O Musical - Um Género por Excelência

   Em 1974, por ocasião da comemoração dos 50 anos da  MGM (Metro-Goldwyn-Mayer), no filme-documentário "That's Entertainment - Isto é Espectáculo!", realizado por Jack Haley Jr.,  Frank Sinatra, um dos apresentadores, disse que o filme musical tinha adquirido a sua importância no cinema devido aos enredos simples que continha: "O rapaz conhece a rapariga, o rapaz e a rapariga apaixonam-se, não se entendem, o rapaz canta uma canção e o rapaz fica com a rapariga!" e, como veremos, não andava muito longe da verdade.
   O Musical é um género de filme que se apoia predominante ou exclusivamente em sequências de canções, música e dança coreografadas como forma de narrativa. O musical, sabe-se, foi um desenvolvimento natural da peça de teatro. A maior diferença entre os dois tipos de espectáculo é a utilização de cenários grandiosos por parte do filme musical, e que seria impraticável no palco. Os números musicais contêm reminiscências do teatro; os intérpretes habitualmente executam os números de dança e as canções como se estivessem a actuar perante uma assistência. De certo modo, o espectador torna-se o centro da atenção já que o intérprete olha directamente para a câmara e actua para ela.
   As décadas de 30, 40 e 50 são habitualmente consideradas como sendo a época de ouro do musical, embora tudo tenha começado um pouco antes. Em 1923-26, Lee De Forest fez diversas curtas metragens que chamou musicais utilizando bandas, vocalistas e dançarinos, nos quais uma banda sonora musical tocava enquanto os intérpretes representavam as suas personagens tal e qual se fazia nos filmes mudos: sem nenhum diálogo. Porém, em 1927, tudo mudou com o advento do som.
O Primeiro filme sonoro do cinema
   "The Jazz Singer - O Cantor de Jazz"  foi, não só, o primeiro filme sonoro da história do cinema, como também o primeiro filme musical, no qual Al Jolson cantava vários temas. Embora apenas os números de Jolson tivessem som, a maior parte do filme era mudo, todas as pessoas  na audiência sentiram que algo estava a mudar. Em 1928 os cinemas apressaram-se a instalar os novos equipamentos de som enquanto os estúdios se apressavam a contratar os compositores da Broadway para escreverem musicais para o cinema. O primeiro filme totalmente sonoro "Lights of New York" (Bryan Foy, 1928) incluia um número musical num clube nocturno. O entusiasmo das audiências foi tal que, em menos de 1 ano, todos os grandes estúdios estavam a produzir musicais.
   Em 1929, antes da crise económica, a MGM de Sam Goldwyn, torna-se no principal estúdio de cinema a produzir filmes musicais, graças ao filme "Broadway Melody", realizado por Harry Beaumont. Apresentdo pelo estúdio como o primeiro filme "totalmente falado, totalmente cantado, totalmente dançado", cuja história de duas irmãs do mundo do espectáculo, a competirem pelo amor de um talentoso cantor e dançarino, conseguiu cativar o público, foi um grande sucesso e ganhou o Oscar de Melhor Filme do Ano.
A Imagem-marca de Busby Berkeley
   No inicio da década de 30, Hollywood produziu cerca de 100 musicais, mas apenas uns meros 14 em 1931. As audiências pareciam estar, nesta altura, saturadas de filmes musicais e os estúdios viram-se forçados a cantar as partes musicais dos filmes em produção. Mas, em 1933, o gosto pelos musicais reavivou novamente, muito pelo trabalho do realizador/coreógrafo Busby Berkeley que, pouco a pouco, iria modificar os números de dança no filme musical. Em filmes como "42nd Street" ou "Gold Diggers of 1933", Berkeley deixou uma marca indelével e um estilo único: os seus números geralmente começavam num cenário específico, depois abriam para espaços maiores, onde as suas geniais coreografias envolviam corpos humanos como que a formarem padrões próprios, tipo caleidoscópio e em cuja intenção principal é que o espectador veja a acção de baixo para cima. 
   Foi pela sua mão que nomes como Fred Astaire ou Ginger Rogers, entre outros, se tornaram muito populares durante os anos dourados do género.  A dupla Astaire-Rogers resultou numa série de filmes de sucesso, hoje clássicos, como "Top Hat - Chapéu Alto" (Mark Sandrich, 1935), "Swing Time - Ritmo Louco" (George Stevens, 1936) ou "Shall we Dance - Vamos Dançar?" (Mark Sandrich, 1937) onde canções, danças e sapateado, ao serviço de  argumentos simplistas  e banais histórias de amor faziam as delícias do público. Surpreendentemente muitos actores e actrizes que ganharam fama com outros papéis, começaram como no filme musical. James Cagney, famoso pelos seus papeis de gangster e homem duro, começou como cantor e dançarino, mas  teve poucas  oportunidades de mostrar estes seus talentos, por isso não é de admirar que o seu único Oscar de Melhor Actor seja por "Yankee Doodle Dandy - A Canção Triunfal" (Michael Curtiz, 1942) onde  canta e dança.
Arthur Freed, responsável pela renovação do Musical
    Nas décadas de 40 e 50, a MGM, fez a transição entre a fórmula repetitiva e já ultrapassada dos musicais antigos, para algo novo. Arthur Freed foi o principal responsável por esta mudança. Trabalhando independentemente do estúdio principal, a chamada "Unidade Freed"produziu alguns dos melhores filmes do género e da história do cinema. Começou em 1944 com "Meet me in St.Louis - Não há como  a Nossa Casa" realizado por Vincente Minnelli,  continuou com "Easter Parade - Quando Danço Contigo" (Charles Walters, 1948), "On the Town - Um dia em Nova York" (Stanley Donen & Gene Kelly, 1949) este foi o primeiro musical a ser filmado em exteriores e que se tornaria prática comum nas décadas seguintes e  que "Seven Brides for Seven Brothers - Sete Noivas para Sete Irmãos" (Stanley Donen, 1954 ) é um exemplo acabado disso mesmo, ao tirar o melhor partido dos exteriores em que foi filmado (as montanhas do Utah) ou "Band Wagon - A Roda da Fortuna" (Vincente Minnelli, 1953) que trouxe de volta à ribalta Fred Astaire  depois de um breve período de retiro a que o actor se votara. Esta nova era do musical trouxe outros nomes que se tornariam símbolos do género: Vincente Minnelli, Judy Garland, Gene Kelly, Cyd Charisse, Donald O'Connor, Ann Miller, Howard Keel, entre outros.
   A década de 50 viu também surgirem aqueles que ainda hoje são considerados os melhores filmes do género, igualmente pela mão da "Unidade Freed": "An American in Paris - Um Americano em Paris" realizado por Vincente Minnelli em 1951, que conta a história de Jerry (Gene Kelly) um ex-soldado americano que após o final da II Guerra Mundial, fica em Paris para tentar a sua sorte como pintor. As músicas de George Gershwin adaptadas em coreografias geniais por Gene Kelly (principalmente a fabulosa sequência-título do Ballet final que dura cerca de 17 minutos), os exteriores filmados numa quase declaração de amor a Paris, um elenco de secundários como Leslie Caron (o objecto da paixão de Jerry), Oscar Levant, Nina Foch ou George Guetáry, fizeram do filme um grande sucesso de bilheteira e o fiel depositário de seis Oscares da Academia, incluindo o de Melhor Filme do Ano e garantiu a Kelly um prémio especial pela coreografia genial na sequência do ballet.
   O outro filme é "Singin' in the Rain - Serenata à Chuva" realizado pela dupla Stanley Donen e Gene Kelly em 1952 e é considerado o melhor musical da história do cinema. A história passa-se durante a transição do cinema mudo para o cinema sonoro e conta as dificuldades sentidas pelos actores dum estúdio quando é decidido que o seu último filme tem que ser um musical.  Este filme consegue, no mesmo espaço, misturar drama, comédia, música, canções e dança, numa brilhante auto-paródia graças aos talentos dum elenco que parece ter sido reunido para este efeito: Gene Kelly, Donald O'Connor e Debbie Reynolds brilham como nunca nos fabulosos números musicais que enchem o filme "Mak' Em Laugh", "Moses", "Good Morning" ou na "Broadway Melody Ballet" (em que Cyd Charisse e Gene Kelly deslumbram completamente num número genialmente  coreografado por Kelly),  mas é no fabuloso número que dá o título ao filme, que este se destaca de todos os outros, pela simplicidade da cena e ganha o seu estatuto: Kelly, completamente encharcado, a cantar e dançar sob uma chuva cada vez mais intensa, encanta e convence tudo e todos e o filme torna-se na obra-prima do género por excelência. A face do musical nunca mais seria a mesma.
   Os anos 60 ainda viram alguns musicais obterem sucesso, foi o caso de "West Side Story - Amor sem Barreiras" (Robert Wise & Jerome Robbins, 1961) actualização do drama de William Shakespeare "Romeu e Julieta" para a actualidade,  apesar dos dez Oscares da Academia que ganhou, incluindo o de Melhor Filme do Ano, as tensões raciais não conseguiram convencer o público; "My Fair Lady- Minha Linda Lady" (George Cukor, 1964) a história de amor entre o professor snob e a florista conseguiu convencer o público e o filme receberia oito Oscares da Academia, incluindo o Melhor Filme do Ano; assim como "The Sound of Music - Música no Coração" (Robert Wise, 1965) cuja história semi-veridica da familia Von Trapp numa Áustria pré-II Guerra Mundial conseguiu cativar tudo e todos, levando a que o filme fosse um dos grandes  sucessos de bilheteira de sempre  e ganhasse cinco Oscares da Academia, incluindo o de Melhor Filme. Mas o maior sucesso de bilheteira da década seria "Mary Poppins" (Robert Stevenson, 1964), a história da ama mágica contratada para tomar conta dos filhos dum ocupadíssimo bancário, conseguiu cativar o público ao longo das gerações fazendo deste filme um dos maiores êxitos de bilheteira da Disney.
   Apesar do sucesso de alguns filmes musicais, outros houve que não conseguiram obter o sucesso pretendido. Filmes como "Camelot", "Hello Dolly", "Sweet Charity" "Paint your Wagon" ou "Song of Norway" mutilaram financeiramente  alguns estúdios no inicio da década de 70. Percebeu-se que o musical já tinha tido os seus dias e que era preciso repensar tudo.
   Considerado perigoso, o musical foi sendo progressivamente substituído pelo uso de música de cantores e grupos rock como pano de fundo, sempre na expectativa de se conseguir vender essa banda sonora ao público. O percursor neste novo estilo de musical foi "The Rocky Horror Picture Show - Festival Rocky de Terror", realizado em 1975 por Jim Sharman, que foi um fracasso de bilheteira quando estreou, mas que, as sessões à meia-noite nos cinemas, que estiveram na moda  durante os anos 80, o  tornaram num filme de culto. A década de 70 não haveria de terminar sem Bob Fosse, coreógrafo de sucesso nas décadas de 50 e 60, tornado realizador no final dos anos 60, apresentar o seu "All That Jazz - O Espectáculo vai Continuar" em 1979, um filme semi-autobiográfico onde Roy Scheider tem uma das grandes interpretações da sua carreira ao mostrar que sabe cantar e Jessica Lange surge mais angelical que nunca. O filme ganha diversos prémios, incluindo a Palma de Ouro em Cannes e torna-se numa das grandes obras da década e também do cinema.      
   Outros filmes que apareceram, durante a segunda metade da década utilizando este novo formato de Hollywood fazer musicais, como "Bugsy Malone", "Lisztomania", "New York, New York" foram sucessos relativos de bilheteira, ou "Grease" que foi um dos maiores sucessos  da década e que abriu caminho para, nas décadas seguintes, outros filmes provarem que esta fórmula estava correcta e que, com uma ajudazinha dada pela Broadway e pelo West End Londrino, chegou-se à conclusão que afinal ainda se podiam fazer  musicais com alguma confiança. Foi o caso de "Hair"(Milos Forman, 1979), "Annie"(John Huston, 1982), "Victor Victória"(Blake Edwards,1982) ou esse enorme sucesso de bilheteira que foi "Fame - Fama" (Alan Parker, 1980), "Absolute Beginners - Absolutamente Principiantes" (Julian Temple, 1986), "Evita" (Alan Parker, 1996).
   O final do século XX veria o musical estender-se aos filmes de animação, predominantemente da Disney, graças ao trabalho apurado de Howard Ashman, Alan Menken ou Stephen Schwartz que produziram inesquecíveis canções em filmes como "A Pequena Sereia", "Aladdin" "O Corcunda de Notre Dame", "A Bela e o Monstro" ou "Rei Leão" e que deram ao género um novo fôlego.
   No século XXI, o género parece ter ganho alguma popularidade com adaptações da Broadway para o grande écran. Filmes como "Moulin Rouge" (Baz Luhrmann, 2001), "Chicago" (Rob Marshall, 2002), "Phantom of the Opera - O Fantasma da Ópera" (Joel Schumacher, 2004), "Sweeney Todd - O Terrível Barbeiro de Fleet Street" (Tim Burton, 2007) ou "Mamma Mia" (Phyllida Lloyd, 2008), têm, de certa forma, feito reviver um género que se diz estar extinto, e que, uma nova geração de cineastas, actores e actrizes e público em geral, tem vindo a descobrir fazendo com que, tal como o Western, se adie a sua extinção.
   Só o tempo é que o poderá dizer.


Nota: todas as imagens utilizadas neste texto foram retiradas da Internet


Comentários

Mensagens populares