O Western: Origem e Mito

   O Western é, talvez, o género  mais conhecido do mundo. É aquele género que facilmente encontramos em filmes, televisão, literatura e em outras formas de arte como a pintura por exemplo. Os westerns contam-nos histórias do velho oeste americano passadas, maioritáriamente, na segunda metade do século XIX, embora houvesse westerns, cuja acção decorria entre a Batalha do Álamo (1836) e o fim da Guerra Civil Americana (1865), outros há, cuja acção decorre nos dias de hoje, em que as personagens são inspiradas nas chamadas "personagem-tipo"do western.
   A palavra "western"significa ocidental e refere-se à fronteira do Oeste Norte-Americano aquando da colonização do continente. Também conhecida como "Far West", é daqui que provém a expressão "faroeste" que se tornou popular em muitos países antes de ficar conhecido simplesmente como western.
   Os westerns, geralmente, retratavam modos de vida primitivos  confrontados com tecnologia moderna ou mudanças sociais. Os confrontos entre os nativos (índios) e os colonos que vinham ocupar as terras, entre criadores de gado e os agricultores ou ainda os rancheiros sentirem-se ameaçados com o advento da Revolução Industrial, são apenas alguns exemplos retratados nesse género.
   Os westerns produzidos nas décadas de 40 e 50 do século passado, davam enfâse aos valores de honra e sacrifício enquanto nas décadas de 60 e 70 esses valores foram substítuidos por uma visão mais pessimista, glorificando o anti-héroi rebelde, evidenciando o cinismo, a brutalidade e a falta de qualidade do Oeste Americano. Apesar de estarem fortemente ligados a períodos específicos da História Americana, estas temáticas permitiram que os westerns fossem produzidos e apreciados em todo o mundo.
   O género, muitas vezes, mostrava a conquista de zonas selvagens ou confiscação de direitos territoriais aos seus donos originais e a subordinação da natureza na fronteira em nome da civilização. O western move-se dentro duma sociedade organizada à volta de códigos de honra  e justiça pessoal, privada ou directa. A percepção popular do western  é a de uma história que se centra na vida de um vagabundo semi nómada, habitualmente um cowboy ou um pistoleiro. Tais protagonistas foram, muitas vezes considerados os descendentes literários dos cavaleiros nómadas que percorriam a Europa em tempos mais antigos e tal como estes salvavam donzelas em perigo, os cowboys  também o faziam. Similarmente, os protagonistas destas vidas nómadas partilhavam muitas características com a imagem do "Ronin" na cultura Japonesa.
   Pode-se considerar  "The Virginian" escrito por Owen Wister em 1902, o primeiro romance Americano deste género, mas já em 1826, James Fenimore Cooper com o seu "Last of the Mohicans" (O Último dos Moicanos) um romance histórico, dera o seu  contributo para a compreensão das lutas entre tribos indias e a colonização da Fronteira Americana. Até na Europa, particularmente na Inglaterra onde Arthur Conan Doyle, no primeiro romance de Sherlock Holmes "A Study in Scarlet" (Um Estudo em Escarlate) de 1887, na segunda parte deste, ele descreve a vida dos Mórmons no continente Norte-Americano usando todos os elementos de um conto do Oeste em finais do séc.XIX. O westerna já existia, portanto, antes do advento do cinema consagrado num género distinto de todos (como viriam a ser os seus filmes) onde autores como Zane Grey, Elmore Leonard ou Louis L'Amour, entre outros, deram o seu contributo definitivo.
Justus D.Barnes em "the Great Train Robbery" de 1903
   No cinema, o western deu os seus primeiros passos em 1903 com o filme "The Great Train Robbery" realizado por Edwin S.Porter. Tratava-se de um filme mudo mas que granjeou muita popularidade entre o público. Em 1914 "The Squaw Man" de Cecil B.DeMille tornava-se na primeira longa-metragem rodada em Hollywood. Nesse mesmo ano, DeMille transpunha para o écran a obra pioneira do género, "The Virginian" onde colaborou com o autor Owen Wister na elaboração do argumento. O género foi sofrendo uma evolução constante perante a crescente popularidade da fórmula. Em 1923 James Cruze realiza o primeiro western épico, "The Covered Wagon", sobre uma longa viagem pelos territórios selvagens até á Califórnia. No ano seguinte, John Ford com "The Iron Horse", sobre a construção dos caminhos de ferro, obteria um enorme sucesso que o iria definir como um dos nomes maiores do género.
   Durante a década seguinte, os estúdios chegavam a produzir mais de uma centena de westerns por ano, ainda que a maior parte deles fosse de série B, o género manteve-se sempre em alta junto do público.  Passou a utilizar-se a película de 70 milímetros que permitia englobar toda a paisagem da fronteira ocidental; John Wayne foi revelado ao público, tornando-se num verdadeiro ícone do western, e cuja participação em dezenas de westerns, lhe valeriam a alcunha de "O Duke"; em 1931 "Cimarron" de Wesley Ruggles recebia o Óscar para Melhor Filme do Ano e seria, durante anos, o único filme deste género  a receber tal distinção.
John Ford no cenário de muitos dos seus westerns
   A idade de ouro do western, durante as décadas de 40 e 50 do século passado, teve como expoente máximo o trabalho de dois realizadores: o já citado John Ford que com "Stegecoach" (Cavalgada Heróica) de 1939, considerado como um dos melhores westerns de sempre e "My Darling Clementine" (A Paixão dos Fortes) de 1946, onde, de forma brilhante, conta a história de Wyatt Earp e Doc Holliday e do famoso tiroteio de Ok Curral - personagens e episódio verídicos e que se tornaram mitológicos na História Norte-Americana, mas foi com "The Searchers" (A Desaparecida) de 1956, onde passou em revista todos os temas do género que o seu nome se tornou incontornável na história do cinema; o outro é Howard Hawks, onde, só, os filmes "Red River" (Rio Vermelho) de 1948 ou o mítico "Rio Bravo" (Rio Bravo) de 1959, lhe garantem um lugar no Olimpo do género.
John Wayne um dos ícones do western
   A década de 60 trouxe a revisão da matéria dada e questionou muitos dos temas e caracteristícas próprias do género. Assim, os índios, afinal não eram tão maus como os retratavam (John Ford que, em "Stagecoach retratara os indios como maus, antecipa-se e, com o seu último western "Cheyenne Autum"em 1964 homenageia-os como as grandes vítimas que tinham sido ao longo do período áureo do género), o bom não era tão bom como aparentava ser e o mau não era tão mau. As audiências, fruto da década de mudanças que se atravessava, começaram a exigir  histórias mais complexas que não se limitassem ao duelo do bom contra o mau. Foi para responder a estas questões que surgiram "The Man who shot Liberty Valance" (o Homem que matou Liberty Valance") de John Ford ou "Little big man" (o Pequeno grande homem) de Arthur Penn. Mas percebia-se que o género estava em declínio, apesar desse grande clássico Americano que é "The Wild Bunch" (A Quadrilha Selvagem) de 1969 em que um grupo de foras-da-lei percebe que os seus dias estão contados e resolvem teminar a sua existência em  glória.
   Durante as décadas de 60 e 70, deu-se um certo revivalismo do género com os chamados "western-spaghetti", obras de baixo orçamento, produzidas por Italianos e filmadas em Espanha e Itália e que se caracterizavam por uma violência extrema, muita acção e algum melodrama tão ao gosto popular. Não há um herói no sentido clássico (leal e de inequívoca moral). O que temos é um "herói ao contrário" ou um anti-herói, o "Homem sem Nome", um mercenário, violento e de baixa moral. Além disso, o agente da lei é corrupto e os protagonistas não se envolvem em romances. O expoente máximo deste revivalismo foi o realizador Sergio Leone com a sua famosa "Trilogia dos Dólares" (Por um Punhado de Dólares em 1964, Por mais alguns Dólares em 1965 e O Bom, O Mau e o Vilão em 1966) que fez de Clint Eastwood uma vedeta e outro dos nomes indissociáveis do género, ou "Once Upon a Time in the West" (Aconteceu no Oeste) de 1968, que, além de homenagear todas as temáticas do género, ainda destacou o papel feminino dentro do western (Claudia Cardinale num dos seus mais importantes papéis no cinema). Além de Eastwood, outros actores como Lee Van Cleef,  James Coburn, Klaus Kinski, Franco Nero, Giuliano Gemma, Terence Hill, Bud Spencer ou até mesmo Henry Fonda foram presenças que garantiram o sucesso deste sub-género do western.
   As décadas finais do século XX, viram o género sub-desenvolver-se novamente no chamado "Western pos-apocaliptíco" no qual se retrata uma sociedade futura que tenta sobreviver depois de uma qualquer catástrofe social ou ecológica, num ambiente desolador que lembra muito a fronteira do Oeste Americano do século XIX. Filmes como "The Postman" (O Mensageiro) de 1997 ou os filmes "Mad Max" (As Motos da Morte) de 1979, ou "Mad Max II" (O Guerreiro da Estrada) de 1981 são bons exemplos disso.
   Caberia a  Clint Eastwood com o seu magnifico "Unforgiven" (Imperdoável) de 1992, fechar a porta do género. Utilizando novamente os elementos típicos do western, subverte as reacções e o comportamento das personagens que, em vez da dureza habitual, gritam, choram, lamentam-se e imploram misericórdia; em vez de aparecer um herói que vem salvar o dia, surge apenas a vingança, nua e crua, de alguém que não espera qualquer tipo de redenção; onde, em vez do "happy ending"habitual, vemos um pôr-do-sol e alguém recolhido em frente a uma campa em silêncio fechando-se assim  o mais querido género de cinema do mundo.
O Fim?
   Seja como for, o género ainda não morreu e continua  a ser revisitado quer pelo cinema, quer pela literatura e até mesmo pela televisão, sempre com boas referências e enquanto assim for, podemos sempre fazer como "Lucky Luke" faz na banda desenhada, álbum após álbum, cavalgar em direcção ao pôr-do-sol e esperar pelo próximo western.


Nota: Todas as imagens que ilustram o texto foram retiradas da Internet
   
   

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