James Bond 007 - Ao Serviço do Cinema I


                  1-    Ao Serviço de Sua Majestade (1962-1971)

       A personagem literária do agente secreto James Bond, foi criada em 1953 por Ian Fleming. Baseado no próprio autor, enquanto Oficial dos Serviços Secretos da Marinha Britânica, e em diversas outras pessoas com quem o autor conviveu durante a IIªGuerra Mundial e que, nas palavras do autor, “fosse uma personagem desinteressante, aborrecido a quem tudo acontecia,  que fosse brusco mas charmoso…queria, acima de tudo que tivesse um nome idiota, mas ao mesmo tempo, que fosse sonante e inconfundível…”. 
        O nome James Bond foi inspirado num ornitólogo famoso que viveu toda a sua vida nas Caraíbas e autor daquele que é, ainda hoje, o melhor guia de estudo sobre as aves intitulado “Birds of the West Indies”, do qual Fleming possuía uma cópia. Dotando a personagem de alguns toques pessoais como o gosto pelo Golf, pela bebida (“Dry Martini, shaken but not Stirred”,que viria a ser uma das marcas inconfundíveis da personagem), ou por carros de marca e usando a sua experiência dos Serviços Secretos, colocando-a  como Comandante Naval na reserva e no Serviço Secreto Britânico conhecido como MI6, Ian Fleming tinha achado o seu James Bond, nome de código 007, com licença para matar,  que, ao longo de doze romances e dois livros de histórias curtas, iria encantar e defender o mundo. Da literatura para o cinema foi um salto.
         Estreado em Outubro de 1962, “Dr.No –  007 - Agente Secreto”, realizado por Terence Young, revelou-se uma surpresa positiva, mesmo havendo vários aspectos do filme que não reuniam o consenso de todos os envolvidos, sendo a escolha de Sean Connery para o papel, o principal. Depois de várias recusas de outros nomes sonantes como Cary Grant, James Mason, Patrick McGoohan, Rex Harrison, entre outros, não foi fácil, já que tanto Albert Broccoli, produtor e Ian Fleming não queriam Connery para o papel e o autor, pouco antes de morrer, em 1964, mesmo depois dos filmes terem feito bons resultados na bilheteira, continuava a não concordar com a escolha do actor. 
Bond,... James Bond
     A história leva-nos, na companhia do agente secreto James Bond, até á Jamaica onde ele tem de investigar a morte de um colega dos Serviços Secretos Britânicos. Rapidamente Bond tropeça num esquema, que envolve o misterioso Dr.No e a sua ilha particular,  para acabar com o programa espacial americano. Teria sido um filme banal, como muitos outros de espionagem, não fossem alguns elementos-chave que ficaram na memória de todos: o tema musical de abertura, composto por Monty Norman em 1954, que fica no ouvido; a apresentação do agente secreto, numa mesa de jogo, a acender um cigarro, com a famosa linha “Bond, James Bond…”; e Honey Rider, a primeira “Bond Girl”, interpretada por uma Ursula Andress, absolutamente sensual a surgir das águas, qual ninfa, a cantarolar e a brincar com um búzio, imagem que retemos muito depois do filme ter acabado. Outros elementos do elenco, que se manterá fixo durante os primeiros filmes, são aqui apresentados: Bernard Lee como “M”, o chefe de Bond, Lois Maxwell como Moneypenny, a eficiente secretária e eterna apaixonada de Bond e também Desmond Llewelyn no papel de “Q”, o chefe da secção de armamento do MI6. 
Ursula Andress, a primeira "Bond Girl"
          O resultado final não poderia ser mais promissor: o filme tinha custado cerca de 1.000.000 de dólares e rendeu mais de cerca de 59.000.000 de dólares de receitas no mundo inteiro.
            Para o filme seguinte, os produtores duplicaram o orçamento e, ao contrário de “Dr.No”, filmaram na europa, principalmente na Turquia, onde se passa a maior parte da acção. “From Russia with Love – 007- Ordem para Matar” foi realizado novamente por Terence Young em 1963 e James Bond vê-se a braços com tentativas de assassinato que envolvem uma funcionária da embaixada russa em Istanbul e uma máquina capaz de descodificar os códigos mais difíceis e que foi roubada pela organização terrorista SPECTRE. Apesar de ser outro filme, muito ambientado na guerra fria, funciona quase como uma continuação do anterior, já que no início, na reunião da SPECTRE, há uma referência ao dr.No ter sido eliminado na Jamaica. 
      Em “007 – Ordem para Matar” , mantém-se a “Bond Girl”  e desta vez o papel coube a Daniela Bianchi, no papel de Tatiana Romanova, a funcionária russa que vai auxiliar James Bond na recuperação do descodificador, mas também viu serem introduzidas algumas alterações que iriam continuar em todos os filmes seguintes: aparece uma sequência pré-genérico que, mais tarde ou mãos cedo, será relacionada com o filme; surge um tema –título cantado durante o genérico, cuja única condição era que fosse baseado no tema principal de Monty Norman. Coube a  Matt Munro, cantor britãnico de Swing,  a honra de estrear esta nova modalidade; o genérico, tal como a canção, passam a estar relacionados com o filme; após o genérico final, passa a constar a seguinte frase “James Bond will return in…” e surgia o título do filme seguinte (quando se acabaram as histórias originais de Ian Fleming, passou apenas a aparecer a frase “James Bond will return”). Sean Connery regressa ao papel que, de resto, interpretará mais quatro vezes antes de abandonar a série. O sucesso, motivado ou não pela introdução destas alterações, não foi alheio e o filme foi outro sucesso de bilheteira.
         1964 viu chegar  aquele que muitos críticos e especialistas de cinema consideram o melhor filme da série. “Goldfinger – 007 contra Goldfinger” realizado  por Guy Hamilton onde o agente secreto de sua Majestade ao investigar os negócios de magnata do ouro, descobre uma conspiração para contaminar todo o ouro de Fort Knox (uma espécie de caixa geral dos depósitos nos Estados Unidos) durante cinquenta anos e assim lançar o caos na economia mundial. O tema- título, que nos associa imediatamente ao filme, cantado pela voz poderosa de Shirley Bassey, é considerado o melhor tema da série.
Além de dotar a personagem de Connery de algum humor que faltara nos filmes anteriores, o filme introduz aquele que será o carro do agente secreto: o Aston Martin DB5 (como Bond fica na posse dele, apenas será revelado em “Casino Royale” de 2006). O filme tem todos os ingredientes para ser, ainda hoje, considerado o melhor Bond de sempre, além de muita acção e a “Bond girl” de serviço  ter um papel preponderante: Honor Blackman, vinda directamente das série televisiva “The Avengers – Os Vingadores” (1962-1964), é Pussy Galore, que desempenha um importante papel na acção, mas é  Gert Froeber, um conhecido actor europeu,  que interpreta Auric Goldfinger, o vilão que faz outros vilões da saga parecerem quase meninos do coro da igreja, que proporciona o mais memorável  diálogo de toda a série: James Bond, preso numa mesa feita de ouro, vê um raio laser cortar o ouro e aproximar-se perigosamente do seu corpo “Goldfinger –diz ele – espera que eu fale?” e Goldfinger, voltando-se para ele,  sorrindo sarcasticamente responde “Não, Sr.Bond, eu espero que morra!” . Mas a cereja no topo do bolo seria o facto de “Goldfinger” ser o primeiro filme da série a ganhar um Oscar da Academia pelos Efeitos Especiais/Efeitos Acústicos. O sucesso do filme, seria porém, ensombrado, pela morte de Ian Fleming, pouco antes da sua estreia.
            Em 1961, “Thunderball”, o oitavo livro da personagem criada por Ian Fleming estava no “top ten” dos livros mais vendidos na Grâ-Bretanha. Albert Broccoli tinha adquirido os direitos e já o quisera adaptar nesse ano, mas preferiu esperar. Em 1965, James Bond já fazia parte da história do cinema e, ao ritmo de um filme por ano, este projecto podia avançar. “Thunderball – 007 Operação Relâmpago” novamente realizado por Terence Young e leva Bond até ás Bahamas para tentar recuperar duas ogivas nucleares roubadas pela SPECTRE para fazer chantagem internacional. Parte do elenco dos filmes anteriores regressa nesta aventura e, como os produtores queriam manter as audiências, principalmente na europa, onde os filmes asseguravam bilheteiras atrás de bilheteiras, escolheram para o papel da Bond girl, Domino, depois de considerarem váras actrizes como Raquel Welch, Julie Christie, Faye Dunaway, entre outras, fixaram-se na bonita e sensual Claudine Auger, ex-miss França no ano anterior. O papel do vilão, Emilio Largo, um exportador frio e calculista, foi para Adolfo Celi, um actor muito prestável a este tipo de papéis e muito famoso em Itália. Com paisagens, subaquáticas e outras, de cortar a respiração e muita acção à mistura, principalmente na luta submarina entre agentes federais e os homens de Largo, “007- Operação Relâmpago” foi o maior êxito de bilheteira da série na altura e voltaria a trazer um Oscar para a série, novamente de Efeitos Especiais.
            O quinto filme da série só veria a luz do dia em 1967. Sean Connery começava a estar farto da personagem, e isso percebe-se facilmente pela sua interpretação. Então Harry Saltzman e Albert Broccoli decidiram que os filmes de James Bond seriam espaçados dois anos, o que permitiria uma produção mais cuidada e evitava a saturação dos actores e também do mercado que, por esta altura, estava inundado de filmes de espiões. Em “You Only live Twice – 007 – Só se Vive duas Vezes”, realizado por Lewis Gilbert, James Bond viaja até ao Japão para, em colaboraçãoo com os Serviços Secretos Japoneses, descobrir quem é que está a roubar foguetes espaciais e tentar impedir uma guerra nuclear. Neste filme James Bond encontra-se frente-a-frente com  Blofeld, o Número 1 da SPECTRE e arqui-inimigo de Bond, aqui interpretado por Donald Pleasence que trabalha a personagem com a frieza necessária tornando-a sinistra.
          Filmado no Japão, onde os filmes anteriores tinham sido muito populares, toda a equipa foi recebida e tratada de um modo exuberante. Foi o primeiro filme da série a sofrer alterações significativas em relação ao livro de Fleming, do qual praticamente, só reteve o título, a “Bond girl” japonesa Kissy Suzuki, a acção localizada no Japão e a aparição de Blofeld, o resto do argumento foi todo inteiramente criado pelo argumentista Roald Dahl, que já tinha visitado o país, pouco antes de começar a produção, anotando locais e localizações possíveis para o filme. Doseando a acção com pequenos aspectos da cultura japonesa (para tentar não perder as audiências asiáticas, outra jogada de mestre dos produtores),“007 – Só se Vive duas Vezes” foi outro sucesso na série. Pouco depois da estreia, Sean Connery anunciava que queria sair da série, alegando querer ir fazer outro género de filmes.
George Lazenby, o segundo actor a interpretar James Bond
            Para substituir Connery, os produtores, que nesta altura não queriam abdicar do franchise que tinham em mãos, começaram a procurar um substituto que estivesse á altura do actor. Entre os vários nomes considerados estava Timothy Dalton, que no entanto recusou por achar que era muito novo para o papel. John Richardson, Hans DeVries, Robert Campbell, Anthony Rogers, foram outros nomes considerados. Eventualmente acabou por ser escolhido George Lazenby, actor Australiano que Broccoli tinha visto num anúncio e achara-o adequado para o papel. 
        “On Her Majesty’s Secret Service – 007- Ao Serviço de Sua Majestade”, apareceu em 1969 e prometia várias alterações: desde logo um novo actor a encarnar a personagem; um novo realizador, Peter Hunt, uma “Bond Girl”, Tracy, que arrebata o coração do agente secreto ao ponto deste se casar com ela (o único momento de alegria que se conhece do agente secreto em toda a série, só para terminar pouco depois em tragédia), interpretada por Diana Rigg, a bonita actriz britânica, também ela vinda da série “The Avengers – Os Vingadores” (1965-1968) e um vilão interpretado por Telly Savallas que, com a sua cabeça completamente careca, o seu ar de psicopata sádico, tornavam-no na melhor escolha para interpretar o vilão de serviço, o que o actor fez com grande pujança, além de trazer para a ribalta  uma aventura totalmente nova, fiel ao livro e ao espírito de Ian Fleming. Desta vez Bond quer apanhar Ernst Stavro Blofeld, que conseguiu escapar do Japão, e para isso tem de viajar até á Suiça  e tentar descobrir o que é que o cabecilha da SPECTRE tem em mente. Filmado maioritariamente europa fora, incluindo algumas sequências relevantes para a acção em Portugal (sequência pré-genérico filmada no Guincho ou sequência final filmada na Ponte Salazar, sobre o Tejo), “007-Ao Serviço de Sua Majestade”, provou ser um bom filme de acção, mas a escolha de Lazenby é que se revelou uma má escolha, apesar de ser o mais parecido com a personagem que o autor apresentara nos romances, a sua interpretação não convenceu ninguém, faltava-lhe o carisma  que Connery pusera na personagem, daí que o público tenha penalizado o filme, deixando-o aquém nas bilheteiras, apesar da tentativa de se manter uma continuidade com os filmes anteriores, quer através de imagens desses filmes apostas durante o genérico, quer através dos acordes de alguns dos temas musicais, como na cena em que Bond está a recolher algumas coisas no seu escritório, ouvem-se alguns acordes dos temas dos filmes anteriores . Terminava assim, com algum desalento, a fugaz passagem de George Lazenby como James Bond.
          Sem protagonista para o próximo filme da série, os produtores resolvem voltar atrás e recuperar a fórmula de “Goldfinger”. O realizador Guy Hamilton foi novamente chamado, assim como o elenco habitual. Depois de várias tentativas de encontrar um actor para o papel, Broccoli e Saltzman conseguem, graças a uma gentil oferta que incluía uma percentagem no lucro total, que Sean Connery regresse ao papel. Com Connery a bordo, “Diamonds are Forever – 007- Os Diamantes são Eternos” viu a luz do dia em 1971. Ajudado por uma traficante de diamantes,  que vive na Holanda, James Bond vai até Las Vegas na pista do tráfico de diamantes onde vai desvendar um esquema de extorsão levado a cabo pelo seu nemesis, Ernst Stavro Blofeld, com quem, de resto, Bond tem umas contas a ajustar.
            Tal como o seu protagonista, o qual não esconde alguma saturação da personagem, “007 – Os Diamantes são Eternos”, demonstra igualmente alguma falta de energia e entusiasmo, o filme não passa duma colagem de cenas filmadas e interpretadas quase como se duma comédia se tratasse, apenas o argumento, escrito por Richard Maibaum e Tom Mankiewicz, consegue ter alguma vontade de levar o filme até ao final, porque no conjunto, não fosse os níveis elevados de produção, ninguém diria que este é um filme de James Bond. Mas nem tudo é fraco neste filme: o tema, interpretado por Shirley Bassey, que aqui fazia a sua segunda participação na série, é extremamente atmosférico e misterioso e a “Bond Girl”,  Jill St.John, é uma traficante bastante sexy. Foi outro sucesso de bilheteira e foi também o bilhete de despedida de Sean Connery da pele da personagem que, apesar do que o actor ainda iria fazer na Sétima Arte, lhe deu o sucesso. Connery regressaria, 12 anos mais tarde, ao personagem de James Bond em “Never say never Again – Nunca mais digas Nunca", remake despreocupado de “Thunderball”, realizado por  Irvin Kershner em 1983.

                                                                                                   (continua)
                                                                                                   
    
Nota: As imagens que ilustram este texto foram retirados da Internet



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