O Padrinho, Uma Saga Completa I

   "Eu Acredito na América...", é com estas palavras ditas  sobre um écran  preto que começa a mais famosa saga criminal da história do cinema, "O Padrinho" realizado em 1972 por Francis "Ford" Coppola. Quando se falava de filmes de gangsters, de filmes sobre a Mafia, vinha-nos logo à memória James Cagney ou Edward G. Robinson, nomes a maior parte das vezes ligados a este tipo de produções nos anos 30 e 40 do século passado. 
   Francis F. Coppola não foi a primeira escolha da Paramount para adaptar o romance de Mario Puzo, publicado em 1969, para o grande écran. Antes dele, foi feita uma aproximação a Sergio Leone, que recusou porque já tinha em mente fazer "Once Upon A Time in America - Era uma vez na América" (que só veria a luz do dia em 1983!). Peter Bogdanovich foi o nome que seguiu, mas recusou também alegando estar envolvido em "What's up Doc?". Outro nome falado terá sido o de Sam Peckinpah, que estava nas boas graças dos estúdios graças a "A Quadrilha Selvagem" (1969), um Western violento e estilizado, que fora um dos grandes sucessos da década passada, mas Robert Evans, director dos estúdios da Paramount, rejeitou este realizador alegando que o que ele faria seria transformar o filme numa carnificina. Em finais de 1970, o filme parecia condenado a nunca ver a luz do dia. 
O livro que deu origem ao filme
   O nome de Coppola não estava nas boas graças dos estúdios, apesar de, ao principio, mostrar vontade de o realizar, acabou por não o fazer por receio de ferir susceptibilidades com a Mafia e também devido à sua descendência Italiana e o estúdio também não fez muito esforço para o contrariar. Sómente quando ele recebeu um Oscar pelo Argumento do filme "Patton" (Franklin J. Schaffner, 1970) é que o estúdio voltou a insistir com ele e este aceitou também muito pressionado por George Lucas, a quem acabara de produzir o filme de estreia "THX 1138" (1971).
   O relacionamento entre o realizador e o estúdio nunca foi bom. Depois de um inicio relativamente bom, as coisas começaram a correr mal, muito por culpa do realizador, que várias vezes cometeu erros de casting e de produção levando a que produção encarecesse mais do que o estimado. Várias vezes o seu lugar esteve em risco mas que, habilmente, o realizador conseguiu contornar os muitos problemas que lhe surgiram. Inicialmente estavam previstos 83 dias de  rodagem, iniciada em Março de 1971, Coppola precisou de apenas 77 para completar o trabalho, terminando em Agosto do mesmo ano. O resto do ano seria passado na sala de montagem  para que o filme estivesse pronto a tempo de entrar na corrida aos Oscares.
   Um dos grandes problemas do realizador foi escolher o elenco. O estúdio queria nomes como Robert Redford ou Ryan O' Neal para o papel de Michael Corleone, outros nomes como Jack Nicholson, Warren Beatty, Dustin Hoffman ou Martin Sheen, entre outros também foram considerados, até um então desconhecido Robert De Niro  chegou a ser considerado para o papel, mas Coppola queria alguém que fosse italo-americano para dar mais realismo ao personagem. Foi-lhe sugerido o nome de Al Pacino que dera nas vistas em "Panic in Needle Park - Pânico em Needle Park" (Jerry Schatzberg, 1971). Como não era um nome sonante, o estúdio não o quis a principio e só quando o realizador ameaçou abandonar o projecto, é que aceitaram a escolha mas impuseram ao realizar que aceitasse Marlon Brando para o papel de Don Corleone. Inicialmente o realizador  não quis Brando porque este era conhecido por muitas vezes só parecer nas filmagens quando lhe apetecia e cobrava cachets demasiado altos para os valores desta produção. Coppola acabou pro aceitar incluir o seu nome no elenco e dali para a frente nasceu uma amizade que levou a que o realizador fosse dos poucos com quem o actor trabalharia e com quem se daria bem. Outro problema que o realizador teve de enfrentar foi que ele queria fazer um filme que fosse uma metáfora sobre o capitalismo americano, e os produtores queriam um sucesso que os livrasse da dificil situação financeira em que o estúdio se encontrava e queriam algo que atraísse público. Pressionado, o realizador adicionou algumas cenas de violência para agradar aos produtores e aliviar a pressão a que estava a ser submetido
Francis F. Coppola a preparar uma cena
     Antes de " O Padrinho", os filmes de gangsters apresentavam o crime organizado visto duma perspectiva fora-da-lei, banida da sociedade. O contraste entre estas produções e este filme, é que aqui ela é dada através do próprio gangster (Don Corleone), da Mafia, como uma resposta a uma sociedade corruptao que permite que Coppola, inteligentemente, utilize alguns episódios para cimentar essa mesma perspectiva: a cena em casa de Jack Woltz entre este e Tom Hagen; ou a cena em que um Johnny Fontane choroso se queixa ao seu todo poderoso padrinho ( alegadamente o visado nesta cena é Frank Sinatra que para ganhar  o seu papel em "Até à Eternidade" de Fred Zinnemann em 1953, teria recorrido aos seus conhecimentos na Mafia, a história, porém, nunca foi confirmada nem desmentida). Outra imagem que o filme fez passar é que a Mafia é uma organização de contornos feudais em que o Don é, ao mesmo tempo, o protector dos pequenos e fracos, fazendo-lhes pequenos favores ou serviços e o cobrador desses mesmos serviços e protecção, (toda a cena inicial durante o casamento ou no final, quando todos se dirigem a Michael e honrosamente o tratam por Don Corleone),  são bons exemplos disso mesmo. 
    A recepção crítica ao filme foi louvável e a do público extremamente entusiasta, que facilmente  o tornou  num clássico  O filme é hoje visto com enorme respeito pela crítica mundial que o considera um dos maiores filmes alguma vez feitos. Numa grande votação levada a cabo no último trimestre de 2000, "O Padrinho" foi considerado o  Segundo Melhor Filme de Sempre, atrás de "Citizen Kane - O Mundo a Seus Pés" ( Orson Welles, 1941).
      Desde os seus primeiros minutos naquilo que parece ser um monólogo e que, através de um subtil movimento de camera, percebemos que afinal  alguém  escuta atentamente as suas palavras, até  aquele plano final, em que Kay, angustiada, percebe que o seu marido, afinal, é igual ao resto da familia, de uma porta a ser fechada, são imagens inesquecíveis, com uma força tal que, só por si, escreveram e ainda escrevem, páginas da história do cinema.
      A interpretação de todo um elenco principal, e secundário, encimado por Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, a realização magistral de Francis F.Coppola, o argumento de Mario Puzo e do próprio Coppola, música, hoje universalmente associada com o filme, de Nino Rota, transformaram aquele que poderia ter sido um enorme fracasso de bilheteira, num filme poderoso, inigualável e absolutamente brilhante. Um enorme triunfo em todos os campos e, ainda hoje, uma referência obrigatória sempre que se fala de cinema.
      Apesar de muito violento, o filme seduz precisamente por causa dessa violência. Coppola encena as cenas de acção e violência como se duma ópera se tratasse e que atinge o seu ponto alto na sequência do baptizado em que, através duma montagem genial, assistimos à execução de todos os inimigos de Michael.
 Todas as cenas são uma autêntica lição de fazer cinema, ensaiadas até ao mais infímo pormenor, fazem de "O Padrinho" uma experiência cinematográfica única. 
    Nomeado para um total de dez Oscares da Academia, "O Padrinho" venceu três, incluindo o de Melhor Filme do Ano, os outros dois foram para o Melhor Argumento Adaptado e de Melhor Actor para Marlon Brando, que o actor recusa alegando a discriminação a que os índios foram votados pelas autoridades americanas e principalmente pelo tratamento que Hollywood lhes dava. O filme venceu ainda cinco Globos de Ouro, incluindo Melhor Filme na Categoria de Drama e Melhor Realizador e inúmeros outros prémios.
     Referências podem ser encontradas sob as mais diversas forma desde homenagens, citações, sátiras, paródias até referências visuais ( por exemplo em "Os Sopranos" o bar de Alterne de Tony Soprano chama-se Bada Bing em homenagem a uma frase utilizada por Sonny Corleone em "O Padrinho")  onde se percebe quão influente foi o filme desde a sua estreia até ao século XXI.
Uma Obra-Prima intemporal.










Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet





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