Twin Peaks - Da Televisão para o Cinema II

    Em 1992, a curiosidade em torno do novo projecto de David Lynch era grande. Por um lado tratava.-se de regressar ao universo de  Twin Peaks, cujo fraco "share" obtido pela segunda série, estava ela a meio, levara à decisão de a cancelar no final da temporada. Por outro lado, perguntava-se, haveria ainda alguma coisa a dizer ou fazer naquele universo surreal, fantástico e genialmente criado por David Lynch? o realizador respondeu afirmativamente e fez "Twin Peaks - Fire walk with me - Os Últimos sete dias de Laura Palmer".
    O filme começa com a investigação da morte de Teresa Banks, uma "zé-ninguém", como é referido no filme, mas rapidamente passa para os últimos dias de Laura Palmer, estudante e rainha da beleza de Twin Peaks, mas cedo se descobre que tem alguns segredos que a tornam "não tão inocente" como a primeira vez em que a vemos (um belo plano médio de Laura a caminhar no passeio).
A morte de Teresa Banks: o principio de tudo
    Funcionando como uma espécie de prólogo, já que ligando os dois crimes, que eram o mistério central da série, David Lynch faz a ponte entre as duas obras; mas pode também ser considerado como uma sequela/epílogo, graças a uma narrativa bem entrelaçada por David Lynch e Robert Engels, já que explica alguns mistérios da série, bem como qual o destino do Agente Especial do FBI, Dale Cooper, que ficara suspenso no final da segunda temporada (que o apressado final não explicou claramente). Para Lynch, o tempo é uma incerteza, e isso está bem patente tanto nas séries como no filme, ele  faz-nos acreditar que tudo aquilo aconteceu, ou pode vir a acontecer. 
      A enigmática cena final, quando o espírito de Laura "acorda" no quarto vermelho do Black Lodge, sente-se triste, só e abandonada, vê o seu anjo aparecer no ar, primeiro começa a chorar e depois ri, a seu lado está o Agente do FBI que lhe passa o braço pelos ombros, terminando  com um belissimo plano do rosto dela sob um fundo branco, é disso exemplo.
   Lynch quis fazer o filme porque, segundo as suas próprias palavras "...eu não me conseguia imaginar fora do universo de Twin Peaks...eu estava apaixonado pela personagem de Laura Palmer e as suas próprias contradições: alegre e jovial por fora, mas a morrer por dentro...eu queria vê-la viva...a mexer-se, a rir, a falar...adorava aquele universo...entendi que ainda havia muito para explorar...foi o que pretendi fazer...".
Dale Cooper, Agente Especial do FBI e a "secretária" portátil
    Percebe-se que estamos situados no universo do realizador: desde a cena inicial em que se vislumbra uma televisão sem emissão nem som, sob a qual decorre o genérico, indicando um silêncio absoluto que logo a seguir é quebrado pelo partir da mesma ao mesmo tempo que se ouve um grito feminino, alguém acaba de ser assassinado, ficamos a saber a seguir que esse alguém é Teresa Banks; passando pela investigação dos dois agentes do FBI (Chris Isaak, cantor e músico, numa pausa da sua carreira musical e um Kiefer Sutherland, numa versão Jack Bauer, pré "24")  de um dos famosos casos "Rosa Azul", dos quais não pode falar, segundo diz Chester Desmond, do seu chefe Gordon Cole (interpretação carismática de David Lynch) e pelas premonições que Dale Cooper dá conta à sua "secretária" portátil (um gravador de voz), onde receia que o assassino de Teresa Banks voltará a atacar; terminando na aparição do corpo de Laura na praia e a referida cena final, tudo isto é David Lynch no seu melhor. Contando também com a preciosa ajuda da banda sonora, tanto no filme como na série, da responsabilidade de Angelo Badalamenti, colaborador habitual do realizador desde "Veludo Azul" (1986), onde a sua sonoridade única se demarcou do filme, mas, ao mesmo tempo, completando-o. Em "Twin Peaks", acontece o mesmo: é impossível demarcar a banda sonora daquele universo: os temas que compôs para as personagens são, só por si, um cartão de apresentação de qualidade inegável. Mal ouvimos qualquer acorde, seja do tema de alguma personagem, seja o próprio tema principal, somos imediatamente transportados para aquele universo imaginado e criado por David Lynch, como se a banda sonora tivesse uma vida própria, adequada ao ambiente de ambas as obras.
    Tal como acontecera com a série, também o filme quebrou algumas convenções estipuladas. Por um lado tínhamos uma "prequela" (o termo ainda não se utilizava no inicio da década) em vez duma continuação ou sequela como se começara a utilizar alguns anos antes; Por outro lado, tínhamos um filme que, pela primeira se inspirava numa série e não o contrário (hoje já é prática comum fazer-se isto, basta ver, por exemplo, os filmes inspirados na série de culto "Missão: Impossível").
     Praticamente todo o elenco da série transitou para o filme retomando as suas personagens, com as excepções de Lara Flynn Boyle (Donna Hayward), Sherilyn Fenn (Audrey Horne) e Richard Beymer (Benjamin Horne), mas nem todos aparecem na versão final do filme o que provocou um vazio enorme, já que algumas dessas personagens tinham-se tornado familiares ao espectador da série. Para quem só conheceu este universo a partir do filme, não dá por esse vazio apesar de se aperceber de alguns cortes abruptos nas cenas; mas quem conheceu e acompanhou este universo desde a televisão, apercebe-se logo do enorme vazio provocado por essas ausências, mais, percebe que o próprio filme se ressente desse facto.
     Lynch, originalmente, filmou mais de cinco horas de filme, mas, a pedido do seu produtor que receava que  o filme fosse um fracasso, aceitou reduzi-lo para uma duração de duas horas e quinze minutos, ficando grande parte do elenco sem cenas completas, ou simplesmente nem aparecem. O realizador pediu desculpas, pessoalmente, por tê-los excluído da versão final.
     Apresentado no festival de Cannes em Maio, "Twin Peaks - Fire walk with me", foi recebido com vaias e assobios do público e críticas negativas de quase toda a imprensa presente no evento. Estreou nos Estados Unidos em Agosto e foi um fracasso de bilheteira. Aparentemente o efeito "Twin Peaks"extinguira-se logo após o cancelamento da série, um ano antes. Na Europa, onde o realizador era idolatrado, o filme rendeu razoavelmente e recebeu algumas críticas moderadas. No Japão, a recepção ao filme foi diferente, já que o realizador gozava de grande fama entre as mulheres japonesas, que viram na "sua" Laura uma projecção do sofrimento e ânsia de libertação da mulher numa sociedade repressiva (neste caso, o universo "Twin Peaks") e em agradecimento a esta visão, tornaram o filme num sucesso de bilheteira.
    O filme pode ser visto de forma independente da série, apesar de remeter muitas situações para esta, mas, para uma melhor análise e compreensão deste universo, deve ver-se com um todo, começando pelo filme e depois prosseguir com as duas temporadas da série. A experiência, garantidamente, é única.
    Era intenção de David Lynch fazer mais dois filmes que continuariam e concluiriam a história, mas, devido ao fracasso nas bilheteiras, deu por encerrado o assunto. Ás vezes o melhor mesmo é abandonar uma temática, por muito boa que ela seja ou por muito boa vontade que se tenha em trabalhá-la, deixar que o tempo faça o respectivo distanciamento e a eleve até ao respectivo estatuto.


                                                                
    

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