Excalibur


   Tive oportunidade de há algum tempo  atrás, num outro texto intitulado "Rei Artur: Mito ou Realidade", falar do rei Artur. Nesse texto fiz referência ao filme que vou comentar: "Excalibur".
   Na Bretanha,  Uther Pendragon e Cornwall, dois senhores da guerra lutam pela posse do território e ser o Rei Supremo. Merlin vê em Uther a única possibilidade de unificar o país e acabar com aquela guerra, para isso o mago entrega a Uther a espada Excalibur que é o símbolo da união. Cornwall ao ver a espada, reconhece Uther como rei e aparentemente a paz é estabelecida.
   Esta adaptação da lenda de Merlin e Artur  já era um projecto que Boorman tinha desde 1969, altura em que ele e o argumentista Rospo Pallenberg escreveram um argumento para um filme de três horas, que foi recusado pela United Artists, estúdio a que foi apresentado, que alegou ser um filme demasiado dispendioso. O realizador foi, ao longo da décadade 70, apresentar o argumento a diversos estúdios que não se queriam comprometer com um projecto desta envergadura.

   Realizado por John Boorman, autor de "À Queima-roupa" (1967), um dos melhores filmes policiais da década de 60, combinando elementos do filme negro americano com o melhor do thriller europeu; "Inferno no Pacífico" (1968) um excepcional drama de guerra centrado no relacionamento entre dois soldados, um americano, o outro japonês numa ilha do pacifico; "Fim-de-semana-Alucinante"(1972) um thriller quase ecologista passado na américa interior; "Zardoz" (1974) ficção cientifica pós-apocalíptica. Após o fracasso em todos os aspectos do mal afamado e quase ridículo "Exorcista II - O Herege" (1977), suposta continuação de "O Exorcista" (William Friedkin, 1973). A recepção critíca a este filme foi tão má que o realizador viu fecharem-se-lhe as portas dos estúdios. Nenhum produtor queria ouvir falar do seu nome. Apenas em 1981 é que conseguiu concretizar este projecto, recorrendo ao financiamento de amigos e familliares.
    O filme acaba por ser uma fascinante versão da obra de Thomas Mallory "Le Morte d'Arthur" e uma visão interessante e diferente duma época conhecida na história como a Idade das Trevas. Fortemente inspirado em "Os Cavaleiros da Távola Redonda" (Richard Thorpe, 1953), uma das versões mais conhecidas da lenda do Rei Artur, mas também a mais romanceada, com o clássico triângulo amoroso (Artur/Guinevere/Lancelote) a ganhar pontos em relação á lenda relegando-a para segundo plano, "Excalibur", pelo contrário, dá enfase à lenda na ascensão de Artur desde que este tira a espada da pedra até à traição de Guinevere, à mitologia cristã, onde a busca do Santo Graal e o  seu simbolismo, que ocupa todo o terço central do filme, é o melhor exemplo  e cuja melhor cena é aquela em que Perceval, já tornado cavaleiro, tem a visão do Santo Graal, recupera-o e trá-lo perante Artur. Boorman disse que a sua versão é sobre isso mesmo "a chegada dos cristãos e o desaparecimento das velhas religiões representadas por Merlin, ao mesmo tempo que as forças da superstição e da magia são engolidas pelo inconsciente..." 
    O realizador  filma tudo com a urgência de quem quer mostrar o máximo possível do material que tem em mãos. O resultado poderia ter sido outro não fosse Boorman um realizador experiente e saber o que fazer. Tira partido das belíssimas paisagens da Irlanda onde decorreu a maior parte dos exteriores e constroi com elas cenas de grande fôlego cinematográfico, embora violentas.
   É impossível ficar indiferente á cena em que a espada Excalibur surge das águas calmas do lago que é duma beleza dificil de descrever ou a cena que fecha o filme: um bonito e misteriosos pôr-do-sol em que o barco, transportando o corpo de Artur rodeado por três damas vestidas de branco, em direcção à ilha de Avalon,  navega . Até em cenas mais violentas como o cerco ao castelo de Leondegrance ou a da batalha final, simbolizando esta última a eterna luta entre o bem (Artur e os seus cavaleiros com as suas armaduras de um branco imaculado) e o mal (Mordred e o seu exército com as armaduras escuras); fabulosa é também o "travelling" da camera na cena em que Artur e os seus cavaleiros cavalgam para a batalha final, por entre uma alameda de árvores onde a vegetação renasce, ao som do tema "Fortuna" de Carmina Burana: épica e visualmente bem conseguida.
   Com um elenco onde pontuam nomes sonantes como Helen Mirren, Liam Neeson ou Gabriel Byrne, e ainda Katrine e Charley Boorman, membros da familia do realizador,  "Excalibur", resulta na magnifíca transposição duma lenda para um filme operático, cheio de luz e som.
Uma última palavra para um aspecto que, na maior parte das vezes, é ignorado e que neste filme adquire uma importância maior e justifica as minhas palavras no parágrafo anterior: a banda sonora.
   Em "Excalibur" a banda sonora (maioritariamente composta por excertos das óperas de Wagner) tem muita importância porque em diversas cenas, a música complementa as imagens: por exemplo na já citada cena da cavalgada de Artur; no casamento de Artur e Guinevere; mas é na cena da morte de Artur e quando Perceval, mandado por Artur, vai atirar a espada ao lago que a música adquire a sua expressão máxima e em que até o próprio espectador se sente envolvido naquela que é a cena mais dramática do filme: magnifica utilização da música.
"Excalibur" serviu de referência a uma série de filmes dos quais se destacam "Merlin" (Steve Barron, 1998, TV) ou "Brumas de Avalon" (Uli Edel, 2001, TV), este último baseado num livro de Marion Zimmer Bradley e conta a lenda do ponto de vista das mulheres da corte: original e diferente.
   Filmado originalmente com uma duração de três horas, Boorman optou, antes da estreia, por cortar algumas cenas, entre as quais uma cena, que apareceu em trailers promocionais, onde Lancelot salva Guinevere de ser assaltada por bandidos. O filme tem uma duração de 140 minutos, embora na televisão tenha sido exibida uma versão de 119 minutos, na qual praticamente todas as cenas de violência gráfica foram retiradas de modo a torná-lo uma espécie de "filme para toda a familia".
  "Excalibur", apesar de ser uma versão livre, onde  a preocupação não foram os adereços (que muita gente considerou inadequados), mas sim o tom dado pela narrativa que nos transporta logo desde o início para a Idade das Trevas (como nos é dito na legenda inicial) numa Bretanha quase medieval, não é um filme datado e  permanece ainda hoje como uma das melhores adaptações do romance de cavalaria de Thomas Mallory.
a ver e a redescobrir sempre.


Nota: As imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet







Comentários

  1. Para mim continua a ser um dos mais criativos filmes que alguma vez se fizeram à volta da temática do rei Artur. Um abraço.

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