Os Marginais - Uma Geração em Conflito



    Para recuperar do enorme investimento que fora "Apocalypse Now" (1979) e do desaire financeiro que foi "Do Fundo do Coração" (1981), que lhe custaram a hipoteca dos Estúdios Zoetrope que fundara anos antes, Francis Ford Coppola teve que aceitar fazer filmes-encomenda, ou seja realizar projectos que não eram seus desde o principio. "Os Marginais" foi um desses filmes. 

O livro, originalmente editado em 1967, quando a autora, Susan E. Hinton (consultora no filme e faz de enfermeira na cena do hospital), tinha dezassete anos de idade, começou a ser escrito quando ela tinha quinze e escreveu-o porque quis criar um mundo onde não existissem pais ou figuras que representassem a autoridade adulta, um mundo onde os jovens viviam segundo as suas próprias regras. Acerca de algumas das suas personagens, S. E. Hinton diz, segundo as suas próprias palavras, "são baseadas em pessoas que conheço...além de todas elas terem um pouco de mim própria..." 

    
    A acção passa-se na cidade de Tulsa em 1965 onde as diferenças sociais levavam a que os adolescentes se dividissem em duas classes: "Os greasers", os meninos pobre da zona norte da cidade, considerados marginais e sem futuro; "Os Socs", meninos ricos da zona sul da cidade e com futuro radioso á sua frente. A história gira em torno da rivalidade entre estas duas classes e nem mesmo o principio de um romance entre um "greaser" e uma "soc" consegue evitar os confrontos e as consequências que daí resultam. 
Francis F. Coppola e alguns dos seus "Marginais"
     Realizado com a habitual mestria e bom gosto patentes em obras-primas anteriores como a trilogia "O Padrinho", "O Vigilante" (1974) ou "Apocalypse Now" (1979), Coppola consegue captar de forma brilhante e simples a transição entre a infância e a adolescência, simbolizado pela cenas inicial e final: Ponyboy, sentado a escrever o seu livro com o tema "Stay Gold" de Stevie Wonder como fundo;  também quando Ponyboy e Johnny assistem ao nascer do sol e o primeiro recita o poema "Nothing gold can Stay" de Robert Frost e nas cenas em que Ponyboy e Johnny lêem o clássico "E Tudo o Vento Levou" de Margaret Mitchell; O desapontamento da idade adulta (simbolizado pela personagem de Dallas). Cenas como o confronto no parque de diversões, o combate nocturno à chuva entre "greasers" e "socs", ou ainda a cena da morte de Dallas transformado em marginal pelas suas próprias acções. Mas a cena mais marcante de todo o filme é a da morte de Johnny, as suas últimas palavras resumem a mensagem de toda a história: é inútil lutar,  remetem-nos para o que de mais clássico se fez no cinema, género muito acarinhado pelo realizador que lhe presta a devida homenagem. 
  Com um elenco de jovens talentos, que inclui nomes como: Matt Dillon, Patrick Swayze, Ralph Macchio, Diane Lane, C.Thomas Howell, Emilio Estevez ou o ainda relativamente desconhecido Tom Cruise, "Os Marginais" transformou-se num grande êxito de bilheteira e foi o veículo definitivo para a maior parte do seu elenco que, ao longo das décadas seguintes, veriam as suas carreiras subir sem parar.
 Juntamente com "Rumble Fish - Juventude Inquieta" (Francis Ford Coppola,1983), "Os Marginais"constitui o diptíco definitivo sobre uma certa geração que teimava em não crescer e transformar-se em adultos.
  Em 2005, Francis Ford Coppola lançou uma edição especial deste filme que intitulou "The Outsiders - The Complete Novel" onde integrou cerca de 22 minutos de cenas adicionais que trazem mais profundidade, sentido e paixão, aum filme que já tinha tudo isto, tornando a adaptação muito mais fiel ao original de S.E.Hinton. Talvez o único senão desta fabulosa nova versão seja a banda sonora, mais virada para estilo "Rockabilly" em detrimento da beleza dramática das orquestrações de Carmine Coppola, tão importantes em algumas cenas da versão original. Infelizmente esta edição permanece inédita em Portugal.

O Poema  à  Juventude
   Há alguns anos, Coppola disse que pretendeu, com este filme, criar um épico para os jovens, mas o que o realizador conseguiu fazer foi muito mais que isso: conseguiu um épico em que reavive as memórias que existem em todos nós, da alegria de ser jovem, ódio, medo, paixão, ansiedade e também a tentativa de fazer parte da sociedade seja de que geração for.
  
Nota: As Imagens e vídeos que ilustram este texto foram retiradas da Internet


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