O Vietname, segundo Stanley Kubrick


                                                            


   Falar de Stanley Kubrick é falar de cinema. A sua obra, embora curta em termos de filmes, foi de importância capital, destinada a ser estudada e analisada por todos quantos se interessem pela sétima arte.
    Stanley Kubrick sempre quis fazer um filme de guerra. Já em 1957 com "Paths of Glory - Horizontes de Glória", tinha abordado o tema com este filme mais anti-guerra do que guerra. 
    Após "Shining" (1980), contactou Michael Herr, autor de "Dispatches", uma memória sobre a guerra do Vietname, e expôs-lhe a ideia de querer fazer um filme sobre o Holocausto mas que ainda não tinha encontrado a história ideal para adaptar.Eventualmente chegou-lhe ás mãos o livro de Gustav Hasford "The short-Timers". Kubrick leu-o duas vezes antes de decidir que seria a base do seu próximo filme, um filme sobre a guerra do Vietname.
  "Full Metal Jacket - Nascido para Matar", penúltimo filme do realizador, acenta que nem uma luva na sua carreira e insere-se lindamente na lista dos filmes mais importantes sobre a guerra do Vietname.
    Em Parris Island na Carolina do Sul um grupo de jovens Marines começam o seu treino para depois serem enviados para o Vietname para reforçar o contingente Norte Americano que por lá se bate. 


   A comandá-los está um impiedoso Sargento-Instructor decidido a torná-los verdadeiras máquinas de matar.
Realizado com o habitual perfeccionismo milimétrico e obsessivo de Stanley Kubrick, onde qualquer movimento de camâra, qualquer plano ou até a própria banda sonora têm uma razão para ali estar e venha daí quem disser o contrário!
   Dividido em duas partes distintas,narradas sempre do ponto de vista de Joker, que se completam no total, "Full Metal Jacket" começa com os futuros Marines a rapar o cabelo por completo dando inicío ao seu processo de desumanização e consequente transformação em "máquinas de matar", como lhes é dito a dada altura, que decorrerá ao longo de toda a recruta, sob a mão impiedosa do Sargento-Instructor Hartman (R.Lee Ermey), principal executor dessa mesma desumanização (cada grande plano da sua cara expressa essa vontade), castigando e humilhando constantemente o soldado Pyle (Vincent D'Onofrio), culminando na sequência do castigo infligindo a este durante a noite pelos seus próprios companheiros de camarata. O soldado Pyle acabará, finalmente, por fazer uso dessa mesma desumanização, na magnifica sequência nocturna da última noite, na casa de banho  da camarata. Vemos, nessa cena, na expressão facial de Pyle e no seu olhar, brilhantemente captados pelo realizador, o regresso de Alex DeLarge ( interpretado por Malcolm McDowell em "A Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick, 1971). Simplesmente aterrador.
A segunda parte do filme vai encontrar alguns elementos deste pelotão,  quase "máquinas de matar", em plena acção no Vietname. Estamos em plena ofensiva de Tet em 1968 e assistimos a um novo pesadelo neste conflito: a guerra urbana. Aqui reside um dos grandes trunfos do filme; ao transferir a acção dos combates da selva habitual para a selva urbana, Kubrick, que à semelhança de Francis "Ford" Coppola, em "Apocalypse Now", também faz uma aparição aqui como  operador de camâra, consegue uma originalidade única nunca conseguida em nenhuma outra obra que tenha abordado o Vietname. Filmada em estilo documental, patente nas cenas da progressão das tropas americanas sobre a a cidade de Hue, onde algures vislumbramos a ruína de um prédio que nos traz à memória o monólito negro (piscadela de olho a "2001:Odisseia no Espaço"?) - quererá o realizador dizer-nos alguma coisa? - Kubrick não confirma nem desmente e considera apenas que foi uma coincidência extraordinária; ou no combate nas ruínas da cidade entre o pelotão, cujos elementos, finalmente se transformam em "máquinas de matar", mas, nem todos vão conseguir cumprir essa transformação, e um atirador furtivo que os vai abatendo um a um; esta sequência consegue ser muito mais assustadora que qualquer outra filmada na selva, porque lá, já se sabe o que se espera, aqui o perigo pode espreitar em qualquer prédio, em qualquer esquina, Kubrick consegue aqui um efeito de suspense em filmes de guerra, nunca conseguido em qualquer outra produção do género.
   Em termos de interpretações, estas falam por si. Matthew Modine interpreta bem o seu soldado Joker, principalmente quando discute com um oficial o significado e a dualidade da inscrição que tem no seu capacete "Born to Kill" acompanhado do símbolo dos hippies; mas o triunfo do filme vai todo para D'Onofrio e Lee Ermey: as cenas entre ambos estão soberbamente interpretadas   principalment R.Lee Ermey que fora militar antes de ser actor. Inicialmente contratado com consultor técnico do filme, Kubrick viu um vídeo feito durante um ensaio do filme, em que R. Lee Ermey praguejava contra um grupo de Marines. 
    O realizador gostou tanto que o contratou de imediato para o papel. Tinha encontrado o seu Sargento-Instrutor e Lee Ermey correspondeu perfeitamente ao que lhe era pedido; quanto a Vincent D'Onofrio, assustador na sua transformação de jovem imberbe sem inteligência nem ambição até começar a enlouquecer progressivamente e transformar-se no perigoso psicopata que vemos no final da primeira parte, é um verdadeiro "tour de force" do actor e, uma vez mais, magnificamente captado pela lente do realizador. 
    A cena final é um dos aspectos mais interessantes do filme: os soldados marcham para fora do campo de batalha, ao som do tema "Mickey Mouse", um tema infantil, mas, que neste cenário macabro, se torna quase ridículo, no entanto, adquire uma importância capital, já que depois de tudo aquilo a que se assistiu, o tema deveria adquirir um tom quase cómico, mas o efeito que se obtém é precisamente o contrário e o tema já não consegue entreter nem alegrar. É uma espécie de coroação, dando à película o toque final de irracionalidade pretendido por Kubrick, mantendo válida a questão que percorre as mentes de todos (protagonistas e audiências) ao longo da obraquem são afinal os heróis do filme? 
  Último grande filme sobre o Vietname, um conflito que deixou marcas em toda a sociedade americana, "Full Metal Jacket" representou mais um enorme capítulo na grande carreira de um realizador chamado Stanley Kubrick. 





Nota: todas as imagens e vídeos que ilustram o texto, foram retirados da Internet



Comentários

  1. Este é mais um daqueles trabalhois onde a genialidade de Kubrick é evidente. Fica-nos um filme dificilmente indelével e com cenas verdadeiramente icónicas. Um abraço.

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