Robert A. Heinlein e a História do Futuro

    Uma história do futuro é uma narrativa que se ocupa do futuro da humanidade. É um sub-género utilizado por escritores de ficção científica, muitas vezes, para consolidar os eventos duma história, ou fornecer um fundo no qual o leitor poderá reconstruir a ordem das histórias e dos acontecimentos a partir da informação por elas fornecida.
     Robert Anson Heinlein (1907-1988), foi um escritor de ficção cientifica. Popular, influente e controverso, foi dos primeiros autores a escrever romances-tipo com os quais obteve sucesso no mercado moderno e um daqueles autores promissores que John W.Campbell Jr., editor da prestigiada revista "Astounding Science Fiction Magazine", gostava de apostar. Juntamente com Arthur C.Clarke e Isaac Asimov, é considerado um dos "três grandes" da ficção cientifica
   O seu livro mais famoso "Stranger in a Strange Land - Um Estranho numa Terra Estranha", foi publicado em 1961 e, devido ás temáticas que abordou como o individualismo, libertanismo e a livre-expressão de amor, físico e emocional, foi uma das bíblias do movimento hippie que nasceu na década de 60 do século passado.
   Entre as muitas temáticas que abordou, ao longo da sua vasta obra, a capacidade de antever o mundo de amanhã, que não andou muito longe da realidade, foi a que mais marcas deixou, embora não tenha sido inteiramente compreendida na época onde chegou a ser acusado de alarmista.
   "A História do Futuro", assim se chama esta série romances e contos que Heinlein escreveu ao longo de quase   cinco décadas. Nela relata-se a história da humanidade, em particular dos Estados Unidos, durante cerca de 700 anos, desde  1951 até a 2600 d.C., vista por Lazarus Long. O seu nome verdadeiro é Woodrow Wilson Smith, nascido em 1912 e produto da terceira geração dum longo processo de selecção reprodutiva levado a cabo pela familia Howard e vêm-se a saber, ao longo da série, que ele é o homem mais velho do mundo, que vive bem, com cerca de 2000 anos de idade, com a ajuda ocasional de alguns tratamentos de rejuvesnascimento. 
    Introduzido pela primeira vez em "Methuselah's Children - Os Filhos de Matusalém" (embora não seja o primeiro volume da série), escrito em 1941, ele admite ter 224 anos de idade e a acção passa-se durante cerca de 75 anos e que termina quando a primeira forma de rejuvenescimento está a ser desenvolvida, apesar de grande parte destes anos serem passados a viajar distâncias interestelares a velocidades próximas da da luz, o tempo passado é contado, não em termos da sua vida, mas em termos da sua ausência.Todos os livros em que a personagem de Lazarus Long surge, nomeadamente "Time Enough for Love" (1973) e "The Number of the Beast, (1980) envolvem viagens no tempo, dimensões paralelas, amor-livre, incesto e um conceito que Heinlein chamou "O Mundo como  Mito", uma teoria de que os universos são criados pelo acto de os imaginar!
   A maior parte desta História do Futuro foi escrita no inicio da carreira de Heinlein, entre 1939 e 1941 e entre 1945 e 1950. O termo foi inventado por John W.Campbell, quando publicou um primeiro esboço daquele que é considerado o primeiro volume da série, embora Heinlein nunca o tenha confirmado, "For Us, The Living" (1939), na revista "Astounding Science Fiction Magazine", em Março de 1941.
   A História do Futuro, longe de ser um relato de simples maravilhas e progressos tecnológicos, é, no seu todo, uma análise impressionante das vantagens e problemas que esse progresso trará à humanidade. Não é uma simples epopeia, mas sim uma sucessão de esperanças e desilusões, de vitórias e derrotas, de luz e de trevas.
Primeiro livro da série "A História do Futuro"
    O que se pode considerar quase como uma clarividência de Heinlein, ao definir a estrutura desta sua série, fica provado logo na publicação do (agora sim!) primeiro volume da série "The Man who sold the Moon - O Homem que vendeu a Lua", em 1950, ele previa para a década de 60, consideráveis avanços técnicos, acompanhados por uma gradual deterioração de costumes, da orientação, e das instituições sociais, terminando em psicoses colectivas (não será aquilo a que, em pleno século XXI, se assiste?). Para este período, Heinlein previa já foguetes e mísseis intercontinentais, assim como o começo de uma "Falsa Alvorada" que terminaria com a primeira viagem à lua.
   No segundo volume da série "The Moon is a harsh Mistress - A Revolta na Lua", depois duma grande crise financeira e social, no final da década de 60, começaria a reconstrução da sociedade, que coincidiria com "Período da Exploração Espacial" ou seja,  a conquista e colonização da Lua e do sistema solar, entre 1970 e 2020.  Período esse que terminaria com uma revolta e posterior independência das colónias extraterrestres e que é relatado em pormenor no livro "Revolt in 2100 - Revolta em 2100", um dos menos conhecidos volumes da série, escrito em 1953, mas de igual importância, já que essa revolta consequentemente leva a uma interrupção nas viagens interplanetárias, entre 2020 e 2072 e que nos Estados Unidos se traduziria por um ressurgimento do fanatismo religioso, o estabelecimento de uma Teocracia e posterior rebelião contra ela, naquilo que se chamaria "A Segunda Revolução Americana"  .
    Em "Time Enough for Love - A História do Futuro",  Lazarus Long relata pormenores da sua vida, através de flashbacks e flashforwards detalhados e que compreendem o período que vai desde o seu nascimento até ao ano 4272. Ao longo dos seus mais de 2000 anos de vida, ele diz ter trabalhado em praticamente todo o tipo de profissões e participado em quase todos os grandes acontecimentos da história.
   Nos últimos  livros da série "The Number of the Beast - O Número do Monstro" e " The Cat who Walks through Walls - O Gato que Atravessava Paredes", Lazarus Long surge já com personagem secundária mas ainda tem importância no desenvolvimento dos mesmos. Em "Number of the Beast" é-nos relatada a viagem da nave "Gay Deceiver" e dos seus quatro ocupantes em seis dimensões espacio-temporais: as três dimensões espaciais que existem na realidade e mais três que existem apenas no tempo, uma delas permite que se viaje até mundos fictícios como o reino de Oz por exemplo, assim como através do espaço e do universo. Essas viagens são relatadas em forma de diário pelos quatro ocupantes que registam aquilo que vêem nos universos paralelos por onde passam e que encontrarão numa dessas viagens Lazarus Long que vive num mundo desconhecido, cujas acções serão decisivas no resultado final.
   Começa quase como um livro policial "The Cat who Walks through Walls", escrito em 1985,   mas logo passa para o universo de Heinlein e da sua história do futuro. Colin Campbell é escritor e vê morrer junto de si, com um tiro, um homem que nunca viu na sua vida. Ajudado por uma bela e misteriosa jovem chamada Gwen Novak que o ajuda a ir até à lua para tentar resolver aquele mistério. Obcecada em esclarecer  que levou a comunidade lunar a revoltar-se contra a terra, ela afirma ter estado presente apesar de ainda ser uma criança, Campbel desconfia. Depois de várias peripécias encontram Lazarus Long que é o chefe duma organização chamada "Time Cops" que aceita ajudá-los nas suas missões. Este livro pode ser considerado tanto como uma continuação de "Number of the Beast", como de "Moon is a harsh Mistress", já que personagens de ambos os livros aparecem na acção e só se considera como parte da história do futuro por que Heinlein lança mais alguma luzes sobre os acontecimentos de ambos os livros.
   "To Sail Beyond the Sunset", escrito em 1987,  é oficialmente o último livro da história do futuro tal como foi escrita e pensada por Robert Heinlein. Maureen Johnson Smith Long, mãe de Lazarus, grava as suas memórias enquanto aguarda com incerteza o seu destino. Ela, nascida em 1882, reflecte sobre a sua vida ao longo das muitas gerações que por ela passaram. Tudo isto tendo como pano de fundo um século XX alternativo.
   Em 1966 "A História do Futuro" foi nomeada para o prémio Hugo de "Melhor Série de Todos os Tempos", juntamente com "Barsoom" de Edgar Rice Burroughs, "Lensmen" de E.E."doc"Smith, "Fundação" de Isaac Asimov,  e "O Senhor dos Anéis" de J.R.R.Tolkien. Perdeu para a "Fundação" de Asimov.
   Apesar de muita da sua obra já se encontrar editada em Portugal, Robert Heinlein ainda permanece um autor desconhecido e que merecia ser descoberto pelo público amante de ficção científica.


Nota: Todas as imagens que ilustram este texto foram retiradas da Internet

                                                                  
Parte de "A História do Futuro"
                                                                             

  

                           

Comentários

Mensagens populares