Heat - Cidade sob Pressão

    O género policial ganhou grande visibilidade a partir do filme "Bullit" (Peter Yates, 1968) e da sua hoje lendária perseguição automóvel pelas ruas de S.Francisco, foi evoluindo e hoje tem o seu espaço definido na sétima arte e muitos foram os filmes que contribuíram para a definição do género. "Heat - Cidade sob Pressão" limita-se a prolongar essa mesma definição levando-a pelos caminhos da quase perfeição.

   Vincent Hanna e Neal McCauley são dois homens que estão nos dois lados opostos da lei: Hanna é Detective-Tenente na policia de Los Angeles, McCauley é um ladrão profissional. Após um assalto, Hanna é o detective encarregado de investigar o roubo e Neal McCauley é o seu principal suspeito. Entre os dois nasce uma mútua admiração e vão-se apercebendo que têm mais em comum do que pensavam (Hanna é divorciado e não tem vida própria, até o seu mais recente casamento está por um fio; McCauley é um ex-condenado e não tem tempo para criar raízes sob pena de ter que largar tudo e fugir se se sentir ameaçado, como ele próprio o diz a dado momento a Eady, a sua namorada). Entre ambos está uma cidade sob pressão...
     "Heat" é baseado em "L.A.Takedown", um telefilme que Michael Mann realizou em 1989 e que seria o episódio-piloto de uma série policial que acabou por não ser feita. Mann aproveitou então o argumento do telefilme e reescreveu-o para este filme e em boa hora o fez porque ficámos todos nós (cinéfilos) a ganhar. O projecto inicial era uma espécie de "Miami Vice" (1984-1989), série criada por Mann, com todos os ingredientes da série anterior (felizmente sem Don Johnson), passada em Los Angeles...o que não traria nada de novo e a sensação que pairaria no ar seria a de um "dejá-vú" isto em qualquer lugar!
    
    Quando se juntam no mesmo filme os dois melhores actores do mundo (venha daí quem discordar!) perfeitamente secundados por um elenco de luxo, o resultado só pode ser um grande filme de muita qualidade.Al Pacino e Robert DeNiro só haviam contracenado juntos uma única vez no fabuloso "Padrinho - Parte II" (Francis Ford Coppola, 1974) mas não tiveram nenhuma cena juntos. Ambos lamentaram o facto durante anos e era sua vontade partilharem o écran. "Heat" permitiu que isso acontecesse e o resultado é, nada menos que, magia pura: as cenas entre ambos são autênticas batalhas de gigantes, absolutamente brilhantes, nenhum deles tem que se esforçar para se evidenciar; as suas interpretações são tão credíveis que dificilmente acreditamos que estamos a ver um filme: para conferir as minhas palavras basta ver com atenção a cena passada no café do aeroporto de Los Angeles onde um e outro se confrontam naquilo que mais parece uma conversa de amigos do que um confronto entre um policía e um ladrão: é das melhores cenas de interpretação que vi em toda a minha vida e se o filme terminasse ali, já teria valido só por isso. 
Do restante elenco salientam-se as interpretações do Val Kilmer, Tom Sizemore, Diane Venora e o regressado Jon Voight.
   
Michael Mann
A realização de Michael Mann, autor de filmes como "Thief- Ladrão Profissional" (1981),   em que um ex-presidiário, arrombador de cofres, tenta reconstruir a sua família mas a Máfia não lhe facilita a vida; "Manhunter - Caçada ao Amanhecer" (1986), primeira incursão de Hannibal Lecter no cinema, anos antes de "O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991); " Last of the Mohicans - O Último dos Moicanos" (1992), enésima versão cinematógráfica deste clássico da literatura mundial com Daniel-Day Lewis e uma excepcional banda sonora; "Collateral" (2004) com Tom Cruise no papel de um assassino contratado que "rapta" um taxista para que este o conduza de alvo em alvo, ou "Miami Vice" (2006) adaptação para o grande écran da série policial acima citada, é estilizada com muita influência televisiva ( a cena do assalto no incio do filme ou a trama a meio do filme com o assassino das prostitutas), a câmera sempre em movimento a  parecer que estamos perante um documentário, (toda a sequência do assalto ao banco e o tiroteio que se segue, em pleno dia e em hora de ponta ou a da perseguição no aeroporto, a fazer lembrar "Bullit"). Michael Mann filma tudo isto de maneira absolutamente credível e realista. 
     Outros dos trunfos do realizador, além de saber contar uma história, é a utilização da banda sonora que procura adequar ao material que filma (estranha e electónica em "Thief", melancólica em  "Heat"; épica em "Last of the Mohicans", moderna e barulhenta em "Miami Vice"). E Também a fotografia cuidada que usa nos filmes (Oscar da Academia em "O Último dos Moicanos"): o seu uso dramático da cor, é uma mais valia para cada filme: atente-se às cenas nocturnas em  "Heat", filmadas usando tons de azul, que ganham vida própria tornando-se parte integrante do filme e não apenas cenário.
   Estamos perante um dos melhores exemplos de cinema da década de 90 do século passado e um dos melhores policiais de sempre,uma obra-prima capaz de ombrear com clássicos do género como "Bullit", "French Connection" (William Friedkin, 1971) ou "Dirty Harry" (Don Siegel, 1971) para só citar alguns dos mais conhecidos."Heat" tem servido também de modelo a alguns filmes policiais recentes como  "We Own the Night - Nós controlamos a Noite" (James Gray, 2007) ou "The Town - A Cidade" (Ben Affleck, 2010), filmes que, de alguma maneira, têm marcado pela positiva o género.  

     Se dúvidas houver, quanto há grande qualidade de "Heat" é porque não vimos todos o mesmo filme!


Nota: As imagens e vídeos utilizados neste texto foram retirados da Internet

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