Lawrence da Arábia, O Melhor Filme de Aventuras da História do Cinema!




   Steven Spielberg disse uma vez sobre David Lean que todo o seu talento estava resumido na cena final de "Doctor Zhivago (1965), em que o General Yevgraf Jivago (Alec Guiness) pergunta à sua suposta sobrinha Tonya (Rita Tushingham) se ela sabe tocar a Balalaika, o seu namorado responde que ela é um génio com aquele instrumento, o General pergunta quem a ensinou e ela diz que ninguém.  Sorrindo, o general diz que então é um dom". Dom esse que só é dado a alguns, como ficou provado em“Lawrence da Arábia”.
   Thomas Edward Lawrence é um Oficial do exército Britânico que, descontente com a vida que leva, aceita ir investigar a revolta das tribos árabes contra os turcos durante a Iª Guerra Mundial. Sentindo uma atracção inexplicável pelo deserto, vai ter uma intervenção decisiva no desenrolar dos acontecimentos.
David Lean 
   Magistralmente realizado por David Lean, foi o seu projecto seguinte a seguir ao multipremiado “Ponte do Rio Kwai” (1957) que era um excepcional exercício sobre comportamento humano em tempo de guerra tendo como pano de fundo um campo de prisioneiros japonês. “Lawrence da Arábia” insere-se perfeitamente na temática da obra anterior do seu realizador. Graças ao perfeccionismo latente de Lean, pode dizer-se que este filme prolonga o choque dos comportamentos que percorrem todo o universo de “A Ponte do Rio Kwai”, apesar de ambos se situarem em guerras e cenários diferentes, esse conflito está sempre presente mesmo quando se estende ao cenário e personagem principal de todo o filme: o deserto.
   Ao longo de quase quatro horas de duração este cenário imenso, com a sua pureza e limpeza (como diz, a dado momento, Lawrence ao repórter que o entrevista) é o palco dessa eterna luta de vontades e comportamentos. Essa percepção faz-se na cena em que Lawrence simplesmente apaga o fósforo com um ligeiro sopro e a acção passa para o deserto, assinalando o seu inicio um magnifico nascer do sol e a excepcional e inconfundível banda sonora de Maurice Jarre. É difícil, hoje em dia, dissociar as orquestrações de Jarre das belissímas imagens que Lean nos proporciona. Nunca o deserto foi tão bem filmado e nos pareceu tão interminável como nesta obra.
O realizador em acção
    Todo o filme é um desfilar de cenas brilhantemente construídas, sob o olhar perfeccionista de David Lean, como por exemplo o primeiro encontro entre Lawrence e o Xerife Ali com este a aparecer no horizonte e a aproximar-se lentamente ante a curiosidade do militar inglês; a travessia do deserto a caminho de Aqaba; a própria movimentação das tropas de Auda; só para citar alguns dos exemplos marcantes do filme.
As cenas de acção são excepcionalmente bem encenadas e coreografadas. Hà, para além do cuidado posto na realização, um sentido de espectáculo próprio de uma superprodução nas cenas como por exemplo na do ataque a Aqaba; a sabotagem das linhas férreas; ou na carga que Lawrence manda fazer sobre as tropas Turcas em retirada; para além da própria tomada de Damasco que é, talvez, a cena mais bem conseguida de todo o filme. Aliás o seu estilo visual influenciou realizadores como George Lucas, Sam Peckinpah, Martin Scorsese e muitos outros que reconhecem o filme como um milagre cinematográfico.
   Baseado maioritariamente na obra homónima de T.E.Lawrence “Seven Pillars of Wisdom” (Sete Pilares da Sabedoria), outras fontes também foram usadas, tais como "Hero: The Life and Legend of Lawrence of Arabia" uma biografia escrita por Michael Korda; ou fontes históricas como "The Arab Revolt 1916-1918" de  David Murphy.
   Um primeiro rascunho do argumento foi escrito por Michael Wilson mas David Lean mostrou-se insatisfeito porque este apenas  focava os aspectos históricos e políticos da revolta Árabe. O que o realizador pretendia era um argumento que desse um estudo do carácter de Lawrence. Lean contratou então o argumentista Robert Bolt para reescrever o argumento. Enquanto muitas das personagens e cenas pertencem à versão de Wilson, practicamente todos  os diálogos que aparecem na versão final do filme são da autoria de Bolt. Somos confrontados com as impressões, os pensamentos e as opiniões do militar sobre o conflito entre Àrabes e Turcos, onde ele participou activamente. Personagem complexa como ele próprio se apresenta, ninguém, tal como as pessoas que, no inicio do filme, assistem ao seu funeral e falam sobre ele (a última das quais é o irmão mais novo de T.E.Lawrence), chegou realmente a conhecê-lo.
   Interpretado por um elenco de luxo onde, para além de actores consagrados como Alec Guiness, Omar Sharif ou Anthony Quinn, se encontrava um quase estreante de nome Peter O’Toole sobre quem caiu a enorme responsabilidade de interpretar o papel de Lawrence, o que faz com considerável sucesso, mercê de algum treino adquirido nos palcos londrinos e que iria marcar a carreira do actor para todo o sempre. Apesar de já ter uma carreira longa, onde interpretou todo o género de personagens, desde vilões a aventureiros passando por papéis dramáticos e cómicos, O’Toole nunca conseguiu desvincular-se desta personagem.

A Restauração de um Clássico
       Produção acidentada, conheceu vários momentos em que esteve para nunca acontecer principalmente devido a conflitos que opunham o realizador David Lean ao seu produtor Sam Spiegel.             O próprio filme acabou por ser vitima disso mesmo: Pouco tempo antes da estreia, Spiegel achou que o filme era grande demais e decidiu reduzir-lhe a duração. Contra os protestos do realizador, o filme foi reduzido para uma versão de 188 minutos e foi essa a versão que estreou em 1962 e que se manteve até meados da década de 70, quando o filme já era famoso e David Lean já não realizava devido ao fracasso comercial e critíco que tinha sido “A Filha de Ryan” (1970) e também ao abortar consecutivo dos planos para uma nova versão de "A Revolta na Bounty", um projecto que Lean acarinhava há já alguns anos, o filme foi então remontado e a sua metragem aumentada para 210 minutos e feita nova estreia com considerável sucesso. Finalmente em 1989, Lean, com a ajuda de vários realizadores entre os quais se contavam Martin Scorsese, Steven Speilberg, Francis Ford Coppola e George Lucas, confessos admiradores do realizador, conseguia restaurar o filme na sua duração real de 222 minutos (incluindo a abertura, intervalo e música de encerramento), com imagem e som, principalmente do material novo, melhorado.  A maior parte das cenas cortadas eram sequências de diálogos e  cenas onde se inclui a abertura do II Acto, e a cena em que o Princípe Faisal é entrevistado pelo jornalista Bentley. Todos os actores que ainda se encontravam vivos na altura da restauração, regressaram para dobrar os seus diálogos.
   O sucesso obtido por esta nova restauração foi enorme levando a uma nova estreia, desta vez com pompa e circunstância, conseguindo o feito de chegar a um novo público e a consequente elevação do filme à classificação de obra-prima do cinema.
Filme de aventuras, filme de guerra, drama, “Lawrence da Arábia” foi galardoado com sete Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme do Ano e Melhor Realizador.
   Considerado uma obra-prima do cinema mundial, presença obrigatória em qualquer lista de Melhores Filmes de Sempre, continua, passados estes anos todos, a ser um dos melhores exemplos da arte de fazer cinema e a melhor superprodução de todos os tempos. Sem dúvida nenhuma o melhor filme de aventuras da história do cinema.


Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet

Comentários

  1. Magnífico texto sobre um magnífico filme que nos exulta a todos à grande aventura e a uma reflexão profunda que vai muito para além da biografia de Lawrence. É isso que o torna num filme intemporal.

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