Laranja Mecânica - A Visão Profética de Stanley Kubrick

                                                                    

                                                                                             

Stanley Kubrick, um perfeccionista obsessivo
   Em 1948 um escritor inglês tinha um texto, para o qual não tinha título. Falava de um mundo futurista com uma ordem totalitária no qual falar, pensar ou agir tinha que ser feito com todo o cuidado pois o "Big Brother" estava sempre vigilante e punia todos os que se revoltassem contra o sistema. George Orwell assim se chamava o escritor, invertendo os últimos dois digítos da data, obtém o título e torna a obra, à data, profética. Entre o livro e a data surgiu "Laranja Mecãnica", onde o mundo imaginado por Orwell adquire uma outra realidade na escrita de Anthony Burgess e no olhar perfeccionista de Stanley Kubrick.
   Inglaterra, algures num futuro próximo, Alex DeLarge e os seus companheiros vagueiam ao sabor da noite espancando, violando e roubando quem se lhes cruza no caminho. Um dia Alex é apanhado pelas forças de segurança, feito prisioneiro e mais tarde será voluntário para um tratamento experimental desenvolvido pelo governo para lidar com os problemas da criminalidade. mas nem tudo corre como Alex pensara e o resultado será imprevisível.
   Brilhantemente realizado por Stanley Kubrick , "Laranja Mecânica" é baseado num livro de Anthony Burgess escrito em 1962 que retratava um bando de jovens delinquentes futuristas baseado nos "Mods" e "Rockers" que lutavam nas praias de Inglaterra no final da década de 50, principio da de 60. O romance trata simplesmente do facto desses jovens se entregarem aos seus desejos de violação, violência, drogas, roubo e outros vícios. Utilizando uma linguagem criada de propósito para o livro, Kubrick consegue, no filme, transmitir todo o sarcasmo presente nas palavras proferidas por Alex, quer em voz-off, quer nos próprios diálogos entre as personagens. O texto de Burgess parece trancrito na integra para a tela fazendo com que aquele rápidamente se tornasse num best-seller na década de 70 do século passado e termos como ultra-violência viessem a fazer parte de alguns dicionários.
   É sabido que Kubrick nunca gostou de sequelas (nem sequer gostava do termo). Na década de 80 do século passado, o realizador recusou fazer mesmo "2010" a continuação do seu mitíco "2001:Odisseia no Espaço" (1968), baseado no livro do mesmo título de Arthur C.Clarke, porque entendeu que nada mais havia a dizer sobre o assunto; o filme foi feito por Peter Hyams em 1984 e o resultado foi...para esquecer!
   Mas hà algo de "2001" em "Laranja Mecânica": atente-se na cena final de "2001" quando o bébé abre os olhos e olha na direcção da terra ao som da fabulosa fanfarra de Richard Strauss "Assim Falava Zaratrusta" e o inicio de "Laranja Mecânica" com o grande plano do olhar de Alex: este pode muito bem ser entendido como uma continuação daquele sem, no entanto, o ser efectivamente. É um contraste absoluto: o olhar sereno do bébé no final de "2001" e o olhar violento, algo malicioso de Alex no inicio de "Laranja". Stanley Kubrick alguma razão terá tido para começar "Laranja Mecãnica" com esse fabuloso grande plano inicial, sob uma voz off, que depois vai recuando progressivamente e vamos vendo o local onde Alex e os seus compinchas se encontram a beber o seu leite antes de irem para a cidade onde espancam um bêbado, lutam com um bando rival que se entretinha a violar uma jovem rapariga, roubam um carro, conduzem que nem uns doidos , assaltam a casa dum escritor, à sua frente violam-lhe a mulher e espancam-no violentamente,  num dos inícios de filme mais violentos que alguma vez se viu...o resto é história!
Stanley Kubrick e Malcolm McDowell
   Malcolm McDowell interpreta Alex, o delinquente que gosta de ultra-violência, violações e Beethoven (excelente aproveitamento musical de peças do compositor e de outros, em versões electrónicas tocadas por Wendy Carlos, que inicialmente assinou a banda sonora como Walter Carlos para não criar problemas ao realizador). O actor é absolutamente fantástico na sua composição. Foi a sua interpretação do jovem aluno rebelde numa instituição privada de ensino em Inglaterra no filme "If..." (Lindsay Anderson, 1968) que chamou a atenção do realizador que viu nele o seu Alex. Aliás toda a carreira do actor girou sempre em torno desta personagem, porque, se exceptuarmos "Calígula" (Tinto Brass, 1979) onde dá vida ao imperador romano, nada mais podemos acrescentar à sua carreira que seja sufucientemente relevante.
O cuidado com a imagem
   Usando e abusando dos grandes planos que depois se tornam médios planos até formarem uma imagem de composição (ver por exemplo a fabulosa cena nocturna do espancamento do velho no tunel ou o já citado inicio), Stanley Kubrick filma cenas inesquecíveis e de uma beleza plástica acima de qualquer reparo: além das já citadas cenas, ver por exemplo a violação da senhora dos gatos; as cenas da prisão governamental ou as cenas do tratamento a que Alex é submetido com a utilização da música de Beethoven: absolutamente violento e ao mesmo tempo irónico,  ironia que se mantém até ao final, quando Alex, depois de ter sido raptado e torturado ao som da "Gloriosa Nona Sinfonia de Beethoven", sente repúdio pela música,  tenta o suicídio que não acontece e vem o próprio ministro, que criou o Método Ludovico para o qual Alex  se voluntariou, oferecer-lhe um emprego com um bom salário em troca duma cooperação com a imprensa. Alex ouve a "Nona de Beethoven" e pensa em ter sexo com uma mulher - sorri, está mesmo curado. É livre para ser perverso novamente. Estamos  perante um "Kubrick vintage".
   O filme provou ser demasiado polémico e, no entender, de alguma imprensa Britânica, único responsável por incidentes onde alguma da sua extrema violência foi imitada por pessoas que diziam ter sido o filme que as levara a isso.  Kubrick defendeu-se dizendo "Tentar atribuir à arte qualquer responsabilidade nos acontecimentos da vida é tentar inverter as coisas...". Este argumento não resultou muito bem e o filme foi proibido de ser exibido publicamente no Reino Unido entre 1974 e 2000, já depois da morte do realizador.
   Obra-prima intemporal, "Laranja Mecânica", 40 anos depois da sua estreia, continua tão actual como então. É um filme que nos convida a refectir sobre o seu tempo e também ( e este é o grande feito do filme!) nos obriga a uma reflexão sobre o tempo em que vivemos. Impressiona ver o que o realizador conseguiu ver antes do tempo e a maneira como transpôs a sua visão para o grande écran.
Inesquecível sempre e obrigatório também.



Nota: Todas as imagens e vídeos que ilustram este texto foram retirados da Internet

Comentários

  1. Excelente artigo, como é habitual. Em relação à história do final do 2001 e do olhar do Alex, já sabes que não concordo contigo, uma vez que são ilustrações de cenas que nada têm a ver uma com a outra, apesar de ambos os filmes serem de ficção científica. Mas eu sei que colocaste isso à laia de provocação, eh! eh! eh! Um abraço.

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