra do realizador, pelo contrário, nota-se um cuidado e o cunho pessoal do realizador em algumas cenas:  Na  cena de amor entre Dixie e Vera, enquanto uma espécie de caleidoscópio colorido percorre o rosto de Dixie, os seus corpos são ligeiramente envolvidos pela sombra duma cortina, num outro “take” da mesma cena,
os seus corpos, no acto de amor, são mostrados apenas como silhuetas; Os números musicais do filme estão coreografados ao minímo pormenor (a câmera não descura nenhum pormenor!) e são filmados no estilo dos musicais dos anos 30 e 40,  mas, quando Dixie e a família estão no clube, Coppola utiliza a câmera manual para transportar o público até ao centro da dança, utilizando-a também para mostrar as movimentações nos bastidores de espectáculo como se de um documentário se tratasse.
     Tal como em “O Padrinho”, o climax de “Cotton Club” está nas cenas que, aparentemente sem qualquer ligação, adquirem uma nova força: Quando Sandman Williams executa um número de sapateado no Cotton Club, o som dos seus passos, ampliado numa camara de eco, corresponde ás rajadas de metralhadora com que Dutch Schultz é assassinado. A habilidosa montagem em paralelo da dança e do assassínio, fazem o resto.
      O filme, estreado a 14 de dezembro de 1984, não obteve muitos favores da crítica, nem  grande sucesso nas bilheteiras americanas. Não conseguiu nem sequer chegar próximo do investimento feito pela produção, estimado em cerca de 58.000.000 de dólares, ficou-se por uns modestos 25.000.000 de dólares. Foi preciso chegar á europa, no inicio de 1985, para o filme obter o tão desejado sucesso. Coppola sempre foi mais admirado na europa do que nos EUA.  Foi, no entanto,  uma lufada de ar na carreira do realizador, mas não o suficiente para que o impedisse de voltar aos “filmes-encomenda” nos projectos seguintes. Isso só aconteceria no inicio da década seguinte.
       Nomeado para diversos prémios entre os Globos de Ouro e os Oscares da Academia,  “Cotton Club” acabou por  se ficar apenas  pelas nomeações. No entender de quem nomeia e vota,  o filme não tinha a coerência técnica de outras obras do realizador. Coppola defendeu-se e respondeu “…Este nem sequer  é um filme que eu quisesse muito realizar…”. Para bom entendedor...meia palavra basta!


Nota: As imagens e vídeo que ilustram o texto foram retiradas da Internet


                 

Comentários

  1. excelente texto! sou fã desse realizador!

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    1. obrigado pelo seu comentário, paroni...se quiser ler mais alguma coisa sobre ele, veja os textos que escrevi sobre a trilogia "O Padrinho", "Apocalypse Now" ou "Os Marginais"...
      cptos
      rui cunha

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